Orgulho daquele pai , o moço Geraldo cantava o Hino Nacional inteirinho desde os seis anos de idade. No começo da adolescência, sabia q...

O Underwood, o Hino e a Copa

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Orgulho daquele pai, o moço Geraldo cantava o Hino Nacional inteirinho desde os seis anos de idade. No começo da adolescência, sabia que as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico. Então, quando nosso professor de Português pediu à classe para achar o sujeito no verso inicial deste que é um dos mais belos cânticos cívicos do mundo, Geraldinho não se deixou enganar pela inversão da frase. “As margens plácidas, professor”,
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respondeu, com absoluta convicção, depois que quatro colegas chutaram “sujeito oculto”. Outros tantos arriscaram “sujeito indeterminado: eles, ou elas, ouviram”...

Ao velho mestre não surpreendeu o acerto do mais aplicado dos seus pupilos. Requereu explicação para a resposta dada ao problema gramatical suscitado pela Copa do Mundo (quando tínhamos time melhor) apenas para animar a aula. E Geraldinho explicou, na bucha: “Basta por a frase na voz direta para a identificação imediata do sujeito”. Que aluno!

Seu Alfredo, o pai orgulhoso, costumava exaltar o avanço da cria nos estudos frente aos amigos geralmente servidos, no bar da esquina, de cerveja e tira-gosto. Parte da sua plateia já conhecia a capacidade do garoto de idas frequentes ao recinto que também abrigava uma lanchonete. Ali, entre um sanduíche e uma Coca-Cola, o mocinho respondia sem titubear sobre o significado de expressões cunhadas nos versos de Joaquim Osório Duque-Estrada. Versos que somente chegaram à melodia de Francisco Manuel da Silva 87 anos depois de composta para celebrar a abdicação de Pedro I.

⏤ O que é retumbante?
⏤ Ressoante, estrondoso.

⏤ O que é fúlgido?
⏤ Brilhante, reluzente.

⏤ E lábaro?
⏤ Bandeira, estandarte.

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Clava, o cervisiamófilo Euclides, numa dessas ocasiões, soube responder: “É porrete”. Alguém, de pronto, observou que “maça”, ou “bastão”, caberia de melhor modo num hino. A propósito, o filho de Seu Alfredo não fazia a menor ideia do que significa “cervisiamófilo”. Nem eu, até consultar um dicionário e descobrir que o termo, muito culto, diz respeito ao apreciador, ao amante da cerveja.

É a imagem daquele mestre que me surge quando a Seleção Brasileira agora busca o hexacampeonato. Eu o tive como professor em dois colégios, o primeiro deles, o Underwood, privado.
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O outro, logo em seguida, foi o Santa Júlia, assim que o governador João Agripino abriu as portas da rede estadual de ensino a uma parcela maior da juventude.

Cheguei ao Santa Júlia a fim de cursar o Segundo Ano Ginasial, assim tratado, atualmente, o Sétimo do Ensino Fundamental. Reencontrei, ali, o velho professor. Na época, o corpo docente do Estado preocupava-se, seriamente, com o ritmo de aprendizagem dos alunos advindos da rede particular que então detinha escolas de pior nível, as do gênero PP, “Pagou, Passou”.

Iniciadas as aulas e interessado, durante a chamada, em identificar o joio e o trigo, ele pediu que os novatos não somente avisassem da presença, mas, ainda, da procedência escolar. A partir daí, seguiram-se diálogos desse tipo:

⏤ Francisco dos Anjos Pereira (nome hipotético).
⏤ Presente, Professor. Vim do Lins.

E haja vaia. Os veteranos riam a valer. Bateu-me a tremedeira. Se os do Lins eram assim recepcionados, o que aconteceria com os egressos do desacreditado Underwood? “Fra” ainda estava longe do “Fru”, mas minha vez logo chegaria.
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Eu poderia apenas responder “presente”, posto que já era conhecido pelo meu velho mestre. A agonia, porém, embotou-me o juízo.

⏤ Frutuoso Batista Chaves Neto.
⏤ Presente. Vim do Underwood.

O teto daquela sala com mais de 40 alunos quase desabou. Recebi o maior apupo do dia. Isso durou até ele me descobrir na quarta posição da terceira fila de cadeiras, encolhidinho, encolhidinho. Fez a turma silenciar, revelou que me conhecia desde a primeira série e me tomou como prova concreta de que o aprendizado, mais do que da escola, depende de quem queira aprender. Eu e o velho Underwood lavamos a alma.

Grande mestre! Ele afirmava, em seu tempo, que oito entre dez estudantes brasileiros do ensino médio não eram capazes de apontar o sujeito da oração: “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”.

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O que diria dos que hoje – ressalvadas as honrosas exceções – saem de colégios e faculdades para enfrentar a vida, preencher postos de trabalho e cadeiras nos campos de futebol, onde, a plenos pulmões, levam o Hino Nacional além dos 90 segundos arbitrados pelos organizadores de campeonatos?

Assim mesmo: acaba o tempo de um minuto e meio dispensado a todo e qualquer hino nas aberturas de competições internacionais e a moçada em verde-amarelo continua, ali, altiva, de peito inflado, orgulhosa de suas origens,
Copa do Mundo 2026 ▪ YT NossaRadioUSA
a ignorar, solenemente, a regra institucional. Até porque protocolo nenhum pode encurtar o hino de ninguém. Mantenha-se o andamento metronômico estabelecido pela Lei Federal nº 5.700/1971 e o nosso passará dos três minutos.

Eu nem precisaria lembrar que o sobressalente canto “a capella” de milhares desses torcedores sempre emociona plateias no mundo inteiro alcançadas pelos sinais da tevê. É espetáculo, sem dúvida, capaz de conferir à fervorosa e animada torcida brasileira o papel de décimo-segundo homem no gramado.

Mas, preciso confessar, o insucesso do time do qual aprendi a não esperar a glória das glórias já me aperreia menos do que a dúvida referente à exata interpretação do hino saído de cada boca no calor, no entusiasmo, na efusão das multidões. Agora, resta-me rezar para que todos, nesta Copa de 2026 atuem em tom maior: a equipe no gramado e os torcedores nas cadeiras cobertas, ou não cobertas. Que assim seja.

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