Mostrando postagens com marcador Sonia Zaghetto. Mostrar todas as postagens

Nem parece quase verão. Chicago, eternamente açoitada por ventos fortes, encara uma tardia onda de frio. Subo a gola do casaco enquanto ...

cronica viagem liberdade trem chicago amish zaghetto
Nem parece quase verão. Chicago, eternamente açoitada por ventos fortes, encara uma tardia onda de frio. Subo a gola do casaco enquanto arrasto a mala pequena pela calçada. Diante da Union Station, café, croissant e um gosto de liberdade. Estar só é um prazer que nem a pandemia abalou. Ao contrário: cada vez mais valorizo a companhia dos meus pensamentos, o diálogo interno com uns filósofos mortos e o mastigar constante das ideias para o próximo livro.

Ando dedicada a ofício novo: uma apreciação muito exata das coisas mínimas e um artesanato do meu cotidiano. Cada detalhe da minha vida de...

cronica vida simples passaros jardim auto ajuda sonia zagheto poesia coisas simples
Ando dedicada a ofício novo: uma apreciação muito exata das coisas mínimas e um artesanato do meu cotidiano. Cada detalhe da minha vida desimportante me fascina e encanta. Retiro pequenezas da estante da simplicidade e as elevo, novos ídolos, ao altar das divindades recém-nascidas. Lá permanecem, dourados instantes, a me confortar na paisagem cinza destes dias longos.

Tenho um amigo-jardim. Ele planta flores nos meus dias. Cria quarentenas imaginárias, lugares povoados de rara beleza, fartas doses de poe...

auto ajuda otimismo quarentena jardim flores lembrancas
Tenho um amigo-jardim. Ele planta flores nos meus dias. Cria quarentenas imaginárias, lugares povoados de rara beleza, fartas doses de poesia. Ensinou-me muitas coisas — a mais importante delas sobre encontrar conforto e alegria nas pequenas dádivas escondidas no cotidiano.

Há lições nesta pandemia de Covid-19. E histórias estão sendo escritas neste exato instante: a nossa história pessoal e a coletiva. Est...

pandemia solidariedade licao vida desemprego pandemia covid zaghetto
Há lições nesta pandemia de Covid-19. E histórias estão sendo escritas neste exato instante: a nossa história pessoal e a coletiva.

Estamos há mais de um ano em uma guerra que nos exige coragem, é óbvio, mas também sabedoria, sacrifícios e o exercício da serenidade. Esta é decisiva para tomar sábias decisões, a fim de sobreviver. Até hoje ninguém provou que o desespero e o ódio sejam bons conselheiros quando se exige de nós fazer escolhas sensatas. Muito ao contrário.

Vinte e cinco anos antes de morrer, Beethoven escreveu um pungente testamento. Um retrato de sua existência assinalada por sofrimentos ...

literatura beethoven testamento sinfonia 3 eroica Heilingenstadt
Vinte e cinco anos antes de morrer, Beethoven escreveu um pungente testamento. Um retrato de sua existência assinalada por sofrimentos múltiplos: o alcoolismo do pai, a tuberculose que lhe levou a mãe precocemente, a surdez que avançava sobre ele de forma implacável, aos 32 anos, e lhe roubava definitivamente a alegria da convivência com os homens, soterrando o terno sentimento que carregava dentro de si.

"Quem enfrenta monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo,...

literatura brasileira barbárie governo pandemia hubris terror maniqueismo
"Quem enfrenta monstros deve permanecer atento para não se tornar também um monstro. Se olhares demasiado tempo dentro de um abismo, o abismo acabará por olhar dentro de ti”.


A frase de Nietzsche me vem à memória a cada novo episódio da batalha campal em que se converteu a política brasileira.

Você já viu o sol nascer em Chipre? Ele surge como o carro de fogo de Apolo e suas faíscas põem gotas de ouro sobre o Mediterrâneo azul. U...

literatura paraibana pigmaliao afrodite galatea mitologia grega zaghetto
Você já viu o sol nascer em Chipre? Ele surge como o carro de fogo de Apolo e suas faíscas põem gotas de ouro sobre o Mediterrâneo azul. Uma brisa atravessa as montanhas e agita as águas claras, enchendo o coração dos homens de pequenos risos.

Eu, se pudesse, hoje te daria um beijo. Estalado, roubado, risonho, vermelho. E te abraçaria com força, te espremendo as costelas, até...

literatura conto otimismo auto ajuda semente alegria
Eu, se pudesse, hoje te daria um beijo. Estalado, roubado, risonho, vermelho.

E te abraçaria com força, te espremendo as costelas, até te ouvir dizer: “Para! Tá todo mundo olhando!”.

Não sei por que insisto em caminhar de manhãzinha se faz tanto frio estes dias. Comigo segue uma solidão invencível que se enrola em véus ...

literatura cronica sonia zagheto japantown california pessegueiro cultura japonesa
Não sei por que insisto em caminhar de manhãzinha se faz tanto frio estes dias. Comigo segue uma solidão invencível que se enrola em véus de neblina, nuvens de grafite e árvores sem folhas. Ando com amendoins no bolso do casaco para dar aos corvos e esquilos. É fim de inverno e os bichos têm fome. A minha é outra fome, a de ver tudo renascer no parto anual da Terra.

Todo mundo ama Vincent van Gogh. Especialmente agora, que ele está morto e seus ataques de raiva já não envergonham ninguém. Agora, quando...

ambiente de leitura carlos romero cronica sonia zaghetto vincent theo van gogh depressao esquizofrenia suicidio problemas psiquatricos ansiedade panico
Todo mundo ama Vincent van Gogh. Especialmente agora, que ele está morto e seus ataques de raiva já não envergonham ninguém. Agora, quando já não escreve pedindo dinheiro aos parentes, não assedia as primas nem se casa com prostitutas, perde empregos, diz verdades inconvenientes ou tropeça, bêbado de absinto, pelas ruas. Van Gogh comove multidões em 2021. Mas, em 1890, era objeto de riso nas ruas e de fuga dos amigos. Apedrejado pelos moleques, tido como louco por familiares, ninguém o desejava por perto. Desagradável, arrogante, insuportável e fonte de desgosto eram expressões recorrentes para identificá-lo.

Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei ...

ambiente de leitura carlos romero cronica sonia zaghetto reflexoes vida morte pedras sonhos colecao livros
Recentemente sentei sozinha em uma pedra às margens do lago Tahoe. Na tarde gelada, um silêncio solene cabia no meu coração. Observei as águas lisas por muito tempo, eram de um azul-claro pacificado, como um lençol de seda estendido sobre a superfície da Terra. Uma felicidade simples preenchia os minutos. Ao redor da minha solidão havia pedras de todos os formatos e cores. Duas delas atraíram o meu olhar. Rolei-as entre os dedos e as coloquei no bolso.

Ontem, ao acordar, encostei a testa no vidro da janela e vi uma fina nuvem de vapor se erguendo do chão. Um pardalzinho pousou no galh...

ambiente de leitura carlos romero cronica sonia zaghetto reflexoes paz pandemia natureza crueldade chuva animais sonhos akira kurosawa
Ontem, ao acordar, encostei a testa no vidro da janela e vi uma fina nuvem de vapor se erguendo do chão. Um pardalzinho pousou no galho sem folhas da árvore e virou a face na direção do nascente. O vento frio da manhã lhe soprava as penas. Carícia de dedos gelados sob os primeiros raios do sol. Nem um som se ouvia. Hipnotizada, observei os dois — o passarinho arrepiado e a água evaporando em direção ao céu em pequenos arabescos de névoa — e me senti intrusa.

A casa era de madeira e a mesa havia sido feita por meu pai, marceneiro amador. Sobre ela, a toalha de motivos natalinos, bordada em ponto...

ambiente de leitura carlos romero cronica sonia zaghetto lembrancas natal nostalgia casa madeira bolos mesa modesta brinquedos pequena arvore carrinho melancia
A casa era de madeira e a mesa havia sido feita por meu pai, marceneiro amador. Sobre ela, a toalha de motivos natalinos, bordada em ponto-cruz por minha mãe.

Um dia pisei nas areias umedecidas por outro oceano, o Pacífico. Claras e silenciosas águas faziam um bordado no chão. O mar usava um vest...

ambiente de leitura carlos romero cronica fantasia ficcao sonia zaghetto lirismo mar claude monet bahia praia
Um dia pisei nas areias umedecidas por outro oceano, o Pacífico. Claras e silenciosas águas faziam um bordado no chão. O mar usava um vestido de noiva azul, com um véu de rendas se estendendo até mim.

Quase todo centro espírita brasileiro tem um pequeno jornal, mural informativo ou boletim. Alguns imprimem em cores, outros fazem boletins...

ambiente de leitura carlos romero cronica sonia zaghetto jornalismo espiritismo arcaico linguagem moderna allan kardec obras postumas revista espirita comunicacao social publico espiritismo
Quase todo centro espírita brasileiro tem um pequeno jornal, mural informativo ou boletim. Alguns imprimem em cores, outros fazem boletins fotocopiados. Quem não tem veículo próprio, põe no mural o jornal de uma federativa ou de outro centro espírita. Programas de rádio, revistas, páginas na internet e alguns poucos – e honrosos – esforços para fazer programas de televisão mostram o quanto as instituições espíritas vivem enamoradas da comunicação social. Mas há conflitos sérios nesse relacionamento.

"O Misterioso Caso de Styles" (The Mysterious Affair at Styles), lançado há exatamente cem anos, é o primeiro livro de Agatha Ch...

ambiente de leitura carlos romero cronica zonia zaghetto agatha christie hercule poirot miss marple misterioso caso styles cai pano morte nilo filme gal gadot
"O Misterioso Caso de Styles" (The Mysterious Affair at Styles), lançado há exatamente cem anos, é o primeiro livro de Agatha Christie. Assinala a criação de um dos mais deliciosos personagens da literatura policial: Hercule Poirot, um extravagante belga, de enormes bigodes, chapéu coco, cabeça de ovo, olhos verdes, grande inteligência e uma coleção de frases de efeito, tudo embalado em 1,62m de pura ausência de modéstia. É o protagonista dos melhores livros de Agatha.

Os pés pisavam descalços a terra dos homens, das mãos caíam sementes que engravidavam o solo. A cada passo os campos se cobriam de brotos ...

ambiente de leitura carlos romero cronica conto poesia narrativa pauta cultural literatura paraibana sonia zaghetto mitologia rapto persefone hades demeter deuses olimpo zeus romance paixao

Os pés pisavam descalços a terra dos homens, das mãos caíam sementes que engravidavam o solo. A cada passo os campos se cobriam de brotos verdes e tenros. Logo o trigo estaria maduro e as ervas aromáticas tomariam o chão. Ao toque dos dedos de Deméter, os frutos amadureciam, enchiam-se de sumos. Ela sorria e os pêssegos instantaneamente se tingiam de rosa, as uvas escureciam, as maçãs avermelhavam.

Uma lenda é sussurrada há quase um século pelas ruas e casas de Paris. Até agora, só as mulheres a conheciam. Contavam para as filhas e net...

ambiente de leitura carlos romero literatura brasileira jornalista sonia zagheto clube do livro lenda sparis  clube de leitura e escrita amor prazer ler recitar escrever sophia verlaine

Uma lenda é sussurrada há quase um século pelas ruas e casas de Paris. Até agora, só as mulheres a conheciam. Contavam para as filhas e netas, fazendo-as jurar segredo. Conto-lhe agora, mas não a repasse para os descrentes ou os que duvidam das coisas puras que ainda existem no mundo. A dúvida quebra o encanto e a história se perde. Pois bem, agora que está avisado, sente-se aqui ao meu lado e ouça.

"O demônio pode citar as Escrituras para justificar seus fins". A frase de William Shakespeare no "Mercador de Veneza"...

ambiente de leitura carlos romero sonia zaghetto fanatismo extremismo intolerancia radicalismo

"O demônio pode citar as Escrituras para justificar seus fins".
A frase de William Shakespeare no "Mercador de Veneza" é perfeita para definir o atual momento da vida planetária.

Às cinco da manhã, ligo o computador para ler as notícias do Brasil. Elas me afrontam ao proclamar a extensão de nossa miséria. A monstruosa teia de extremismo enreda o país. Não respeita a dor alheia — mesmo que esta seja inenarrável — e não se acanha de usar a infância violada como bandeira política.