Por estes tempos juninos lembramos que da mesma forma em que pouco se pensa em Jesus, na época de Natal, menos ainda em João Batista nos dias de São João. Assim como o peru e o champagne, as quadrilhas, o forró e canjicas roubam a cena dos homenageados.
São João, o Batista ▪️ Arte: Ticiano (1542)
Afinal, João Batista foi um pregador judeu cujos ensinamentos muito se sintonizavam com os do meigo nazareno, sobretudo no que se referia à reforma íntima. Ele promovia rituais de purificação corporal por meio da imersão na água, que significavam o batismo em busca da mudança interior.
Profetizou a vinda de Jesus, a quem chamava de Messias, e realizou pregações públicas em torno da mensagem que viria a pautar o Novo Testamento. O modo de vida e maneiras de ensinar eram tão semelhantes aos do profeta Elias que Jesus chegou a dizer que ele era a reencarnação de seu espírito. Esta passagem e a “Transfiguração do Monte Tabor” são significativas e irrefutáveis menções acerca da veracidade do mundo espiritual, da reencarnação e da possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados.
Herodíades com a cabeça de João Batista ▪️ Arte: Alonso Berruguete (1514)
Muito além de canjicas, pamonhas, “forró pornô” ou “pé de serra”, hoje é dia de se pensar, também, no filósofo, no profeta, no precursor de Jesus de Nazaré, o João Baptista. Se bem que nessa época de religiões cada vez mais barulhentas e festivas, muito longes do que prega o Evangelho, o São João está tão distante do judeu pregador, quanto o Natal de Jesus. Quadrilhas e fogueiras juninas, peru e presunto natalinos sempre se sobressaem ofuscando com o lado mundano a essência de significativas datas.
Este filho de Isabel, prima de Maria, aquele que primeiro anunciou a chegada do Messias num período em que se exacerbava a desilusão do povo judeu perante a lei mosaica, que já não preenchia os vazios existenciais de uma gente ansiosa por novas revelações, ocupa um importante lugar nas sagradas escrituras. Independente do parentesco, Jesus cultivava-lhe esmerado apreço.
A Anunciação ▪️ Arte: Giorgio Vasari (1567)
João Baptista levou a vida a pregar o arrependimento e a reforma íntima. Batizava como símbolo de benção aos que se iluminavam de verdades morais e espirituais. Batizou até o próprio Cristo nas calmas águas do Jordão, quando se fez presente mediunicamente a voz da Espiritualidade Maior a afirmar: “este é o Meu filho amado no qual ponho
O Sermão de João Batista ▪️ Bernardo Strozzi (1644)
João Baptista bateu de frente contra os desmandos e a vida desregrada e incestuosa do Rei Herodes e seus familiares. Tanto incomodou com suas corajosas acusações que terminou preso, e depois degolado por puro capricho vingativo de sua esposa Herodíades, através da malícia da filha Salomé. Esse episódio grotesco e cruel deixou marcas indeléveis que revelam a intolerância brutal exercida pelas classes dominantes da época: a nobreza, os religiosos fariseus e os gentios, elite podre e hipócrita a cujos membros Jesus chamava de sepulcros caiados, tal a podridão mental e moral que neles percebia. E aos religiosos não poupou ataques, chegando a dizer que as meretrizes e os publicanos (corruptos cobradores de impostos) “entrariam no Reino dos Céus primeiro do que eles”.
Mas para São João, Jesus só tinha elogios e admiração: “o maior profeta de todos os tempos”. Hoje, ele merece deferências e reflexões. E menos fogueiras e foguetões.









