Dois autores dedicaram-se à tarefa aparentemente simples de perguntar o que é alguma coisa: "O que é Filosofia?", de José Ortega y Gasset, e "O que é isto — a Filosofia?", de Martin Heidegger. Li ambos, atravessei suas reflexões e, ingenuamente, imaginei que certas perguntas ontológicas permaneceriam confinadas aos livros. Jamais pensei que chegaria o dia em que eu próprio seria colocado diante de uma questão dessa magnitude. E, pior, que teria de responder a essa indagação sem poder recorrer a Heidegger, Ortega y Gasset ou sequer a uma enciclopédia. A filosofia, como se vê, tem dessas crueldades: às vezes, abandona a biblioteca e aparece no balcão de uma cafeteria.
Há acontecimentos que, se fossem inventados por um escritor, seriam devolvidos pelo editor sob a acusação de inverossimilhança. A realidade, porém, não se submete às exigências da ficção. Quando resolve fazer humor, não conhece limites. Às vezes, supera tanto a imaginação que o escritor precisa jurar que tudo aconteceu exatamente como está contando.
Entre o final da década de 1990 e os primeiros anos do século XXI, eu costumava frequentar, em Campina Grande, o Encontro para a Nova Consciência, uma iniciativa que demonstrava ser possível aproveitar o Carnaval para alguma coisa além de ressacas, confissões constrangidas e promessas de abandonar a bebida na quarta-feira de cinzas.
Há encontros que começam antes de a gente saber que está diante de alguém. E há outros que só começam depois que a nossa ignorância termina. Foi assim que conheci, de verdade, o professor Hermógenes, embora eu já o conhecesse havia muitos anos, desde a adolescência, através dos seus livros. Naquela época, eu ainda não sabia que certas pessoas entram primeiro na nossa biblioteca para, muitos anos depois, entrarem também na nossa vida.
Minha experiência como pastor ensinou-me uma coisa que os livros de teologia ignoram ou omitem: raramente alguém desiste de fazer aquilo que deseja apenas porque outra pessoa lhe demonstrou que está errado. Pode-se apresentar a passagem bíblica mais explícita, o argumento mais convincente, a advertência mais amorosa e racional. Se a vontade estiver decidida, a razão será convocada apenas para ser um mero contraste à desobediência.
A questão da criação a partir do nada é um problema que já intrigava o pensamento antigo. Parmênides sustentava que, do nada, nada poderia surgir; Platão imaginava um demiurgo ordenando uma matéria já existente; Aristóteles concebia um cosmos eterno.
Há desenhos que a gente vê na infância e simplesmente acha engraçados. Depois, muitos anos mais tarde, descobre que alguns deles eram grandes lições disfarçadas de entretenimento.
Sempre colecionei histórias sobrenaturais. Não por aquela curiosidade de quem passa a noite procurando fantasma para ter assunto no café da manhã, mas porque algumas histórias, quando escutadas com o coração desarmado, ajudam a conservar uma coisa que anda muito maltratada neste mundo: a esperança.
Recentemente, em Salvador, um repórter estava fazendo uma entrada ao vivo diante de um hospital quando um cachorro de rua se aproximou. O animal brincou com ele, afastou-se e depois voltou carregando um pedaço de pano, deitou sobre o pé do jornalista e ficou ali. O repórter não podia brincar muito porque estava cobrindo uma notícia triste, mas deu o máximo de atenção que podia. O suficiente para a cena chamar bastante a atenção nas redes digitais. O corte da reportagem
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viralizou e chegou até a dona do cachorro. Descobriu-se que o cãozinho estava desaparecido havia mais de um mês e que sua família o procurava. O que começou como uma interrupção banal de uma reportagem terminou com o cachorro reencontrando sua tutora. O próprio repórter resumiu a experiência dizendo que um pequeno gesto de cuidado pode transformar completamente o dia e a vida de alguém.
A antiga tradição grega personificava a “Oportunidade”, Kairós, como um jovem veloz, com uma grande mecha de cabelos na testa e a parte de trás da cabeça calva. A ideia era simples: quando a oportunidade vem, é preciso agarrá-la pelos cabelos, porque, depois que ela passa, não há como segurá-la pela parte careca da cabeça. Daí nasceu a expressão “agarrar a oportunidade pelos cabelos”, isto é, reconhecer o momento certo e aproveitá-lo antes que desapareça.
A língua tem dessas coisas. Uma palavra mal traduzida, uma pergunta feita na hora errada, e aquilo que deveria ser apenas uma conversa amena e cordial pode acabar produzindo uma situação um tanto quanto constrangedora. Eu sempre tive simpatia pelas línguas estrangeiras e, naquela época, estudava alemão. Quando encontrava alguém que falava a língua, gostava de praticar um pouco, mais por curiosidade e prazer de conversar do que por qualquer pretensão de domínio.
Numa antiga fábula atribuída a Esopo, um homem vê sua carroça atolada e, em vez de pôr os ombros na roda, pede auxílio aos deuses. O homem olha para o céu quando deveria olhar para a roda. É uma imagem da condição humana. Passamos boa parte da vida esperando que alguma força exterior nos retire da lama, quando a primeira providência necessária é simplesmente empurrar.
Eu era diretor de uma instituição acadêmica privada quando tive a oportunidade de convidar meu orientador de doutorado, um professor espanhol de certo renome, para participar de um congresso promovido pela instituição. Ele era um intelectual respeitado, dedicado sobretudo aos problemas da ética e, naquela ocasião, falou sobre ética aplicada ao Direito, particularmente sobre ética jurídica. Era um homem que gostava de pensar antes de responder, o que já o colocava em certa desvantagem num mundo onde muita gente responde antes mesmo de ouvir a pergunta.
Houve um tempo em que o bem era um segredo. Não porque Deus o escondesse, mas porque os homens ainda não sabiam enxergá-lo. A verdade existia, é claro. Filósofos a perseguiam, sábios a intuíam, iniciados a guardavam como quem protege uma chama frágil do vento. Mas era uma verdade cercada por labirintos, exigindo preparo, linguagem, símbolos e abstrações. A maior parte da humanidade, ainda esmagada pela luta diária para sobreviver, simplesmente não conseguia alcançá-la. Era um conhecimento iniciático.
Marília Arnaud construiu um percurso literário marcado pela precisão da linguagem e pela capacidade de transformar sentimentos em imagens, lembranças em matéria literária e silêncio em música.
O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, surpreendeu muita gente ao citar Sócrates em um discurso sobre a Copa do Mundo de 2026. E não falava do filósofo grego que ensinou Atenas a pensar. Falava do brasileiro de barba cerrada, passes precisos e ideias perigosamente livres: o capitão da Democracia Corinthiana, movimento que defendia a participação dos jogadores nas decisões do clube e apoiava a redemocratização do Brasil, isso em plena ditadura militar.