O fato de o Prêmio Nobel ter se destinado a uma renomada poeta ressalta a preocupação da academia com a linguagem. Não que, na prosa, ...

O Nobel como um tributo à poesia

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O fato de o Prêmio Nobel ter se destinado a uma renomada poeta ressalta a preocupação da academia com a linguagem. Não que, na prosa, o trabalho com os signos esteja em plano secundário. Mas a poesia é por excelência o domínio em que o uso da língua ganha proeminência. A literatura renova nossa percepção do mundo ao renovar a linguagem com que o percebemos.

Há uma certa ingenuidade em acreditar que, em algum lugar da vida, existirá alguém que cuidará de nós melhor do que nós mesmos. Ap...

Própria vida

comportamento empoderamento
Há uma certa ingenuidade em acreditar que, em algum lugar da vida, existirá alguém que cuidará de nós melhor do que nós mesmos.

Aprendemos desde cedo a esperar. Esperamos pelos pais, amigos, pelo amor, filhos, por alguém que perceba quando estamos cansados, quando precisamos de um abraço, quando alguma

Os belos fractais inundaram as manchetes nas décadas de 80 e 90. De tão entusiasmada pelo tema, quando comprei uma pequena lancha,...

Um barco chamado Fractal

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Os belos fractais inundaram as manchetes nas décadas de 80 e 90. De tão entusiasmada pelo tema, quando comprei uma pequena lancha, registrei-a na Capitania dos Portos como Fractal. Imaginei-a do alto, vista do espaço, a pequena embarcação flutuando como um fragmento no meio da imensidão do mar. Não se pode enfrentar uma grande onda de frente, nem se pode posicionar de costas para ela, senão seremos
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derrubados; o barco vai virar. O melhor é sair costurando na diagonal, movimentando-se como uma linha tangente, que vai circulando de forma espiralada, surfando sobre as ondas. Assim é a sabedoria dos moluscos e dos pescadores experientes nos mistérios marítimos e estelares.

Não éramos próximos – nem distantes. Da mesma geração e da mesma aldeia, então ainda pacata, não tinha como não nos cruzarmos em algu...

Vai fazer falta

homenagem saudade irreverencia generosidade espirituosidade amizade marcos pires
Não éramos próximos – nem distantes. Da mesma geração e da mesma aldeia, então ainda pacata, não tinha como não nos cruzarmos em alguma esquina, em algum evento. Eu, reconhecendo o sempre extrovertido filho de Dona Creusa e doutor Adrião; ele, geralmente passando ao largo do anônimo que sempre fui. Quando cabia, cumprimentávamo-nos de passagem – e só. Mas isso
homenagem saudade irreverencia generosidade espirituosidade amizade marcos pires
Marcos Pires
não o excluía do meu radar de pessoense razoavelmente atento aos personagens e acontecimentos da gentil província. Afinal, como ignorá-lo, se ele sempre aparecia sob os holofotes, de uma maneira ou de outra? Quem o desconhecesse, nativo não era, com certeza.

“Yo quisiera estar siempre como tú, viejo olivo, enhiesto bajo el cielo azul de Andalucía, como un dios que se siente eternamente ...

À mesa d’Al-Andalus: influências e legado cultural

gastronomia culinaria arabe cultura oriental
“Yo quisiera estar siempre como tú, viejo olivo,
enhiesto bajo el cielo azul de Andalucía,
como un dios que se siente eternamente vivo, 
heraldo de una tierra que anuncia la alegría.”
Antonio Casares, em seu poema Querencia del Olivo (Amor da Azeitona, 1998), no qual expressa o seu desejo de viver eternamente como uma oliveira debaixo do céu azul da Andaluzia.

Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorânci...

Por que o amor constrange?

amor generosidade gratidao humildade ensinamento reconhecimento hermogenes
Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorância termina. Foi assim que conheci, de verdade, o professor Hermógenes, embora eu já o conhecesse havia muitos anos, desde a adolescência, através dos seus livros. Naquela época, eu ainda não sabia que certas pessoas entram primeiro na nossa biblioteca para, muitos anos depois, entrarem também na nossa vida.

Nestes dias, não conto as vezes que desejo sair sozinho, pegar o ônibus na rodoviária e descer na Praça Clementino Procópio, de Camp...

Campina: não dá para esquecer

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Nestes dias, não conto as vezes que desejo sair sozinho, pegar o ônibus na rodoviária e descer na Praça Clementino Procópio, de Campina, só para sentar comigo mesmo, à sombra das poucas árvores que restam a encarnar dois tempos opostos, ora dois extremos, ora unidos, como produtos um do outro. Já disse, numa crônica antiga, que Campina Grande tem muito a ver
campina grande nostalgia literatura juventude cultura saudade
com “o sítio que anda comigo”. Meu sítio ficava a cinco ou seis léguas, mas era como se Campina fosse estrangeira, de onde vinham as coisas sempre boas que ficavam longe, da manteiga da vaquinha de Minas no pasto às peças do motor, todos os motores, o relógio na parede, a máquina Singer e outras tantas inglesias aqui aportadas desde a colônia até serem substituídas pelo império americano.

Nos últimos dias, venho acompanhando boas discussões sobre o nosso idioma. Discussões de alto nível. Entre outras opiniões, alguns f...

Português contaminado

lingua portuguesa anglicismos estrangeirismos comunicacao identidade
Nos últimos dias, venho acompanhando boas discussões sobre o nosso idioma. Discussões de alto nível. Entre outras opiniões, alguns falaram do surgimento crescente de uma espécie de “novilíngua”, que já é perceptível entre nós.

O romance O Dia dos Cachorros , de Aldo Lopes de Araújo, inscreve-se na literatura paraibana que aproxima ficção e história sem se sub...

O Dia dos Cachorros e a Guerra de Princesa: entre a memória histórica e a ficção do poder

territorio princesa paraiba
O romance O Dia dos Cachorros, de Aldo Lopes de Araújo, inscreve-se na literatura paraibana que aproxima ficção e história sem se submeter inteiramente a ela. O Movimento de Princesa, ocorrido em 1930, fornece a matéria política e social do enredo, mas a obra não deve ser lida apenas como narrativa documental da chamada Revolta de Princesa. Sua força está em transformar o conflito histórico em experiência humana,

Ao meu lado direito, Anton Van Dyck, contratado pela corte, fazia esboços de uma infinidade de retratos dos presentes. Como todo amad...

Por falar em Arte…

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Ao meu lado direito, Anton Van Dyck, contratado pela corte, fazia esboços de uma infinidade de retratos dos presentes. Como todo amador que vê um grande artista em atividade, fascinaram-me a velocidade e precisão com que surgia de seus traços uma galeria de homens e mulheres em damascos e veludos, pérolas e diamantes, heráldicas coruscando em púrpuras, goles, sinopla, sable, Van Dyck — sem um instante de hesitação — reproduzindo grinaldas, detalhes de ombros desnudos, luvas, olhos verdes ou azuis, negros ou castanhos, enquanto crescia o murmúrio contido, cada vez mais tomando todo o espaço debaixo da estrutura vertiginosa.

Da Série: Deixemos Homero falar – Parte IX O proêmio é a parte inicial de um poema épico. Como o próprio termo grego (προοίμιον) di...

O proêmio da Odisseia

odisseia homer odisseus proemio mitologia retorno
Da Série: Deixemos Homero falar – Parte IX
O proêmio é a parte inicial de um poema épico. Como o próprio termo grego (προοίμιον) diz, “é o caminho adiante”. Trata-se de uma parte constituída de invocação e proposição, nem sempre nessa ordem e nem sempre possíveis de ser separadas. Na invocação, o poeta chama as Musas, inspiração que se encontra dentro dele, conforme o estabelecido por Hesíodo na Teogonia, de modo
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que as deusas possam ajudá-lo, com seu sopro divino renovado, a compor um grande canto em louvor aos heróis. Na proposição, sabe-se qual é o propósito do canto, a que herói o canto se destina e o que aquele herói deverá ter como objetivo de sua empreitada. Tudo isso de modo sucinto, visto que as ações ali propostas serão desenvolvidas minuciosamente na narração, a parte mais longa do poema. Assim, quem quiser saber como aconteceu e quais as consequências da ira de Aquiles (Ilíada), terá de percorrer quinze mil versos; sobre o retorno de Odisseus (Odisseia), mais treze mil versos; as lutas de Eneias (Eneida), outros dez mil versos; as viagens de Vasco da Gama (Os Lusíadas), quase nove mil versos.

Pondero sempre. Somos desnecessários… “PLUNCT! PLACT! ZUM: NÃO VAIS A LUGAR NENHUM.” Ao responder a um admirador do Instagram , com o ...

Não vais a lugar nenhum

algoritmos manipulacao digital polarizacao politica comportamento
Pondero sempre. Somos desnecessários… “PLUNCT! PLACT! ZUM: NÃO VAIS A LUGAR NENHUM.” Ao responder a um admirador do Instagram, com o pouco tempo de que disponho, mas necessário para afagar o desejo dele:

Da senzala ao hotel de luxo, a feijoada e suas primas do outro lado do Atlântico Numa panela cabe comida. Na feijoada cabem també...

O que mais cabe numa panela?

feijoada historia gastronomia escravidao tradicoes culinaria
Da senzala ao hotel de luxo, a feijoada e suas primas do outro lado do Atlântico
Numa panela cabe comida. Na feijoada cabem também migrações, escravidão, disputas de origem, lendas e cortes que passaram de baratos a caros. Cabe um país tentando explicar a si mesmo. Enquanto o feijão-preto cozinha devagar, séculos de história se misturam ao caldo.

Fiz as contas . Uns quinze cinemas fecharam as portas desde minha mudança para João Pessoa em 1961, ainda meninote, com uma falência fa...

A lanterna da memória

cinema nostalgia
Fiz as contas. Uns quinze cinemas fecharam as portas desde minha mudança para João Pessoa em 1961, ainda meninote, com uma falência familiar: a da Padaria que Seu Juca, meu pai, desativara um ano antes no Pilar da minha infância. Vi filmes em, ao menos, dez deles.

A filosofia de Johann Gottfried Herder (1744–1803) defende uma crítica significativa ao universalismo abstrato e à concepção de uma r...

Razão, cultura e identidade

herder cultura identidade pluralidade historia humanidade
A filosofia de Johann Gottfried Herder (1744–1803) defende uma crítica significativa ao universalismo abstrato e à concepção de uma razão desvinculada das condições históricas e culturais da existência humana. Nesse sentido, ele rompe com determinados pressupostos do Iluminismo racionalista ao questionar a ideia de uma razão universal, abstrata e descontextualizada, inspirada na tradição cartesiana, que
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pretende impor-se de fora para dentro e desconsidera as particularidades históricas, culturais e linguísticas dos indivíduos e das comunidades. Embora reconheça a eficácia da razão instrumental e do método mecanicista na investigação dos fenômenos naturais, Herder rejeita sua utilização como paradigma exclusivo para a compreensão do ser humano. Reduzir a experiência humana a leis matemáticas e relações causais de natureza mecânica significa restringir a existência ao domínio do calculável, obscurecendo dimensões fundamentais da experiência, como a paixão, a imaginação, a memória, a linguagem e os afetos. A crítica herderiana não implica uma rejeição da razão ou da ciência, mas uma contestação à pretensão de reduzir a complexidade do humano aos modelos explicativos próprios das ciências naturais.

Existe uma diferença profunda entre considerar o outro e abandonar a si mesmo. A consideração nasce da empatia, do respeito e da c...

Os limites da empatia

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Existe uma diferença profunda entre considerar o outro e abandonar a si mesmo. A consideração nasce da empatia, do respeito e da capacidade de compreender que não somos os únicos habitantes do mundo. Já o abandono de si começa quando passamos a colocar constantemente a vontade alheia acima da nossa, não por escolha livre, mas por medo, culpa ou necessidade de aprovação.

Os seios de Dinah eram pequenos, bonitos. Sua pele era um pouco mais clara que a dela e também tinha marcas.

Dinah

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Os seios de Dinah eram pequenos, bonitos. Sua pele era um pouco mais clara que a dela e também tinha marcas.

A bem da verdade, eu ainda tenho algumas dificuldades para entender certos porquês da vida. Olho para o mundo ao meu redor e me pego...

O campo de centeio que habita em todos nós: quando a grande literatura nos salva das nossas próprias ilusões

trabalho trabalhador rural
A bem da verdade, eu ainda tenho algumas dificuldades para entender certos porquês da vida. Olho para o mundo ao meu redor e me pego constantemente tentando decifrar o motivo pelo qual as dificuldades parecem se distribuir de maneira tão desigual, sendo infinitamente mais severas para uns do que para outros. Compreendo perfeitamente as desigualdades sociais como fruto direto de um sistema econômico excludente e perverso. No entanto, o que realmente não consigo entender

Ou para que ninguém diga que não sou politicamente correto * Episódio a mim relatado por Sebastião, técnico em engenharia hidráuli...

Um episódio inusitado

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Ou para que ninguém diga que não sou politicamente correto
* Episódio a mim relatado por Sebastião, técnico em engenharia hidráulica doméstica, especializado na condução de fluidos, desobstrução de dutos e controle de vazamentos em sistemas prediais.


Marcolino era um profissional abnegado, especialista em fracionamento anatômico de proteínas de origem animal, com ênfase em cortes comerciais e distribuição de derivados cárneos. Era um homem de grande estatura, o que o diferenciava de seu irmão, Dagoberto.

Oxente, caba, como vou explicar que ser nordestino não é só gostar de rubacão, buchada e comida pesada?

Dia do Nordestino é todo dia

nordeste cultura sertao cordel repente tradicao
Oxente, caba, como vou explicar que ser nordestino não é só gostar de rubacão, buchada e comida pesada?

Na João Pessoa de outrora, onde galinhas campavam livres como se os paralelepípedos fossem capim e os quintais eram um luxo para pouc...

Balalaica: A perdigueira desastrada com coração de ouro

balalaica cachorro aventuras caca familia saudade
Na João Pessoa de outrora, onde galinhas campavam livres como se os paralelepípedos fossem capim e os quintais eram um luxo para poucos, vivia Balalaica. Não era uma cadela qualquer. Mestiça de perdigueiro, com um nome que evocava a melodia russa e um corpo malhado que parecia obra de arte abstrata, ela era a personificação da energia canina, com uma "pitada" de humor que só a vida real pode oferecer.

O temor da solidão tem levado muitas pessoas aos consultórios de psicólogos e psicanalistas. O medo de terminar a vida sem companhia,...

Temor à solidão

solidao angustia tristeza
O temor da solidão tem levado muitas pessoas aos consultórios de psicólogos e psicanalistas. O medo de terminar a vida sem companhia, de envelhecer no esquecimento ou de morrer solitário. Esse pavor não se reduz ao isolamento físico momentâneo; é uma angústia existencial que assombra o sujeito mesmo quando ele está cercado de pessoas. A sociedade contemporânea, apesar do excesso de conexões digitais e redes sociais, parece ter agravado essa sensação de desamparo,
solidao angustia tristeza
Arte: Gustave Courbet, 1843
criando uma fachada de hiperconvivência que esconde uma incapacidade de vinculação subjetiva autêntica.

A simples perspectiva de passar um final de semana sem compromissos sociais ou o pensamento sobre a velhice deflagram crises de ansiedade severas. Para esquivar-se desse pavor, muitos mantêm casamentos falidos, amizades tóxicas ou relacionamentos abusivos, preferindo suportar o mal-estar da má companhia a encarar o silêncio da própria presença. A solidão é vivenciada como uma punição, um atestado de fracasso pessoal ou uma confirmação de que o sujeito é desprovido de valor.

O ser humano nasce em um estado de extrema dependência do outro para sobreviver física e psiquicamente. Quando essa experiência não é adequadamente elaborada na infância, a solidão adulta evoca o fantasma do abandono primordial. A pessoa confunde estar só com ser abandonada. Além disso, a incapacidade de tolerar a solidão indica uma dificuldade de habitar o próprio mundo interno, como se permanecer a sós consigo mesmo significasse encontrar um vazio assustador ou fantasmas punitivos.

solidao angustia tristeza
Arte: Gustave Courbet, 1856
Embora as influências do meio sejam reais, a psicanálise interpela o indivíduo sobre a sua própria posição e sobre a sua cumplicidade inconsciente na manutenção da situação dolorosa da qual se queixa. Interrogar-se sobre o próprio desejo e sobre as escolhas que o trouxeram até esse ponto é a condição indispensável para transformar a vida. Assim, o sintoma deixa de ser lido como uma mera anomalia a ser eliminada por técnicas de controle comportamental ou medicação e passa a ser entendido como um arranjo simbólico, uma mensagem cifrada do inconsciente que pede decifração e elaboração no espaço analítico.

solidao angustia tristeza
Arte: Gustave Courbet, 1851
O processo analítico possibilita uma ressignificação profunda da experiência do estar só. Na transferência analítica, o paciente experimenta um espaço seguro onde pode desdobrar seus temores sem ser julgado ou abandonado. Gradativamente, a solidão deixa de ser percebida como um abismo aterrorizante e passa a ser conquistada a capacidade reflexiva de estar em sua própria companhia com serenidade. Ao integrar a realidade do desamparo estrutural sem desespero, o indivíduo deixa de usar os outros como escudos contra a ansiedade e torna-se capaz de estabelecer relacionamentos baseados no desejo genuíno e não no pânico do abandono.

Segundo Donald Winnicott (1958), no ensaio intitulado “A capacidade de estar só", a habilidade de sustentar a própria companhia não nasce do nada; exige um alicerce afetivo prévio: “Embora muitos tipos de experiências alimentem a capacidade de estar só, há um tipo fundamental sem o qual a capacidade de estar só não pode se formar: a experiência de estar só, como bebê ou criança pequena, na presença da mãe.” O temor à solidão muitas vezes reflete não a falta atual de pessoas, mas a ausência de uma presença interna suficientemente segura que torne o silêncio um lugar habitável.

solidao angustia tristeza
Arte: Gustave Courbet, 1869
Guimarães Rosa escreveu que o silêncio somos nós mesmos, demasiadamente. A solidão pode representar o contato mais íntimo de um indivíduo consigo mesmo. O problema é ter de se encarar, lidar com o desconforto de se perceber inadequado e cobrar-se por uma adequação que talvez nunca chegue. Será que a “normalidade” é tão saudável quanto julgam sê-la? Fala-se muito em pertencimento devido à excessiva oferta de espaço, esses multiversos disseminados pelas mídias nos fragmentam tal qual a Guernica de Pablo Picasso. Nossas faces tortas, irreconhecíveis para nós mesmos gera espanto, intensificando a solidão. Pertencer-se, habitar-se, é o maior desafio para quem tropeça nos próprios passos e não trata as feridas.

Aquela noite da agonia derradeira, quando contemplei o rosto sereno de minha mãe na cama do hospital, segurando meu braço, ela murmuro...

Vejo minha mãe quando observo as estrelas

mae saudade familia fe lembrancas eternidade
Aquela noite da agonia derradeira, quando contemplei o rosto sereno de minha mãe na cama do hospital, segurando meu braço, ela murmurou com os lábios trêmulos “que Deus te abençoe”, e fui abençoado com a meiguice do seu olhar para o resto de minha vida.

Conheci o acadêmico João Batista nos anos 70, quando fazíamos Universidade, Curso de Letras. Fomos da mesma turma. Depois, fui sua al...

A Posse de João Batista de Brito

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Conheci o acadêmico João Batista nos anos 70, quando fazíamos Universidade, Curso de Letras. Fomos da mesma turma. Depois, fui sua aluna em Teoria da Literatura, achei bem difícil e tranquei a disciplina, atordoada. Anos depois, aí mais amadurecida e já na pós, estudei as disciplinas do Texto Poético e Teoria do Cinema. Como aprendi coisas nas aulas de João! Sem falar que até escrevi um texto para o seu livro, Leitura do Texto Poético – ensaios de (e para) a sala de aula. João Batista B. de Brito (Org.), Editora Universitária, 1997, analisando o poema de Vitória Lima, Men(t)ira. Um aprendizado de descobertas.

Com a derrocada da União Soviética e a queda do muro de Berlim, os jovens ficaram menos ligados em política. Fukuyama decretara o fim ...

Alienação gramatical

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Com a derrocada da União Soviética e a queda do muro de Berlim, os jovens ficaram menos ligados em política. Fukuyama decretara o fim da História e, com ele, a falência das ideologias. Rótulos como esquerda e direita tinham saído da moda (embora alguns nostálgicos ainda os alardeassem), assim como parecia haver desaparecido a polarização simplista entre engajamento e alienação. Mas nas décadas de 1960 e 1970 era costume avaliar as pessoas em função de elas estarem em um ou outro desses polos.

Talvez exista dentro de você uma pessoa que há muito tempo não consegue mais sair. Não porque esteja presa em algum lugar, mas porque ...

Atrás da porta

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Talvez exista dentro de você uma pessoa que há muito tempo não consegue mais sair. Não porque esteja presa em algum lugar, mas porque você a trancou atrás de uma porta que construiu para sobreviver.

O som que me circula Me faz rodilha E de mim também feito de som Assimétrico aos meus limites, ele É a ponte sobre o que eu e...

O teu bigode, um tapete de flores

poema antonio aurelio cassiano poesia paraibana
O som que me circula Me faz rodilha E de mim também feito de som Assimétrico aos meus limites, ele É a ponte sobre o que eu era e a Água corrente que me torno E me despeço da pele Deixando-a entre pedras E musgos, como num leito de rio Me esfacelo em lógica Me ato em puro éter E recebo o sentido do que se move

Por razões de força maior, não pude comparecer ao relançamento do livro A intertextualidade das formas simples , da professora Elizabe...

Elizabeth Marinheiro, rainha da Borborema e de outros reinos mais

elizabeth marinheiro literatura campina cultura intertextualidade paraiba
Por razões de força maior, não pude comparecer ao relançamento do livro A intertextualidade das formas simples, da professora Elizabeth Marinheiro, ocorrido há poucos dias em Campina Grande, para onde seguiu uma caravana de seus confrades e confreiras da Academia Paraibana de Letras, todos conscientes da relevância cultural do evento. Pois, de fato, não se tratava apenas de mais um lançamento de livro, mas de um momento muito especial em que, além de se trazer a público, mais uma vez, uma obra literária importante, comemorava-se o aniversário natalício da autora, figura
elizabeth marinheiro literatura campina cultura intertextualidade paraiba
respeitadíssima não só da cultura paraibana, mas também da brasileira como um todo. Na verdade, era uma verdadeira e justa celebração da escritora e professora que tantos serviços prestou – e continua prestando – aos paraibanos e aos brasileiros, em sua área de atuação.

Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aq...

Você busca um cúmplice?

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Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.

O que um touro de corrida em Córdoba, um camponês borgonhês e um tropeiro do sertão brasileiro têm em comum? Há uma panela pesada n...

Cozidos, uma genealogia em forma de prato

cozido gastronomia tradicao afetividade historia culinaria
O que um touro de corrida em Córdoba, um camponês borgonhês e um tropeiro do sertão brasileiro têm em comum?
Há uma panela pesada no canto do fogão, tampada, soltando borbulhas lentas. Quem passa pela cozinha sente o cheiro antes de ver a panela. E talvez não saiba que dentro dela dorme uma história de cinco séculos, que atravessou o Mediterrâneo, as ilhas do Atlântico e o sertão brasileiro. Um touro de corrida em Córdoba, um camponês da Borgonha e um tropeiro do sertão têm mais
cozido gastronomia tradicao afetividade historia culinaria
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em comum do que imaginam. Os três acabaram, cada um a seu modo, dentro de um cozido. Eu chamo a isso de receitas de afetividade. São comidas que fazem mais do que restaurar e saciar a fome. Elas abraçam. Quem prova um prato desses volta no tempo, sente o cheiro da casa de alguém, ouve de novo uma voz que talvez já não esteja aqui. A panela é um portal, e o cozido é o passe de entrada.

“Nosso corpo mortal com certeza irá. Aquele que é o Criador de todos os seres, segura-te firme para segurá-lo. E Dança, ó Serpe...

Nag Panchami: O Festival das Serpentes

deuses serpentes india naja
“Nosso corpo mortal com certeza irá.
Aquele que é o Criador de todos os seres, segura-te firme para segurá-lo. E Dança, ó Serpente!
Os tolos procuram alegria na mentira. Quem realiza estados superiores observa o Silêncio, para buscar a Essência da Verdade. Sabe disso. E dança, ó Serpente!” Paambatti Siddha in “Dança, ó Serpente!”, “Aadu Paambe” (século XVIII)

Nesta data, 25 de setembro , 61 anos atrás, Lobo entrou na minha vida. Era um belíssimo pastor-belga preto, pelos longos, olhar muito i...

Amigos de estimação

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Nesta data, 25 de setembro, 61 anos atrás, Lobo entrou na minha vida. Era um belíssimo pastor-belga preto, pelos longos, olhar muito inteligente. Chegou lá em casa pelas mãos de Paulo Fernando e logo me adotou como seu dono. Foi como se eu tivesse conquistado o seu coração.

Era o 2 de dezembro de 1945, o mais cívico dos anos de toda a minha vivência, embora não passasse dos meus 12 anos ou, talvez mesmo, p...

O mais alvissareiro dos anos

eleicoes 1945 dutra brigadeiro
Era o 2 de dezembro de 1945, o mais cívico dos anos de toda a minha vivência, embora não passasse dos meus 12 anos ou, talvez mesmo, por isso. Foi o ano em que a Grande Guerra acabou, a narração do rádio televisionada pela imaginação, o público a fazer auditório aquém do balcão da mercearia de Seu Nequinho, um dos grandes do nosso pequeno comércio.

QUERIA Queria escrever poesia Mas não posso Estou entregue aos fatos à razão ao rumor dos acontecimentos Queria o verbo sem condi...

Queria... Ah, como queria

poesia tatui cristina siqueira
QUERIA
Queria escrever poesia Mas não posso Estou entregue aos fatos à razão ao rumor dos acontecimentos Queria o verbo sem condicional Mas não posso As palavras passam fluidas escorrem entre os dedos minhas mãos não as alcançam

Um romance que devolve à literatura a responsabilidade de preservar memórias que o país preferiu esquecer. Minha Pequena Gota de Chuv...

Minha Pequena Gota de Chuva

livro hanseniase cidadania
Um romance que devolve à literatura a responsabilidade de preservar memórias que o país preferiu esquecer. Minha Pequena Gota de Chuva, de Jesu Andrade, pertence a essa segunda categoria.

A narrativa acompanha duas trajetórias que, à primeira vista, parecem independentes: a de Pingo, um menino negro de apenas onze anos que vende picolés nas ruas de Guarulhos para financiar

Existem livros que não pretendem simplesmente contar o mundo: pretendem observá-lo. A Mosca na Parede e outros textos — de crônicas a e...

A mosca na parede e outros textos — de crônicas a ensaiados ensaios

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Existem livros que não pretendem simplesmente contar o mundo: pretendem observá-lo. A Mosca na Parede e outros textos — de crônicas a ensaiados ensaios pertence a essa linhagem. Seu ponto de partida é aparentemente modesto — a atenção ao cotidiano, aos pequenos acontecimentos, às figuras anônimas, às contradições da existência —, mas é justamente dessa aparente modéstia que nasce sua força literária.

Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver...

Os ocultos caminhos da linguagem

grande sertao riobaldo diadorim
Há pessoas que tratam a língua como se ela fosse um corpo rígido, vendo-a como o faria um professor de anatomia, diante de um cadáver, interessado em identificar a seus alunos as suas partes constituintes. Ou como um legista, preocupado apenas com a autópsia. São pessoas que esquecem ser a mudança a lei natural da língua, porque lei do Universo.

Marineuma Oliveira (Bienal Internacional do Livro de São Paulo ⏤ setembro 2026) ▪️ Acervo pessoal"> Há substancial diferença e...

Da Bienal Internacional do Livro de São Paulo

bienal internacional sao paulo livros leitura literatura autores consumo
Há substancial diferença entre ler e gostar de livros. Nem sempre quem os ama é um grande leitor, assim como nem todo leitor cultiva uma relação afetiva com esse objeto. Ler é mergulhar no texto, página a página, acompanhar as ideias do autor e dialogar com elas. Gostar de livros, por outro lado, envolve muito do que eles representam: o projeto gráfico impactante e inovador, o cheiro, a assinatura de um escritor consagrado, o fato de estarem entre os mais vendidos e até o prazer de possuí-los.

O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém ...

Quando resolvi entrevistar Deus

poesia daniele souza entrevista deus
O que eu perguntaria pra Deus Se pudesse entrevistá-lo? Aí pensei: Que bobagem essa minha! Jamais poderia perguntá-lo. Alguém de grande importância Será que me deixaria questioná-lo? Um caderno com perguntas, E um lápis qualquer. Sentaria perto dEle, Quem sabe, ofereceria um café. Para o Dono dos meus dias E quem me mantém de pé.

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