A Samuel Amaral , leitor de Villaça Visitando mais uma vez O Nariz do Morto , de Antonio Carlos Villaça, deparo-me logo nas primei...

Presença do corredor

solidao ausencia paterna antonio carlos villaca infancia
A Samuel Amaral,
leitor de Villaça
Visitando mais uma vez O Nariz do Morto, de Antonio Carlos Villaça, deparo-me logo nas primeiras páginas com uma afirmação poderosa: “Minha infância foi isto: corredor”. E que corredor seria esse, perguntei-me.

Recuo umas poucas linhas e leio: “Foi uma infância solitária, a minha. Não me esbaldei em brinquedos, não tive companheiros inesquecíveis. Infância de filho único – estreitinha”. Estas palavras me ajudam a entender um
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pouco o corredor acima citado, de Villaça, e também na compreensão do meu corredor pessoal. No meio de nossas casas da infância, a minha e, imagino, a de Villaça, havia um corredor, mais para sombrio que para iluminado, e estreito, como costumavam ser os corredores das casas geminadas, sem muitas janelas, a ligar as duas extremidades do lar pequeno-burguês: a sala de visitas e a copa/cozinha, antes do quintal. Essa a inesquecível geografia do começo, aquela que fica, desafiando o tempo, como uma teimosia.

Villaça era filho único – e isso foi determinante em sua vida. Eu fui um quase filho único, pois éramos apenas dois filhos em nossa casa, eu e minha irmã, mais velha seis anos do que eu. Quando fui menino, portanto, ela já era adolescente, uma mocinha descobrindo o mundo e a vida, sem muito tempo e interesse para com o caçula. Este, sem outros irmãos e com um ou outro amiguinho da vizinhança, teve que se virar sozinho, literalmente.

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Mas reconheço que a solidão do menino Villaça foi maior, agravada por um pai que só pensava em trabalho, ansioso por enriquecer, como uma compensação para a súbita decadência da família. Um pai que não era mau, mas que foi se tornando cada vez mais distante. Segundo o filho, “trabalhava duro, trabalhava até sábado e domingo (meio-dia). Esse filho que escreveu anos depois: “Fui uma criança mais ou menos infeliz”. O que não foi o meu caso, ainda bem. Um pouco solitário, sim, mas infeliz, nem um pouco. Nossa pequena família de quatro pessoas era feliz, dentro do possível, parecida com tantas outras, como escreveu Tolstói no primeiro parágrafo de Ana Karênina. Meu pai também trabalhava duro, mas não era ausente, vivia para a família, totalmente. Nunca almejou enriquecer, mas sempre fez a sua parte no sentido de prover a casa e a prole dos confortos possíveis.

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Crianças solitárias têm que recorrer muito à imaginação para suprir a ausência de irmãos e amiguinhos. Têm, mais que os demais infantes, que criar seu mundinho particular, com personagens e situações os mais diversos, um universo todo de pensamentos, que não raro extrapolam as limitadas fronteiras da domesticidade para se atreverem a ir além, já então no reino da pura fantasia. E esse exercício imaginativo, no meu caso e possivelmente no de Villaça, se dava com frequência no corredor da casa, espaço de ninguém, disponível à lúdica apropriação do menino.

Do ponto de vista arquitetônico, imagino que o corredor brasileiro tenha sido herança de Portugal, como quase tudo no Brasil de até meados do século XX. A avassaladora influência norte-americana não tinha ainda se instalado plenamente entre nós, de modo que em muitos aspectos éramos, os brasileiros de então, como que colonos retardatários, ainda um pouco distantes do ilusório processo de libertação. E aí se explica não só a presença do corredor em tantos lares nacionais, como também a fachada das casas geminadas, como as de nossas antigas ruas Nova e Direita, entre outras, tão portuguesas em suas belas simplicidade e harmonia.

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As portas dos quartos dessas casas compridas e estreitas davam exatamente para o corredor. Este, representava, digamos, a parte externa do mundo doméstico, assim como as salas e o quintal, em contraste com a intimidade das alcovas, palavra de outrora, assim como outra, tão século XIX e sinônima: camarinha. As pessoas passavam pelo corredor e nem se davam ao trabalho de olhar para os quartos, habituadas que estavam com aqueles aposentos aparentemente estáticos. Pois no mais das vezes, a vida concentrava-se na copa e na cozinha, ao redor da mesa e do fogão, fontes de alimento material e imaterial para a família e eventuais convivas. Os menos íntimos restringiam-se à sala de visitas, lugar geralmente pouco usufruído pelos da casa, reservado para as visitas de mais ou de menos cerimônia, conforme a ocasião, visitas estas que detinham, nem sempre por merecimento, o privilégio da fruição da melhor louça e das melhores iguarias, modestas que fossem estas, o que de regra acontecia.

O corredor era de todos, mas era principalmente território do menino. Ali ele espalhava os poucos brinquedos e ali criava estórias e situações. O futuro
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escritor Villaça ali deve ter descoberto os poderes da imaginação, capazes de transportá-lo para além da calçada caseira. Havia um velocípede e um rádio em sua casa. Na minha também (a televisão só viria depois). Nunca tive uma bicicleta e até hoje não sei conduzir uma, pois mamãe tinha medo de que me machucasse; em seu lugar, veio o velocípede, menos desbravador e mais seguro, é certo, mas igualmente prazeroso como veículo de descobertas do vasto mundo que, afinal, ia só até a esquina.

Coincidência ou não, depois de morar em casas modernosas, sem corredor, hoje moro num apartamento atravessado por um, que só difere do da infância por ser claro e arejado. Mas a extensão é a mesma e a mesma é a fronteira que faz com os quartos, não mais alcovas nem camarinhas. O idoso no qual vou me tornando nele não espalha brinquedos, mas livros à vontade, na comprida estante que o margeia de ponta a ponta. Percebo então que é essa a maneira possível de a imaginação da aurora da vida se fazer presente no ocaso. Os meninos de então e de agora se encontram e se dão as mãos.

Ao contrário da pedra de Drummond, o corredor no meio da casa para mim foi libertação.

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  1. - O menino solto na buraqueira, o dos mergulhos nos poços e do futebol nas areias do Paraíba comove-se com sua crônica. O octogenário que me tornei eleva a admiração por sua bela pena, amigo Gil.

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  2. Samuel Amaral12/1/26 10:23

    Meu querido Gil, ganhei o dia com este belo texto que você, tão gentilmente, dedicou à mim. Muito obrigado!

    Certamente a melancolia de Villaça começou naquele corredor da casa do Engenho Velho, apesar de ele ter sido uma criança tagarela e sociável, não obstante solitária. Felizmente, nem o corredor da casa, nem o corredor do Claustro, limitou nosso querido memorialista de se aventurar pela escrita, e nos legar trabalhos tão maravilhosos. E o mesmo vale para você!

    Como eu me identifico com Villaça, apesar de sermos tão diferentes!

    No mais, seu texto também se constitui num verdadeiro ensaio sobre a herança da arquitetura lusitana.

    Forte abraço, Gil! Mais uma vez, muito obrigado!

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  3. Obrigado, Lúcia.

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  4. Obrigado, Frutuoso. Os dois meninos se entendem.

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  5. Obrigado, Samuel. Villaca nos une.

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  6. Obrigado, Marília.

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