Niccolò di Bernardo dei Machiavelli (1469–1527) foi filósofo, historiador, poeta, diplomata e pensador político italiano. Em sua obra O Príncipe, publicada em 1532, Maquiavel apresenta os conceitos de virtù e fortuna, fundamentais para a compreensão de sua teoria política. O autor também desenvolve essas noções em Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, publicado em 1531. Ambos os conceitos estruturam sua reflexão acerca da conquista, manutenção e estabilidade do poder político.
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A virtù representa a capacidade humana de ação, inteligência, coragem, prudência e flexibilidade que o governante — o príncipe, no contexto histórico de Maquiavel — deve possuir para agir de maneira eficaz diante dos acontecimentos. Trata-se de uma habilidade estratégica que permite enfrentar e superar as dificuldades impostas pela imprevisibilidade da história. Esse conceito não se relaciona à bondade moral nem aos princípios cristãos, como compaixão, solidariedade ou humildade, mas à astúcia política, à capacidade de compreender a realidade concreta e de tomar decisões rápidas e eficazes. Nesse sentido, a virtù constitui a força necessária para garantir a estabilidade do governo e a preservação do Estado. Assim, o governante dotado dessa capacidade deve saber controlá-la e direcioná-la para alcançar determinados fins políticos.
A fortuna representa o acaso, a sorte, as circunstâncias imprevisíveis e os fatores externos que escapam ao controle humano. Para Maquiavel, ela é inconstante e exerce forte influência sobre os acontecimentos da vida política. Contudo, apesar de a fortuna determinar parte significativa dos eventos históricos, a outra parte depende da virtù do indivíduo em enfrentá-la, administrá-la e, quando possível, dominá-la. Segundo
Maquiavel, o príncipe — ou, em termos contemporâneos, o governante — que se deixa conduzir passivamente pela fortuna tende à desonra e ao fracasso. Em contrapartida, aquele que possui virtù busca compreender as circunstâncias, adaptar-se a elas e utilizá-las
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estrategicamente a seu favor. Dessa forma, a relação entre virtù e fortuna revela a tensão entre ação humana e contingência histórica, núcleo gravitacional da filosofia política maquiaveliana.
Segundo Maquiavel, a obtenção e a manutenção do poder tornam-se variáveis conforme seja maior ou menor a virtù daquele que o conquistou. Os homens dotados de virtù recebem da fortuna não mais do que a ocasião, isto é, a oportunidade necessária para moldar a realidade de acordo com sua capacidade de ação. Assim, aqueles que conquistam o poder por meio da virtù tendem a conservá-lo com maior facilidade. Nesse processo, os governantes mais organizados e prudentes conseguem tornar suas instituições mais seguras, sobretudo quando reconhecem a importância dos meios necessários — inclusive a força e os instrumentos de defesa (armas) — para sustentar e preservar o poder. Dessa forma, há homens que enfrentam grandes dificuldades e se deparam, ao longo de sua trajetória, com perigos que precisam ser superados. Após vencerem tais obstáculos e neutralizarem aqueles que se opõem às suas qualidades e conquistas, tornam-se poderosos, respeitados, honrados e seguros em sua posição. Apesar disso, aqueles que não possuem virtù no processo de aquisição da governabilidade podem até empregar pouco esforço para conquistar o poder, especialmente quando favorecidos pela fortuna; contudo, enfrentam grandes dificuldades para mantê-lo. Assim, para Maquiavel, não basta conquistar o poder: é a virtù que garante sua estabilidade, permanência e eficácia política.
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Além disso, a virtù representa a capacidade do governante de adaptar-se às circunstâncias, modificando sua conduta conforme as exigências da realidade para dominar a fortuna. De outro modo, um governante que age sempre da mesma maneira e se orienta pelos mesmos princípios em todas as situações tende ao fracasso, pois demonstra ausência de virtù. Para tornar-se senhor da sorte e das circunstâncias, ele deve saber ajustar-se às mudanças e agir com flexibilidade, pois somente assim será capaz de enfrentá-las e superá-las. No contexto histórico de Maquiavel, isso significava que, em determinadas circunstâncias, o príncipe deveria ser severo; em outras, generoso; em certos momentos, poderia recorrer ao engano; em outros, agir com honra e prudência. Da mesma forma, em algumas situações deveria ceder à vontade de outros; em outras, manter-se firme e inflexível. Assim, seu caráter político não deveria ser rígido, mas adaptável às exigências de cada tensão, de modo que pudesse conservar o domínio sobre os acontecimentos.
Consequentemente, embora a força continue sendo um dos fundamentos do poder, é a virtù que define a excelência e o êxito do príncipe. Nos dias atuais, o governante deve ser capaz de resistir aos
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inimigos e aos infortúnios da sorte para alcançar honra e glória, bem como garantir segurança aos seus governados. Nesse sentido, destaca-se a flexibilidade como uma qualidade essencial: exige-se do governante a sabedoria de agir conforme as circunstâncias e de reconhecer o momento adequado para cada decisão política. Desse modo, a virtù resulta de uma combinação entre coragem, astúcia e capacidade estratégica. Maquiavel recorre à imagem do leão e da raposa para representar essa dualidade: o leão simboliza a força, enquanto a raposa representa a astúcia. O mais importante, contudo, é a habilidade de superar dificuldades e preservar o Estado.
Nessa perspectiva, não se trata da virtude cristã, associada à bondade moral e à renúncia às tentações terrenas em busca de recompensa espiritual. Ao contrário, o poder, a honra e a glória — princípios da vida política e das ambições humanas — são bens valorizados e perseguidos. Assim, o homem dotado de virtù pode alcançá-los e lutar por sua conservação. Por conseguinte, inclusive na política contemporânea, o poder que nasce da própria natureza humana e encontra fundamento na força é redefinido pela sabedoria no uso estratégico desse vigor. Portanto, o governante ideal não é simplesmente o mais forte — pois este pode até conquistar o poder, mas não necessariamente mantê-lo —, e sim aquele que demonstra possuir virtù, tornando-se capaz de conservar o domínio adquirido, conquistar o respeito dos governados e enfrentar, controlar e superar seus inimigos.
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A filosofia política de Maquiavel foi, ao longo do tempo, convencionalmente resumida pela ideia de que “os fins justificam os meios”. Contudo, essa frase não foi formulada pelo autor e, em muitos aspectos, simplifica excessivamente sua reflexão política. Maquiavel não concebia o Estado como um fim absoluto, nem o considerava dotado de uma existência superior à do indivíduo. Além disso, ele valorizava a honestidade e a lealdade na vida civil e na política, admirando, portanto, os Estados regidos por tais princípios. Seu objetivo era formular regras eficazes de governo com fundamento na experiência política da Grécia antiga, do período medieval e do período moderno, partindo da compreensão de que a eficácia da ação política nem sempre dependia do julgamento moral tradicional. Nesse sentido, Maquiavel percebeu que a moral e a religião podiam, em determinadas circunstâncias, atuar como forças políticas relevantes que influenciavam a atividade governamental e seu êxito.
Entretanto, também reconheceu que, em outras situações, a ação política podia demonstrar eficácia mesmo quando exercida em desacordo com os princípios morais vigentes. Essa constatação decorre, em parte, da realidade observada por Maquiavel nas sociedades de seu tempo, especialmente na Itália e na França, que ele frequentemente descrevia como politicamente corrompidas e instáveis. Seu pensamento estava voltado
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para a aplicação prática de princípios políticos capazes de contribuir para a organização e unificação do Estado italiano. Nesse processo, explica-se sua ênfase na virtù como elemento central da governabilidade, entendida como a capacidade estratégica, prudente e flexível do governante diante das circunstâncias históricas e políticas. Desse modo, a interpretação de que Maquiavel defenderia que “os fins justificam os meios” constitui uma generalização reducionista e equivocada de seu pensamento. Sua filosofia política não propõe a defesa irrestrita da imoralidade ou da manipulação, mas uma análise realista da política, na qual a eficácia do governo, a preservação do Estado e a capacidade de ação diante das contingências históricas assumem função central. Assim, a virtù torna-se um princípio essencial para compreender a relação entre poder, prudência e governabilidade em sua obra.
Observa-se, no pensamento político de Maquiavel, que não se deve considerá-lo amoral ou imoral, como se possuísse uma filosofia destituída de valores. O que se encontra nos escritos do filósofo italiano é um pensamento valorativo distinto daquele tradicionalmente predominante nos períodos medieval e antigo da filosofia política. Durante muito tempo, por interpretações mentirosas ou mesmo por má-fé, sua obra recebeu a denominação de negar a existência de um propósito ou
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sentido para a vida política e social. No entanto, o que se percebe em seus textos é a formulação de novos valores e perspectivas transformadoras acerca da política e da governabilidade. Por exemplo, a fortuna representa, assim como a virtù, uma das formas de aquisição do poder. Contudo, diferentemente da virtù, ela não assegura estabilidade nem permanência no governo. À época de Maquiavel, aqueles que se tornavam príncipes exclusivamente pela fortuna alheia, sem grandes esforços próprios, encontravam dificuldades para conservar o principado. Isso ocorria porque tais governantes dependiam inteiramente da vontade e da fortuna daqueles que lhes haviam concedido o poder, tornando sua posição política instável e vulnerável.
Em O Príncipe, Maquiavel afirma que esses governantes frequentemente não sabem comandar, pois, tendo vivido sempre como particulares, não adquiriram experiência prática no exercício do poder. Além disso, eles não possuem forças próprias que lhes sejam fiéis e confiáveis para sustentar sua autoridade. O autor compara esses Estados àquilo que nasce e cresce rapidamente na natureza: por não
desenvolverem raízes sólidas e ramificações consistentes, tornam-se frágeis e sucumbem diante das primeiras adversidades. Apenas aqueles que, mesmo ascendendo repentinamente ao poder, possuem grande virtù são capazes de preparar-se rapidamente para conservar aquilo que a fortuna lhes colocou nas mãos e estabelecer os fundamentos necessários para a manutenção do principado. Dessa forma, Maquiavel demonstra que a estabilidade política não depende exclusivamente das circunstâncias favoráveis da fortuna, mas, sobretudo, da capacidade, prudência e habilidade do governante em consolidar o poder conquistado. Assim, a virtù surge como elemento vital para a preservação da governabilidade e para a construção de um Estado politicamente sólido e duradouro.
A fortuna é tratada no vigésimo quinto capítulo — “De quanto pode a Fortuna nas coisas humanas e de que modo se pode resistir-lhe” — da obra O Príncipe. Para Maquiavel, muitos acreditavam que os acontecimentos do mundo eram governados inteiramente por Deus ou pela fortuna. No entanto, o autor apresenta uma concepção mais equilibrada entre necessidade e ação humana. Nesse sentido, afirma: “Há o livre-arbítrio, considerado responsável por metade de nossas ações. A Fortuna, por sua vez, detém a outra metade, não
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sendo, contudo, exclusiva nem determinante sobre elas. Assim, um príncipe que se apoia exclusivamente na Fortuna tende ao fracasso” (2008, p. 119). Dessa forma, conclui-se que a sorte exerce influência sobre parte das ações humanas, mas a outra parte permanece sob a capacidade de intervenção do próprio homem.
Assim, a fortuna apresenta-se como uma força instável e imprevisível, capaz de influenciar os acontecimentos históricos, mas que pode ser enfrentada e, em certa medida, controlada por meio do planejamento, da audácia, da prudência e da flexibilidade. Ela manifesta sua força quando não encontra uma virtù ordenada para resistir às adversidades impostas pelas circunstâncias. Nesse processo, o curso dos acontecimentos nem sempre depende exclusivamente da vontade humana, pois fatores externos e imprevisíveis também interferem na dinâmica histórica. Em uma interpretação contemporânea, essa relação pode ser compreendida como a articulação entre “condições objetivas” e a “ação subjetiva” no movimento histórico. Contudo, ainda que a fortuna atue de forma decisiva em determinadas situações, ela pode ser moderada pelo príncipe dotado de virtù, isto é, pelo governante capaz de agir com prudência, coragem e inteligência estratégica diante das contingências.
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Pode-se concluir que o caráter instável da fortuna torna insensato confiar duradouramente em seus favores. Maquiavel defende que o homem possui liberdade e capacidade prática para amortecer o poder incontrastável da fortuna. Por isso, ela não deve ser ignorada nem desprezada pelo governante, mas compreendida, administrada e enfrentada por meio da virtù. Nesse sentido, o príncipe ou governante dotado de virtù pode preservar sua autonomia diante das imposições da fortuna, consolidar sua autoridade e estabelecer uma forma de poder mais estável e duradoura, reduzindo a dependência das circunstâncias externas.
Em Maquiavel, a relação entre virtù e fortuna expressa o equilíbrio entre ação humana e contingência histórica. Enquanto a virtù representa a capacidade do governante de agir e transformar a realidade política, a fortuna simboliza os limites e as imprevisibilidades que cercam essa ação. O êxito político, portanto, depende da habilidade do príncipe em reconhecer esse equilíbrio e atuar estrategicamente diante das circunstâncias.