Não sei por que insisto em caminhar de manhãzinha se faz tanto frio estes dias. Comigo segue uma solidão invencível que se enrola em véus ...

Pessegueiro em flor

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Não sei por que insisto em caminhar de manhãzinha se faz tanto frio estes dias. Comigo segue uma solidão invencível que se enrola em véus de neblina, nuvens de grafite e árvores sem folhas. Ando com amendoins no bolso do casaco para dar aos corvos e esquilos. É fim de inverno e os bichos têm fome. A minha é outra fome, a de ver tudo renascer no parto anual da Terra.

Enquanto percorro as ruas desertas e anseio por amenas brisas, vejo detalhes de vida e danço com um poema escrito há mil anos por Sugawara no Michizane. Versos que falam de um anoitecer na primavera, com a lua do Ano Novo fazendo até o céu se embriagar das flores de pessegueiros e ameixeiras.

Mil anos de excitação ante a chegada da primavera.

Sugawara no Michizane viveu na Era Heian, quando as artes floresceram no Japão e a literatura alcançou seu mais alto refinamento. Não lhe bastava ser um poeta excepcional e um erudito, havia também ele de amar a natureza e cantá-la em uma poesia que parece tecida em seda. Séculos após sua morte, tornou-se divindade — Tenjin, deus do aprendizado.

Penso no poeta convertido em deus enquanto vejo os templos e os jardins zen ainda cobertos de silêncios. Perante as bonecas do Hinamatsuri mergulho novamente no mais sofisticado período da história japonesa. Foi durante a Era Heian que as bonecas ganharam suas ricas vestimentas e se consolidou o Dia da Menina e também o festival dos pessegueiros. Não vi pessegueiro algum.

Uma outra voz me acompanha. Distante, grave, a atravessar distâncias, percorrer com a ponta das unhas a linha da minha coluna e me pôr um murmúrio indefinível de saudade na parte de trás da língua, quase na garganta. Por vezes desejo essa voz a me dizer somente coisas de rir.

Nesses meses frios, Japantown, onde moro, tem menos cores. Não reclamo da minha miniatura do Japão. Quando vim morar em San Jose, escolhi esse bairro porque no meu arsenal particular de provérbios há um (recente) que determina: quem não tem Tóquio, adota japoneses da California.

Aqui sou feliz quando me perco nas lojas de quinquilharias, caminho entre cerejeiras, adormeço de olhos abertos nos bancos empoeirados do templo budista. Compro cartões de Hokusai e dragões verdes com longos bigodes dourados.
Engulo tudo com chás oolongs legítimos, que vêm com selo e tudo.

Na porta do mercado, o velhinho caminha com dificuldade, apoiado no andador. No meu peito se abre uma janela branca e vermelha.

Um rodopio de imagens soltas me perfura os sentidos.

E a vejo de novo: a casa simples. Nela se tira os sapatos à porta, Sakae me oferece caramelos de leite feitos para grudar nos meus dentes de leite, Tereza corta verduras muito finas, como papeis de origami. Tia Mineko fala com dona Flor (sempre achei esse nome lindo, como se fosse de brinquedo).

No canto da sala ele está sentado, de costas, escrevendo na sua escrivaninha. É noite e há pouco chegou do trabalho, talvez trazendo uma fina camada de manganês a lhe cobrir a camisa. Um espelhinho à altura dos olhos permite que veja o que acontece atrás de si. As canções japonesas preenchem todos os espaços. Sou pequena demais para compreendê-las. Não sei o que dizem, mas sua música me embala.

O meu tio Hayashida passou pela minha vida como uma canção japonesa que eu não entendia, mas que me alcançava com sua melodia e eloquentes silêncios. Dele eu pouco sei, mas está aqui, gravado no meu peito como fotografia antiga. Ou um quebra cabeças de peças espalhadas pelo vento.

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Sentiria saudade de casa? No que pensava ao ouvir as canções?

De vez em quando lembro do tio. Eu sou a criança que prendeu o pé num buraquinho do chão de madeira da casa dele. Uma casa que tinha cheiro de limpeza e segredos, por vezes uma estrangeira mudez.

Casa em que aprendi a olhar para outros mundos, ouvir o som de outras línguas e experimentar sabores novos.

Havia um quarto envolvido em mistérios. De vez em quando tia Mineko desaparecia lá dentro, envolta na quietude das coisas sagradas. Nos potinhos, arroz cru. No ar, reverência.

— Nunca entre sem permissão! E fique quieta quando a Professora Mineko estiver lá. Ela está rezando.

Pra que deus desconhecido rezava a tia Mineko? Hoje eu pensaria num deus-poeta. O perfume do incenso se esgueirava por debaixo da porta e me falava de uma fé que me fazia querer atravessar a parede e rezar junto, diante do arroz nos potinhos.

Minha mãe tinha a tia Mineko como irmã do coração, mas sempre a tratava como “Professora Mineko”. Tratamento recíproco, registre-se.

A casa original já não existe. Em seu lugar há uma nova, de alvenaria, muito mais bonita, dizem. Fui lá, mas dela não lembro. Minha memória está preenchida pela singeleza de uma cerca de madeira, um jardinzinho e a casa cheirando a limpeza e honestidade. Desta lembro em detalhes: a cozinha, a coleção de bonecas vestindo quimonos e o quarto onde li “Meu Pé de Laranja Lima”.

Melhor admitir logo a verdade: em todos esses japoneses idosos procuro os traços e o jeito de andar dos Hayashidas. Vontade de morder de novo o fruto da infância perdida. Se reviver os Hayashidas, subverto o tempo e ganho de volta os meus pais e meu começo de vida. Tolices que nos ocorrem quando começamos a ficar velhos e os amores dormem nos túmulos.

Um leve sacudir de cabeça e sigo, um pouco mais solitária, a bisbilhotar a vida secreta dos passarinhos e encostar as palmas das mãos na casca nodosa das árvores pelo caminho. Logo um outro poeta antigo me vem fazer companhia. Shiki.

Recito, sorrindo:

A tranquilidade De andar sozinho, Divertir-se sozinho.

Inegável, Shiki. Penso em também escrever um haicai, mas me distraio com a visão de um pessegueiro em flor (será mesmo um pessegueiro? Não o distingo das sakuras, mas isso não importa, pois decidi que é flor de pêssego por causa do Hinamatsuri). Desafiando as outras árvores ainda adormecidas no colo deste longo inverno, esta se cobre de rosa. O vento lhe agita os galhos e algumas flores flutuam pelo ar.

Sorrio e dedico à memória de Mineko e Hayashida o haicai de alguém muito maior que eu, o poeta Onitsura. O poema escrito no século dezessete me atinge com força.

Dia de primavera — Os pardais no jardim Tomam banho de areia.

Trezentos anos são nada. Um milênio é nada. O começo de minha vida? Igualmente nada. O tempo presente é o de Sugawara no Michizane, de Shiki, de Onitsura e também é o meu. Estamos os quatro deslumbrados com a árvore coberta de flores a anunciar que a primavera logo estará aqui.

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  1. Belo texto Sonia Sonia Zaghetto👊👊
    Parabéns👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏👏
    Paulo Roberto Rocha

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  2. Uma verdadeira viagem. Viajei!
    Obrigado.

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