12.7.26
— Devagar! Tiquinho, você ainda mata sua avó de susto! Dona Severa ainda não se acostumara com os dez anos de correria de Tiquinho. O ...
Tiquinho e os “VTs
— Devagar! Tiquinho, você ainda mata sua avó de susto!
Dona Severa ainda não se acostumara com os dez anos de correria de Tiquinho. O neto querido era seu maior tesouro, entregue a ela logo após o parto que tirou a vida de sua filha.
O pequeno entrou correndo na cozinha, esbaforido, como de costume, e foi logo perguntando:
12.7.26
Nos distanciamos um do outro e, assim, passou-se uma vida – a bem dizer, duas – com o velho exemplar da Antologia Nacional entre as...
Memória, pra que te quero!
Nos distanciamos um do outro e, assim, passou-se uma vida – a bem dizer, duas – com o velho exemplar da Antologia Nacional entre as relíquias da amiga.
11.7.26
PAZ A paz é o retorno do que se recorda, de que existe algo como um impulso, que te joga longe, além da revolta, e te diz que há...
A paz é o retorno do que se recorda
PAZ
A paz é o retorno do que se recorda,
de que existe algo como um impulso,
que te joga longe, além da revolta,
e te diz que há vida, mesmo no absurdo.
ENCONTRO
Tenho encontrado algumas casas
onde posso deitar na terra,
sentir as raízes dos homens;
o distrato com as causas perdidas.
Os que partem, os que festejam,
os passos aleatórios,
o anonimato de algumas vozes
são o feixe das vidas que apreendo
— o nome das casas.
É no reboco, no desmantelo das tintas,
que estão as histórias,
o emaranhado do tempo das mãos,
o limite dos segredos das paredes.
Tranco a porta quando
encontro estas casas,
busco em seu silêncio
a traição das verdades transitórias
e se algum nome se confunde com o meu.
11.7.26
A morte de um grande poeta nunca é apenas um acontecimento biográfico. Ela representa o silenciamento de uma consciência que aprend...
A morte do poeta Alexei Bueno deixa uma lacuna na cultura brasileira
A morte de um grande poeta nunca é apenas um acontecimento biográfico. Ela representa o silenciamento de uma consciência que aprendeu a traduzir em linguagem aquilo que a maioria apenas sente. Quando desaparece um escritor da estatura de
Alexei Bueno, não se extingue somente uma voz singular da poesia brasileira contemporânea; encerra-se uma biblioteca viva, uma inteligência estética moldada por décadas de leitura, reflexão e fidelidade ao mais elevado conceito de literatura.
11.7.26
Em carta a João Condé , aquele da coluna “Arquivos Implacáveis”, publicada, originalmente, no jornal A Manhã e, depois, na revista O ...
As muitas faces de um texto
Em carta a João Condé, aquele da coluna “Arquivos Implacáveis”, publicada, originalmente, no jornal
A Manhã e, depois, na revista
O Cruzeiro, Guimarães Rosa revela alguns segredos de seu primeiro livro,
Sagarana, que veio a público no mesmo ano da famosa coluna (1946). Pincemos duas dessas “revelações” do autor de
Grande sertão: veredas, sobre os contos “Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo” e “Conversa de Bois”.
10.7.26
Já escrevi sobre o tema. Se eu estiver em qualquer ambiente com cinco, dez, quinze pessoas e chegar um bêbado ou um doidinho, com cert...
Meus doidinhos
Já escrevi sobre o tema. Se eu estiver em qualquer ambiente com cinco, dez, quinze pessoas e chegar um bêbado ou um doidinho, com certeza eles irão colar em mim. Adoro.
10.7.26
Me sinto esquisito; muitos me acham esquisitíssimo, simplesmente porque reajo. Reajo feliz e perguntando; reajo quando algo não fecha,...
Esquisito de ofício
Me sinto esquisito; muitos me acham esquisitíssimo, simplesmente porque reajo. Reajo feliz e perguntando; reajo quando algo não fecha, não bate no meu juízo, nem a pau. Procuro lógica, busco um denominador comum para um sentimento que me atinge quando querem que eu seja de outro planeta.
9.7.26
Eis que me bate uma inveja imensa da Noruega. Isso é coisa muito condenável? “Ééé, siiim! É um dos sete pecados capitais”, responde...
Morro de inveja
Eis que me bate uma inveja imensa da Noruega. Isso é coisa muito condenável? “Ééé, siiim! É um dos sete pecados capitais”, responde aquela que me atura há quase 50 anos. Percebo, então, que me arrisco a ir para os quintos do inferno com tripa e tudo, a não ser que eu me ajeite antes de bater as botas. Mas, não adianta. Morro, mesmo, de inveja da Noruega.
9.7.26
Durante dois anos e meio, um grupo de oficiais do Exército, da Força Pública de São Paulo e alguns civis percorreu o país motivad...
Elísio Sobreira no combate à Coluna Prestes
Durante dois anos e meio, um grupo de oficiais do Exército, da Força Pública de São Paulo e alguns civis percorreu o país motivado pelo sonho de transformar a nação. Esses dignos e honrados revolucionários engrossaram as fileiras da chamada "Coluna Prestes", numa das mais extraordinárias marchas armadas do país.
9.7.26
Nos dias contemporâneos, a filosofia ressurge como uma aliada essencial na busca por compreensão e sentido em meio a um mundo em consta...
A Filosofia e seu papel na construção do pensar crítico
Nos dias contemporâneos, a filosofia ressurge como uma aliada essencial na busca por compreensão e sentido em meio a um mundo em constante transformação. Filósofos como Sérgio Mário Cortela, Leandro Karnal, Clóvis Barros Junior e Luiz Felipe Pondé têm contribuído de maneira significativa para o debate público, instigando a reflexão sobre questões que permeiam a existência humana.
8.7.26
Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vi...
Chumbo trocado
Não pense o estimado leitor e a querida leitora que ocupo espaço deste abalizado blog para maledicências. Nada disso. Para mim, a vida de cada um é a vida de cada um; já ouvi isso sei lá onde. Ninguém tem que se meter, nem ficar de leva e traz com o que não é da sua conta. Mas tem coisa que não dá para ficar guardada no baú de nossos segredos. É o caso que vou contar aqui. Nem seria justo esconder de quem me prestigia com sua leitura uma pantomima dessa qualidade.
8.7.26
A identidade se refere à parte do nosso ser responsável pelo entendimento de quem somos, de modo a nos diferenciarmos e nos constituir...
Identidade
A identidade se refere à parte do nosso ser responsável pelo entendimento de quem somos, de modo a nos diferenciarmos e nos constituirmos como sujeitos. Porém, isso ocorre quando passamos a analisar o outro de forma a validar ou invalidar aspectos alheios.
7.7.26
Sou do tempo da Copa de 70. Uma Copa inesquecível. Vi Pelé, Tostão, Jairzinho, depois Cafu, Raí, Carlos Alberto, Toninho Cerezo, Pa...
A Copa do Mundo
Sou do tempo da Copa de 70. Uma Copa inesquecível. Vi Pelé, Tostão, Jairzinho, depois Cafu, Raí, Carlos Alberto, Toninho Cerezo, Paulo César, Rivellino e tantos, tantos outros. No início, via por farra; depois, com filhos pequenos. Madrugadas acordando para assistir à Copa na Coreia, ou do outro lado do mundo. Mas a de que mais gostei foi a da França, mesmo perdendo, por conta dos programas televisivos de making of, bastidores e reportagens sobre queijos e vinhos. Aí já não era mais futebol.
7.7.26
O pensador Tarcísio Burity escreveu uma frase lapidar em um catálogo editado em sua gestão como governador: “Não acredito em democ...
Imprensa livre
O pensador Tarcísio Burity escreveu uma frase lapidar em um catálogo editado em sua gestão como governador: “Não acredito em democracia sem imprensa livre”.
7.7.26
Um dos efeitos da Copa é fazer com que pessoas que nunca foram a um campo de futebol, e acham que “pe...
Cena da Copa
Um dos efeitos da Copa é fazer com que pessoas que nunca foram a um campo de futebol, e acham que “pelada” é sinônimo de mulher nua, se tornem de repente fervorosas adeptas desse esporte. Sobre isso tenho uma história interessante, que me foi contada por um parente de um dos protagonistas. Troquei os nomes para evitar processo. Vamos lá.
6.7.26
O café fita o teto , desatando sua última fumaça, enquanto observo a pressa do mundo pela janela. Lá fora, os passos correm com a aud...
Valsa delicada
O café fita o teto, desatando sua última fumaça, enquanto observo a pressa do mundo pela janela. Lá fora, os passos correm com a audácia de quem se julga eterno. Há um sussurro urgente que abafamos todas as manhãs para conseguir abrir os olhos: a certeza de que somos efêmeros. Nascemos com o crepúsculo já desenhado nas pálpebras.
6.7.26
Se eu te disser que as respostas para a sua ansiedade de domingo à noite, para o algoritmo que dita o seu humor e para essa sensação es...
O espelho de quatro séculos: como um garoto de 18 anos previu o nosso cansaço digital
Se eu te disser que as respostas para a sua ansiedade de domingo à noite, para o algoritmo que dita o seu humor e para essa sensação estranha de que estamos todos correndo numa esteira que não sai do lugar foram escritas em 1548... você acreditaria?
6.7.26
Há adegas que guardam safras. Outras guardam épocas. A que reapareceu em Tbilisi, na Geórgia, guarda algo mais incômodo: a sobreposiçã...
O luxo, a sombra e as garrafas de Stalin
Há adegas que guardam safras. Outras guardam épocas. A que reapareceu em Tbilisi, na Geórgia, guarda algo mais incômodo: a sobreposição entre cultura, poder e memória. Ao abrir ao mundo a coleção de cerca de 40 mil garrafas associadas a Josef Stalin, o governo georgiano não revelou apenas um tesouro enológico. Revelou um arquivo líquido da história europeia.
6.7.26
A frase acima foi dita pelo ator brasileiro Wilson Grey (1923-1993). Os mais antigos certamente lembram-se dele: magro, bigode fino, f...
Nunca beijei a mocinha no final da fita
A frase acima foi dita pelo ator brasileiro Wilson Grey (1923-1993). Os mais antigos certamente lembram-se dele: magro, bigode fino, fartos cabelos pretos de brilhantina, ar de malandro e vilão. Foi sempre coadjuvante, jamais galã, o que explica nunca ter beijado a mocinha no final da fita. Essa figura e essa frase encerram a tragédia de muitos, constituindo-se mesmo num destino ou, mais propriamente, numa sina.
5.7.26
Os sufis contam uma história que vale mais do que muitos tratados de psicologia.
Qual é a força mais destrutiva?
Os sufis contam uma história que vale mais do que muitos tratados de psicologia.
5.7.26
A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada. É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes da c...
A castanhola encaliçada
A vida força a passagem pelo interstício da parede arruinada. É uma castanhola, três folhas largas, espalmadas, rebentando verdes da caliça de 1890 ou 1900.
4.7.26
Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá ...
O tempo das colheitas
Lá naquela cozinha cheia de friagem da montanha mais alta do brejo, a antiga Vila Rica do Brejo de Areia, hoje simplesmente Areia, lá naquela cozinha inundada de sacos de milho verde, lá naquela cozinha povoada de aromas do campo, ela se concentrava num moinho ajustado a uma mesa de madeira bruta, o qual engolia o milho verdinho e vomitava bagaços amarelos.
4.7.26
O romance Carolino, de Efigênio Moura, é uma das obras mais maduras da recente literatura sertaneja produzida na Paraíba. O livro não ...
Carolino, de Efigênio Moura
O romance Carolino, de Efigênio Moura, é uma das obras mais maduras da recente literatura sertaneja produzida na Paraíba. O livro não apenas revisita o universo do vaqueiro nordestino, mas o transforma em território mítico, onde memória, perda, religiosidade e assombração convivem com absoluta naturalidade. A narrativa se insere na tradição do realismo fantástico sertanejo, aproximando-se da oralidade popular e da dimensão simbólica do sertão como espaço espiritual e existencial.
4.7.26
Ao querido amigo Alexei Bueno (in memoriam) A notícia me pegou desprevenido. À mesa, às seis e meia, no início do café da manhã do...
Um deslocado, em embate com o mundo
Ao querido amigo Alexei Bueno
(in memoriam)
A notícia me pegou desprevenido. À mesa, às seis e meia, no início do café da manhã do sábado. O poeta Alexei Bueno morreu, em sua casa, no Rio de Janeiro. Não podia ser. Não era possível. Na segunda-feira, dia 22 de junho, encontrava-me em Solânea, quando recebi uma notificação da portaria de meu prédio, com a foto de uma correspondência, sem identificar o conteúdo ou o remetente. Ao retornar a João Pessoa, na quarta-feira, 24 de junho, vi que se tratava de um livro de Alexei Bueno. Jamais poderia desconfiar que seria o último que o poeta publicaria em vida, O poste: auto sacramental em dois atos, pela Editora Anadiômene, que desde 2024 publicava os seus livros (desconfio existir muita coisa a ser publicada no seu acervo...). Não deu tempo sequer de agradecer ao amigo querido. Como pensar que ele se iria, assim, tão de repente? Mal havia me recuperado da leitura impactante de seu último livro de poesia, A chave quebrada (2026). Ainda ecoavam na minha memória os versos de fluxo inestancável de O irrefreável (2025), poema em forma de um quase fracassado diálogo com um rio de sua memória, afinal “o fluir é para nós uma porta que se fecha”.
3.7.26
Os do meu tempo lembrarão de uma época em que saíamos tarde da noite para fazer serenatas em frente às casas das namoradas. O normal er...
A mais bela serenata
Os do meu tempo lembrarão de uma época em que saíamos tarde da noite para fazer serenatas em frente às casas das namoradas. O normal era levar alguém que soubesse tocar violão, e quem podia mais ousava levar os gêmeos que tocavam violino ou até mesmo um piano na carroceria de uma caminhonete. Tudo isso eu presenciei, e aquele tempo não voltará por muitas razões. Uma delas seria fazer uma serenata para o amor que mora no oitavo andar de um prédio. Os vizinhos imediatamente chamariam os órgãos públicos para acabar com o “barulho”. Na verdade, o romantismo toca outros ritmos hoje em dia. Mas não é nada disso que eu queria contar; porém, a preguiça não me deixa apagar esse introito.
3.7.26
Eu fui ao lugar onde a terra sobe e o céu desce para se encontrar num abraço cujo silêncio é repartido pelos ventos em espiral de sop...
Das terras dos céus
Eu fui ao lugar onde a terra sobe e o céu desce para se encontrar num abraço cujo silêncio é repartido pelos ventos em espiral de sopros de vida. Onde é verde, cinza e frio... cheio de curvas e retas desiguais. Lá escutava o grito sem palavras dos seres de todos os tipos. Almas leves flutuantes e sobressaltadas distantes. Sussurros de canções de ninar chegavam suavemente pelas janelas.
3.7.26
Algumas memórias surgem como pequenas epifanias da infância. Entre elas está a descoberta de Zé Limeira, o chamado poeta do absurdo, f...
Nos meandros do cordel
Algumas memórias surgem como pequenas epifanias da infância. Entre elas está a descoberta de Zé Limeira, o chamado poeta do absurdo, figura singular da poesia nordestina. Foi uma das experiências literárias mais fascinantes que encontrei desde cedo.
3.7.26
Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleç...
Os gols que Antonio não viu
Que fim de Copa agoniado foi, para Antonio, aquele Brasil e Itália, lá se vão 56 anos. A bem da verdade, ele chegou a ver a Seleção perfilada, no momento do Hino, com a escalação dos sonhos: Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Rivelino, Jairzinho, Pelé e Tostão.
2.7.26
A canção He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é um peso, ele é meu irmão), composta pelos norte-americanos Bob Russell (1914–1970)...
Dignidade compartilhada
A canção He ain’t heavy, he’s my brother (Ele não é um peso, ele é meu irmão), composta pelos norte-americanos Bob Russell (1914–1970) e Bobby Scott (1937–1990), foi imortalizada pela banda britânica The Hollies e constitui uma das mais expressivas representações da solidariedade no imaginário coletivo. Lançada em 1969, em uma realidade marcada por profundas tensões sociais, conflitos armados e transformações culturais, a obra transmite uma mensagem de elevado valor ético: o outro não é um fardo, mas uma responsabilidade compartilhada que dignifica a própria condição humana.
2.7.26
Vivemos em uma era marcada por um frenesi de consumo e uma busca incessante por reconhecimento. A pressão da inconsciência nos catapult...
A ilusão da fama e o vazio humano
Vivemos em uma era marcada por um frenesi de consumo e uma busca incessante por reconhecimento. A pressão da inconsciência nos catapulta em um ciclo vicioso: produtos inúteis inundam o mercado, enquanto promessas de riqueza e fama ressoam em cada canto digital.
2.7.26
Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.
Os 4 Ms
Não estranhem o título do presente texto, mas se trata de uma feliz coincidência ocorrida dois sábados atrás. Então, às explicações.
1.7.26
Poucos paraibanos tiveram, na infância, contato com os livros mais do que José Américo de Almeida. Criança, residindo em Areia com o...
Zé Américo e os problemas da Paraíba
Poucos paraibanos tiveram, na infância, contato com os livros mais do que José Américo de Almeida. Criança, residindo em Areia com o tio padre, de quem recebia esmerada educação, às suas mãos chegavam a melhor literatura e o fruto do pensamento greco-romano. O religioso apontava os caminhos pontilhados da sabedoria.
1.7.26
Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das ...
Quereres
Um susto. Um olhar. Sem timidez. Percorro a vista como quem já conhece o território. Mas, por outros caminhos. Não conheço o nome das partes. É um corpo que habita eras. É bela e triste, como o amor. Tem desejo. Uma voz com um timbre macio. Clama por defloração. É agora. É sim. Como foi que me deixei vestir por uma ilusória imortalidade?
30.6.26
Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas ...
A maritaca e a abelha
Quando morava na minha casa, na Rua Oceano Pacífico — e esse oceano gigante para uma rua pequenina —, nos tempos de ruas enlamaçadas e bois a passar na porta, todos os dias, por volta das 18 horas, um casal de sapos pequenos (caçotes) entrava aos pulos na minha sala e ia namorar embaixo da estante. Ficava a ouvir os gemidos, digo, o coaxar do namoro. Todos os dias lá vinham eles, os caçotinhos. Ficava sempre impressionada com a pontualidade. Não me consta que sapos tenham relógios. Mas rituais, isso eles tinham. E aconchego para namorar juntinhos. Todo dia faziam tudo sempre igual: me visitavam às seis horas da tarde. Bem que poderia ser letra de Cotidiano, de Chico Buarque. Com gosto de hortelã e tudo.
30.6.26
Por mais que a obra não seja um reflexo d...
Augusto por Humberto Nóbrega
Por mais que a obra não seja um reflexo direto do autor, é grande a tendência de se confundir uma com o outro. Isto se aplica particularmente a um poeta como Augusto dos Anjos, cujas idiossincrasias pessoais e literárias sempre despertaram curiosidade nos que estudam ou simplesmente apreciam seus poemas. O pessimismo, a morbidez, a fixação na morte, presentes na maioria dos seus versos, fazem pensar que ele era um desses misantropos infensos aos apelos mundanos. Tal impressão é acentuada pelas imagens de doença e deterioração física, comumente associadas a um possível “caso clínico” do indivíduo e não ao universo simbólico do poeta.
29.6.26
Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um ...
O livro que não queria ser meu
Dizem que os livros escolhem seus leitores. Se isso for verdade, Jardim Brasil: Contos, de Ronaldo Lima Lins, passou anos me dando um drible digno de Copa do Mundo. Nossa história começou em julho de 2000, sob o pretexto de um romance que o tempo, com sua sabedoria costumeira, transformou em uma daquelas amizades que a gente carrega para a vida inteira.
29.6.26
Durante a Peste Negra, na França, em 1348, a população queimava fogueiras e ervas aromáticas nas ruas e mantinha quarentena de 40 dia...
No fim das contas
Durante a Peste Negra, na França, em 1348, a população queimava fogueiras e ervas aromáticas nas ruas e mantinha quarentena de 40 dias. Eles acreditavam na "teoria dos miasmas", que dizia que a doença era transmitida pelo ar contaminado e pelo mau cheiro. Então, a população tentava purificar o ar. Mais tarde, descobriram que aquela fumaçeira de nada adiantou, pois a pandemia que devastou a Europa e a Ásia foi provocada pela *Yersinia pestis*, uma bactéria que se espalhou principalmente por meio de pulgas e roedores.
29.6.26
Agora é lei, no Rio de Janeiro: o 21 de junho, por decreto municipal, passa a ser oficialmente o Dia de Machado de Assis. Esta é a...
21 de junho: Dia de Machado de Assis
Agora é lei, no Rio de Janeiro: o 21 de junho, por decreto municipal, passa a ser oficialmente o Dia de Machado de Assis. Esta é a data do nascimento do escritor e daqui para a frente, espera-se, será devidamente comemorada na cidade em que nasceu. Demorou, mas no Brasil é assim mesmo, já sabemos: o que for do bem chega atrasado e o que for do mal chegou ontem.
28.6.26
Não posso nem devo queixar-me da idade avançada ou de suas naturais limitações. Da janela de minha infância, em Alagoa Nova, privado...
Tão longe e tão perto
Não posso nem devo queixar-me da idade avançada ou de suas naturais limitações. Da janela de minha infância, em Alagoa Nova, privado da soltura das ruas, perturbava-me acompanhar os passos miudinhos, arrastados, do velho Cazumba em direção à casa paroquial do sobrinho, apenas quatro ou cinco casas, uma pegada com a outra, do outro lado da rua.
28.6.26
Há receitas antigas que nunca envelhecem, apenas ficam mais embaraçosas quando a gente percebe que passou a vida inteira ignorando o b...
Como viver bem?
Há receitas antigas que nunca envelhecem, apenas ficam mais embaraçosas quando a gente percebe que passou a vida inteira ignorando o básico.
27.6.26
A poesia de Políbio Alves ocupa um lugar singular na literatura paraibana contemporânea. Em Varadouro, sua obra mais emblemática, o p...
Políbio Alves e a Poesia do Varadouro
A poesia de Políbio Alves ocupa um lugar singular na literatura paraibana contemporânea. Em Varadouro, sua obra mais emblemática, o poeta transforma um espaço geográfico específico de João Pessoa — o antigo bairro do Varadouro e as margens do Rio Sanhauá — em território mítico, histórico e existencial. O que poderia ser apenas uma evocação memorialística converte-se em uma vasta cartografia poética da identidade paraibana.
27.6.26
Ao meu amigo, confrade e professor João Trindade Cavalcanti O meu texto da semana passada ( Quem precisa de edições críticas? | Am...
José Lins e a edição crítica
Ao meu amigo, confrade e professor João Trindade Cavalcanti
O meu texto da semana passada (
Quem precisa de edições críticas? | Ambiente de Leitura Carlos Romero) foi uma introdução sobre o tema da edição crítica, motivado por um curso que ministrei sobre José Lins do Rego, tendo como objeto a
Trilogia de Carlos de Melo, denominação que dei às três obras iniciais do escritor,
Menino de engenho (1932),
Doidinho (1933) e
Banguê (1934).
26.6.26
Minha primeira lembrança conduz ao térreo do Paraíba Palace Hotel, onde o profissional das tesouras, Cruz, sempre repetia o mesmo cort...
Os queridos barbeiros
Minha primeira lembrança conduz ao térreo do Paraíba Palace Hotel, onde o profissional das tesouras, Cruz, sempre repetia o mesmo corte: alemão. Usava uma máquina que raspava as laterais do couro cabeludo e deixava apenas uns poucos cabelos no cocuruto, algo bem militar. Em seguida, besuntava minha cabeça com uma porcaria chamada petróleo.
26.6.26
Tenho me sentido triste ultimamente. Não é uma tristeza de choro ou soluço.
Jogar conversa fora
Tenho me sentido triste ultimamente. Não é uma tristeza de choro ou soluço.
26.6.26
Orgulho daquele pai , o moço Geraldo cantava o Hino Nacional inteirinho desde os seis anos de idade. No começo da adolescência, sabia q...
O Underwood, o Hino e a Copa
Orgulho daquele pai, o moço Geraldo cantava o Hino Nacional inteirinho desde os seis anos de idade. No começo da adolescência, sabia que as margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico. Então, quando nosso professor de Português pediu à classe para achar o sujeito no verso inicial deste que é um dos mais belos cânticos cívicos do mundo, Geraldinho não se deixou enganar pela inversão da frase. “As margens plácidas, professor”,
25.6.26
No último dia 21 de junho, Gonzaga Rodrigues celebrou 93 anos em plena atividade, com uma produtividade que eu, seis décadas mais novo,...
Gonzaga Rodrigues nos arquivos da Ditadura
No último dia 21 de junho, Gonzaga Rodrigues celebrou 93 anos em plena atividade, com uma produtividade que eu, seis décadas mais novo, confesso invejar. Além das crônicas semanais publicadas em
A União e no
Ambiente de Leitura Carlos Romero, ele relançou, em maio passado, a biografia do jornalista paraibano José Maria dos Santos (Ed. Ideia, 2026) — um feito verdadeiramente notável para um nonagenário.
25.6.26
Tenho várias amigas muito queridas, cada uma com seus problemas. Uma, com os pais velhinhos, não consegue visitá-los tanto quanto g...
A dor própria é mais dolorida?
Tenho várias amigas muito queridas, cada uma com seus problemas. Uma, com os pais velhinhos, não consegue visitá-los tanto quanto gostaria, pois vive em outro país. Outra, foi despejada de onde morava, por uma amiga (?),
25.6.26
A filosofia de aprender no silêncio reflete uma profunda busca por compreensão e conexão com o mundo interior. Este espaço de qui...
Ecos do silêncio
A filosofia de aprender no silêncio reflete uma profunda busca por compreensão e conexão com o mundo interior. Este espaço de quietude, como defendido por pensadores como Martin Heidegger, não se resume à ausência de som, mas à criação de um ambiente propício à reflexão e ao autoconhecimento. Para ele, o silêncio é essencial
24.6.26
LACRIMOSA Bem-vindo, crepúsculo — profundo vermelho de um retoque divino — que diz da tormenta, submundo da memória, que diz do des...
Bem-vindo, crepúsculo ⏤ profundo
LACRIMOSA
Bem-vindo, crepúsculo — profundo
vermelho de um retoque divino —
que diz da tormenta, submundo
da memória, que diz do destino
O enfado, o desfalecimento
do dia, que serviu-se do tempo;
de um Sol a apagar-se, moribundo,
dando a sua face ao esquecimento
24.6.26
Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar d...
As doentes
Nascido na primavera de 1950, convivi com um medo que só desapareceu depois que me vi chegado à adolescência: ficar doente. Ficar doente? Só isso? Bem, é preciso entender que “ficar doente” era um mero eufemismo para estar enfermo dos pulmões, tuberculoso. Dizer que alguém era doente era dizer que a criatura era portadora de tuberculose. À época, ainda uma doença mortal.