Há desenhos que a gente vê na infância e simplesmente acha engraçados. Depois, muitos anos mais tarde, descobre que alguns deles eram grandes lições disfarçadas de entretenimento.
Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.
Recentemente, em Salvador, um repórter estava fazendo uma entrada ao vivo diante de um hospital quando um cachorro de rua se aproximou. O animal brincou com ele, afastou-se e depois voltou carregando um pedaço de pano, deitou sobre o pé do jornalista e ficou ali. O repórter não podia brincar muito porque estava cobrindo uma notícia triste, mas deu o máximo de atenção que podia. O suficiente para a cena chamar bastante a atenção nas redes digitais. O corte da reportagem
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viralizou e chegou até a dona do cachorro. Descobriu-se que o cãozinho estava desaparecido havia mais de um mês e que sua família o procurava. O que começou como uma interrupção banal de uma reportagem terminou com o cachorro reencontrando sua tutora. O próprio repórter resumiu a experiência dizendo que um pequeno gesto de cuidado pode transformar completamente o dia e a vida de alguém.
A antiga tradição grega personificava a “Oportunidade”, Kairós, como um jovem veloz, com uma grande mecha de cabelos na testa e a parte de trás da cabeça calva. A ideia era simples: quando a oportunidade vem, é preciso agarrá-la pelos cabelos, porque, depois que ela passa, não há como segurá-la pela parte careca da cabeça. Daí nasceu a expressão “agarrar a oportunidade pelos cabelos”, isto é, reconhecer o momento certo e aproveitá-lo antes que desapareça.
A língua tem dessas coisas. Uma palavra mal traduzida, uma pergunta feita na hora errada, e aquilo que deveria ser apenas uma conversa amena e cordial pode acabar produzindo uma situação um tanto quanto constrangedora. Eu sempre tive simpatia pelas línguas estrangeiras e, naquela época, estudava alemão. Quando encontrava alguém que falava a língua, gostava de praticar um pouco, mais por curiosidade e prazer de conversar do que por qualquer pretensão de domínio.
Numa antiga fábula atribuída a Esopo, um homem vê sua carroça atolada e, em vez de pôr os ombros na roda, pede auxílio aos deuses. O homem olha para o céu quando deveria olhar para a roda. É uma imagem da condição humana. Passamos boa parte da vida esperando que alguma força exterior nos retire da lama, quando a primeira providência necessária é simplesmente empurrar.
Eu era diretor de uma instituição acadêmica privada quando tive a oportunidade de convidar meu orientador de doutorado, um professor espanhol de certo renome, para participar de um congresso promovido pela instituição. Ele era um intelectual respeitado, dedicado sobretudo aos problemas da ética e, naquela ocasião, falou sobre ética aplicada ao Direito, particularmente sobre ética jurídica. Era um homem que gostava de pensar antes de responder, o que já o colocava em certa desvantagem num mundo onde muita gente responde antes mesmo de ouvir a pergunta.
Houve um tempo em que o bem era um segredo. Não porque Deus o escondesse, mas porque os homens ainda não sabiam enxergá-lo. A verdade existia, é claro. Filósofos a perseguiam, sábios a intuíam, iniciados a guardavam como quem protege uma chama frágil do vento. Mas era uma verdade cercada por labirintos, exigindo preparo, linguagem, símbolos e abstrações. A maior parte da humanidade, ainda esmagada pela luta diária para sobreviver, simplesmente não conseguia alcançá-la. Era um conhecimento iniciático.
Marília Arnaud construiu um percurso literário marcado pela precisão da linguagem e pela capacidade de transformar sentimentos em imagens, lembranças em matéria literária e silêncio em música.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, surpreendeu muita gente ao citar Sócrates em um discurso sobre a Copa do Mundo de 2026. E não falava do filósofo grego que ensinou Atenas a pensar. Falava do brasileiro de barba cerrada, passes precisos e ideias perigosamente livres: o capitão da Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação dos jogadores nas decisões do clube e apoiava a redemocratização do Brasil, isso em plena ditadura militar.
Tenho um amigo que acredita ter descoberto a fórmula da paz universal. Não está nos tratados diplomáticos, nem nas religiões, nem nos livros de autoajuda vendidos em aeroportos. É muito mais simples: não fique perto demais das pessoas.
Existe uma fraude moderna mais sofisticada e cruel que muitas ditaduras: a obrigação de parecer feliz enquanto se afunda. O sujeito ganha mal, dorme pouco, pega ônibus lotado, é descartável na empresa e ainda precisa sorrir como um animador de auditório corporativo. Não basta trabalhar. É preciso “vestir a camisa”. Uma camisa, aliás, comprada em doze vezes pelo próprio funcionário, que mal consegue pagar o aluguel.
Há pessoas que passam a vida inteira sonhando com uma casa diante do mar. Não é apenas um imóvel. É um pedaço particular de paraíso. Acordar ouvindo as ondas, abrir a janela e ver o horizonte dissolvendo as preocupações da alma. Há sonhos que não cabem numa escritura; cabem apenas no coração. E sempre fico feliz quando alguém consegue realizá-los.
Sigmund Freud olhou para a alma humana como quem desmonta um relógio roubado: cercado de peças pequenas, molas nervosas e culpas herdadas da infância. Entre suas ideias mais polêmicas estava a tal “inveja do pênis”. Segundo ele, em algum ponto da infância, a menina perceberia que não possui aquilo que o mundo transformou em cetro, espada e crachá do poder masculino. E sofreria por isso.