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Foi numa tarde de primavera que as vi pela primeira vez. Vermelhas, amarelas, roxas, brancas e laranjas, estendiam-se como aquarela até...

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Foi numa tarde de primavera que as vi pela primeira vez. Vermelhas, amarelas, roxas, brancas e laranjas, estendiam-se como aquarela até onde a vista alcançava, ao longo da baía de San Francisco.

Os acontecimentos me espreitam nas dobras destes dias longos. E com seus dedos compridos andam a fazer de marionete os sentimentos meus...

reflexoes poesia finitude
Os acontecimentos me espreitam nas dobras destes dias longos. E com seus dedos compridos andam a fazer de marionete os sentimentos meus. Ontem, vi um passarinho morrer. Sem aviso, a morte o pôs sob seu manto de grama verde. Parecia muito calma, quase indiferente, mas notei que recolheu o corpo do pássaro com gestos gentis e murmúrios doces. Lembrei de um poema de Schiller, Nänie, cujo primeiro verso, “Auch das Schöne muß sterben”, se traduz como “Mesmo o belo deve morrer”. Embora real e filosófica, a frase não elimina o luto. Sob este, tem-se a impressão de que há mais silêncio, mais deserto. Como se toda luz adormecesse.

Nänie é uma palavra que significa “pesar” e se refere à deusa romana dos ritos funerários, Nenia. O poema é uma lamentação sobre a inevitabilidade da morte que alcança a todos,

Estou na varanda e Mochi, o gato, acompanha com a cabeça os movimentos dos passarinhos na árvore. Direita, esquerda, alto, baixo. Está...

Estou na varanda e Mochi, o gato, acompanha com a cabeça os movimentos dos passarinhos na árvore. Direita, esquerda, alto, baixo. Está hipnotizado, louco de desejo de pegar um pássaro. Cada movimento das aves é um fio que o faz se mexer como se fosse marionete. O silêncio da manhã é rompido por um riso curto. Eu me volto, nada vejo. Estou só. Mas eu a sinto, uma presença invisível que me espia. Ouço o seu respirar na minha nuca. Os lábios se aproximam dos meus ouvidos. Ela sussurra: “Não desdenhe do gato. Você é igual. Quem lhe controla?”.

Não pertenceu à biblioteca dos reis e dos aristocratas, não ele. Jamais teve rica encadernação, letras douradas, nome na lista dos expe...

Não pertenceu à biblioteca dos reis e dos aristocratas, não ele. Jamais teve rica encadernação, letras douradas, nome na lista dos experts. Mas na minha estante humilde, de madeira sólida e aparência sóbria, ele reinou. Meu livro de carne e osso, meu exemplo de páginas nobres, no qual os conselhos brilhavam em letras firmes, parágrafos de risos longos e generosidade de ideias.

— Mãe, vamos ver a exposição do Chagall? O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresc...

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— Mãe, vamos ver a exposição do Chagall?

O convite do filho – duplamente especial por ser ele um artista – chegou como sopro de ar fresco num dia em que a comédia humana se exibia em episódios cada vez mais despudorados nas redes sociais. E era Chagall! Eu jamais havia visto um quadro dele ao vivo. E isso, bem sei, muda tudo. Sem falar que é o pintor judeu por excelência e eu ansiava por sentir a alma judaico-russa transbordando nas telas.

Nem sempre a democracia é inspiradora, nobre ou grandiosa. Ela tem suas cavernas e obscuridades. Idealizá-la é devaneio. É mais que ...

Nem sempre a democracia é inspiradora, nobre ou grandiosa. Ela tem suas cavernas e obscuridades. Idealizá-la é devaneio.

É mais que óbvio lembrar que concorrer a uma eleição é se submeter à vontade da maioria, que nem sempre coincide com a nossa. Paciência, é assim que a política funciona. Esta é a natureza da democracia que dizemos valorizar.

A quinta sinfonia de Gustav Mahler bem expressa a turbulenta alma de um artista. Tudo nela fala dos paradoxos emocionais de Mahler e da ...

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A quinta sinfonia de Gustav Mahler bem expressa a turbulenta alma de um artista. Tudo nela fala dos paradoxos emocionais de Mahler e da maioria de nós, os que fazemos da arte o nosso pão e o nosso refúgio.

Mahler escreveu sua quinta sinfonia durante os verões de 1901 e 1902. Em fevereiro de 1901, ele havia sofrido uma grande hemorragia que quase lhe custou a vida. O compositor passou um longo tempo se recuperando em sua vila à beira de um lago no sul da Áustria.

Às vezes o amor simplesmente acontece. Manso, ele te encontra numa rua sem asfalto, em tarde de sol. De repente, tudo brilha e refulge ao ...

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Às vezes o amor simplesmente acontece. Manso, ele te encontra numa rua sem asfalto, em tarde de sol. De repente, tudo brilha e refulge ao teu redor. Ele te faz rir, desarmado. Um instante depois te atira numa espiral que converte a vida em turbilhão. Um frenesi de gozo e lágrimas regado a sangue escaldando e que te faz escutar algo feroz rugindo no teu peito a ponto de espalhar dor e sal, mel e água de rosas no teu espírito atemorizado. Não tão simples e nada manso, afinal. Amor, dizem. De quem falo neste texto? De mim, de ti, dos Beatles ou de Get Back, o documentário de Peter Jackson? De todos nós, por certo, já que “Get Back” me fez escrever sobre os Beatles com um olho fixo nas impurezas e no esplendor que movem a nossa humanidade. Um filme que contém todo o deleite, a tensão, as ásperas lutas e a graça da existência.

“Queridíssimo, Tenho certeza de que vou enlouquecer novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles momentos terríveis. E, d...

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“Queridíssimo,

Tenho certeza de que vou enlouquecer novamente. Sinto que não podemos passar por outro daqueles momentos terríveis. E, desta vez, não vou me recuperar. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Então estou fazendo o que me parece ser a melhor coisa a fazer. Você tem me dado a maior felicidade possível. Você tem sido, em todos os sentidos, tudo o que alguém poderia ser. Não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes, até a chegada dessa terrível doença. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E você vai, eu sei. Veja que sequer consigo escrever isso apropriadamente. Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você tem sido inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso – todo mundo sabe. Se alguém pudesse ter me salvo, teria sido você. Tudo se foi para mim, menos a certeza da sua bondade. Não posso continuar a estragar a sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós.

Quando a Magnum Photos publicou esta imagem, em 2016, no dia em que Robert Redford completou 80 anos, a reação foi raivosa. “Não, Redford...

robert redford oitenta anos velhice transitoriedade vida
Quando a Magnum Photos publicou esta imagem, em 2016, no dia em que Robert Redford completou 80 anos, a reação foi raivosa. “Não, Redford merece outra coisa. Ele não está a serviço da arte do fotógrafo, mas o contrário”, disse um comentarista. Outro emendou:

A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida como você conhece termina. Ontem, em meio a uma tarde ...

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A vida muda rápido. A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida como você conhece termina.

Ontem, em meio a uma tarde fria e nublada pelas cenas de uma guerra insana, lembrei das frases com que Joan Didion inicia o romance “O Ano do Pensamento Mágico”, no qual a escritora narra a morte do marido, John Gregory Dunne, e a doença fatal da única filha.

É se olhar no espelho e aceitar que não se é perfeito; que o desejo de uma conduta impecável, por mais sincero que seja, por vezes não se ...

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É se olhar no espelho e aceitar que não se é perfeito; que o desejo de uma conduta impecável, por mais sincero que seja, por vezes não se cumpre. Falha-se aqui e ali. Basta um descuido para as coisas tomarem um rumo de atrito e perda. E se vestir de paciência para se reerguer e recomeçar, dizendo a si mesmo: está tudo bem, você está tentando, continue a se esforçar.

Quando eu conduzia estudos de meditação na Escola de Yoga Clássico de Brasília, costumava propor um desafio. Durante alguns minutos, pedia...

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Quando eu conduzia estudos de meditação na Escola de Yoga Clássico de Brasília, costumava propor um desafio. Durante alguns minutos, pedia aos praticantes que imaginassem como reagiriam se, de repente, se encontrassem absolutamente a sós consigo mesmos.

Para que toda essa vida que existe em mim possa te alcançar? Eu escrevo porque preciso. Porque algo brota dentro do peito e é maior que ...

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Para que toda essa vida que existe em mim possa te alcançar?

Eu escrevo porque preciso. Porque algo brota dentro do peito e é maior que eu. Um território santo, secreto, onde sou capaz de criar a vida e destruí-la. Gentes, bichos árvores e as próprias estrelas ao alcance da mão. Escrever é experimentar – por brevíssimos instantes – o sabor da divindade. É embriagador e atemorizante. Um poder absoluto que esmaga e hipnotiza.

"Desculpem, mas nem tudo precisa soar tão inteligente, espirituoso ou agradável. Às vezes, precisamos apenas ser capazes de dizer coi...

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"Desculpem, mas nem tudo precisa soar tão inteligente, espirituoso ou agradável. Às vezes, precisamos apenas ser capazes de dizer coisas uns para os outros. Precisamos ouvir". A fala do personagem Dr. Mindy, em "Não olhe para cima" (Don’t Look Up), resume bem o espírito do filme da Netflix e a discussão bizantina que se seguiu ao lançamento.

Neste longo caminho já vi flores de primavera. Rosinhas miúdas, margaridas e cravos, lírios e tulipas traduziram a inocência dos primeiro...

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Neste longo caminho já vi flores de primavera. Rosinhas miúdas, margaridas e cravos, lírios e tulipas traduziram a inocência dos primeiros tempos – tão breves. Logo chegou o verão, com seus calores e risos. Tempo de despreocupação, de roupas curtas, suor no rosto, namoros e sonhos.

Agora caminho neste começo de inverno. Há uns silêncios profundos em mim. Vontade de mais ouvir que falar. Certezas? Apenas que sei tão pouco da vida e das coisas. Penso nos olhos dos filhos e na pilha de livros por ler e reler. Tantos escritores já estiveram no caminho. Suas vozes não se calaram. Este é o supremo segredo dos poetas: fingem que dormem entre páginas velhas, mas basta um gesto e saltam risonhos ou graves, a contar histórias que enredam. Suspiro.

Não lembro mais quem disse que se você alimentar seu cérebro exclusivamente com séries de TV bobinhas, tipo "Two and a half men"...

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Não lembro mais quem disse que se você alimentar seu cérebro exclusivamente com séries de TV bobinhas, tipo "Two and a half men", não espere que ele entenda Platão. Se os Titãs já tinham alertado que a televisão "me deixou burro demais", o que dizer agora que a avalanche de vídeos do Tik Tok e de fotos de bobagens no Instagram parece ter dominado as mentes?

Ítaca, minha Ítaca, quando as horas se enchem de sombras e um nó se instala na minha garganta, lembro de ti. Nos dias em que as sereias en...

ulisses odisseia amizades destino itaca
Ítaca, minha Ítaca, quando as horas se enchem de sombras e um nó se instala na minha garganta, lembro de ti. Nos dias em que as sereias entoam as suas enganadoras cantigas, a tua lembrança é o que me impede de mergulhar no abismo. Meta primordial, Ítaca é a chegada em casa, a volta ao amor mais caro, o olho a contemplar a paisagem quase perdida. É o descanso após a longa jornada de encantos e asperezas.

Alcatraz é rocha isolada em meio às águas geladas da baía de San Francisco. Cercada por ondas de jade, ela surge aos meus olhos com um cor...

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Alcatraz é rocha isolada em meio às águas geladas da baía de San Francisco. Cercada por ondas de jade, ela surge aos meus olhos com um cortejo de memórias que desconheço. “O que vais me oferecer?”, pergunto-lhe. Fiz questão de nada ler antes de chegar à ilha. Sabia apenas o básico: era uma antiga prisão federal, com fama de lugar impossível de escapar.

No dia em que a morte bateu à minha porta, eu a recebi com um sorriso sincero. Ela entrou, de vestido amarelo, e espiou ao redor, muito ca...

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No dia em que a morte bateu à minha porta, eu a recebi com um sorriso sincero. Ela entrou, de vestido amarelo, e espiou ao redor, muito calma. Viu as flores frescas que comprei para esperá-la, e alisou o penteado novo. Gostou? Sacudi a cabeça, emendando que estava linda. Parecia mais jovem (e isso não era verdade – ambas sabíamos muito bem). Recusou o café: “Faz mal para o meu refluxo”, disse, polida e risonha.