Há um ditado segundo o qual cada um morre do que vive. Quem é destemido e aventureiro corre o risco de morrer em uma de suas aventuras. Os que vivem no limite (físico, emocional ou intelectual) consomem a “reserva de vida” em nome da intensidade. Têm a morte como um risco calculado ou um subproduto da paixão. Ernest Hemingway, por exemplo, viveu de forma viril e perigosa. Sua morte por suicídio, após o declínio da saúde, foi o desfecho escolhido por um homem que não suportava a ideia de uma vida cotidiana e banal. A ausência de aventuras o tornou desventurado.
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Não há escapatória, por isso o ideal é procurar o equilíbrio: nem os excessos, que precipitam o fim; nem as omissões, que tendem a retardá-lo mas da mesma forma levam a ele. Com a desvantagem de tornar meio insossa a vida. Não existe, contudo, uma lógica que determine o efeito de uma ou outra escolha. O Universo é indiferente à nossa orientação existencial. O aventureiro pode morrer de um engasgo doméstico ou de um tropeço no meio-fio (a chamada “morte boba”), e o homem prudente pode ser vítima de um desastre natural ou de uma bala perdida. A morte nem sempre faz jus ao estilo de vida.
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O fato é que todos passam pelo dilema sobre a escolha do modo como querem, ou devem, viver. Mesmo os que trabalham em casa (teoricamente, o lugar mais seguro) têm que decidir entre excesso e prudência. É claro que os excessos no contexto doméstico são diferentes dos que ocorrem fora de casa (se bem que certas brigas de casal não estão longe das escaramuças urbanas).
Mas dormir tarde, estender-se mais tempo do que o devido diante do computador, esquecer-se de tomar água ou estirar o corpo para reativar a circulação – tudo isso atenta contra as prescrições contidas nos manuais de bem viver. Eles mandam não apenas selecionar a comida, abolindo gorduras e açúcares, como também cultivar hábitos saudáveis. Enfim, mandam viver com a consciência de que se vive.
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O verdadeiro dilema é: viver espontaneamente, despreocupados do que a cada dia vai nos matando? Ou ficar atentos aos hábitos ruinosos na busca de assegurar uma vida longa? Para a segunda alternativa é preciso desprendimento e sobretudo tempo. Ninguém vive se cuidando quando tem objetivos a conquistar. E talvez a pior morte seja a que se insinua na vida sob a forma de limites e prescrições. A pessoa pode vir a descobrir, já tarde, que o que mais lhe fez mal foi a falta de alguns excessos.









