Postagens sucessivas nas redes sociais feitas por amigos fazem-me crer em que o Paraíba, de canto a canto, como esteve há poucos dias, foi espetáculo nunca antes visto por duas gerações de paraibanos. “Este rio não enchia assim há muito tempo. Vi adolescentes assustados com o volume d’água e a força da correnteza”, contou-me o primo para quem liguei em busca de novidades.
Pelo mesmo informante, eu soube do estouro do balde do Açude do Ronca, na cidade onde quase nasci, e de ameaças sérias ao da represa ali construída em fins de 1960, pelo Governo do Estado, para o abastecimento de uma população que agora se estica e sobe a colina em fluxo bem acentuado. A “Nova Pilar”, nome que deram a esse bairro, já se faz três ou quatro vezes maior do que o núcleo dos residentes no fundo do Vale do Baixo Paraíba, assim referido pelos organismos que estudam e definem nossas zonas geográficas.
Por outros meios – as postagens no Facebook e Instagram, o noticiário do rádio e da tevê, blogs e jornais eletrônicos – sou informado de que o Paraíba e seus afluentes têm causado estragos sérios em Mogeiro, Ingá, Salgado de São Félix, Itabaiana, Cruz do Espírito Santo e Santa Rita, nestas duas últimas, sobretudo, pois situam-se quase ao nível do mar e em pontos já próximos daquele em que o rio de tantas histórias se entrega ao Atlântico.
02.05.2026: cheia do Rio Paraíba na cidade de Cruz do Espíto Santo. ▪ YT: Leon Drones
Monumento a Nossa Senhora da Conceição, Pilar, Paraíba. ▪ YT: Gilberto Drone
Os ficus alinhados caracterizam a avenida principal de Pilar, Paraíba ▪ Imagem: GMaps
Estar ali é tornar a ouvir o ronco do búzio, aquela enorme concha marinha utilizada para os avisos de enchente por quem tivesse pulmões suficientes para sopros fortes e tristes como
O menino que fui corria daquele rio, quando cheio, como o diabo foge da cruz. Eu ia dormir agoniado sempre que a conversa dos mais velhos traduzisse os temores com a barragem de Boqueirão.o apito de navios em suas despedidas do porto. Soassem os búzios e uma população inteira corria à beira do rio, fosse dia ou noite, para ver a cabeça da cheia. A bicha vinha se arrastando como cobra para, em pouco tempo, engrossar e cobrir todo o leito arenoso e antes seco.
Os da geração do meu pai não se entendiam quanto à maior enchente do Rio Paraíba. Se a de 1924, que arrancou ossos do cemitério, ou a de 1947, que botou água na rua principal em razão do transbordamento do leito que se fizera mais largo, 23 anos antes. Menino com insuficiências de idade para palpites na conversa dos adultos eu tinha, para mim, que a de 47 foi cheia de muito maior volume. Tanto que fugiu de um canal mais alargado.
O Rio Paraíba, em sua passagem pela cidade de Pilar, Paraíba. ▪ Imagem: GovBR
A distância de 130 quilômetros não impediria a destruição da pequenina Pilar, caso aquele paredão estourasse para lançar no Paraíba, de uma só vez, 412 milhões de metros cúbicos d’água. Eu não tinha a dimensão dessa cifra nem fazia ideia do que fosse metro cúbico. Mas meu coração de criança me avisava que seria água pra dedéu.
Com a corrente em leito seguro, a história era outra. Os semblantes se iluminavam, pois o inverno engordaria o gado e favoreceria a lavoura. Mesmo os que não dependiam, diretamente, da criação e da produção agrícola se animavam com as promessas de lucro e fartura. O comércio venderia mais, a circulação de mercadorias e produtos propiciava a arrecadação de tributos e, por consequência, o aumento salarial do funcionalismo público. Era, também, quando o balcão do meu pai ficava mais cheio. É disso que me lembro, com a alma em festa, quando sei de cheias no Paraíba. Das moderadas, das que nada matam nem estragam, evidentemente.









