Você não consegue dormir nem viver sem os remédios prescritos pelos médicos do sono? Dizem que estes dependuram em seus consultórios os diplomas da Neurologia, da Psiquiatria, da Otorrinolaringologia, ou da Pneumologia. O propósito é não deixar sem combate todos os males conhecidos da insônia. Se neurologistas, eles focarão na investigação da atividade cerebral, nos neurotransmissores e no relógio biológico da distinta clientela.
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Você estará nessa fila se a sua insônia vier acompanhada de pernas inquietas e sonambulismo.
O psiquiatra há de vincular sua falta de sono à sua saúde mental. Prepare-se para o sofá. O otorrinolaringologista focará, enquanto isso, na anatomia das suas vias aéreas superiores e o pneumologista, por fim, na sua mecânica respiratória. É o que me foi dito.
Falam maravilhas dos soníferos modernos. Contam que em suas evoluções deixaram de ser apenas “apagadores de cérebros”. E que, em vez da sedação, bloqueiam os sinais químicos da vigília, seja lá o que isso signifique. Também, que preservam a arquitetura natural do sono sem alterar as fases profundas. Uma beleza, não é?
É não, posto que apresentam taxa drasticamente menor de sonolência no dia seguinte, em comparação aos remédios antigos. Embora mínimos, os riscos de dependência não são todos nulos. Além disso, podem acarretar dores de cabeça transitórias e sonhos anormais. São os chamados efeitos colaterais, ao que leio.
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Um otorrinolaringologista tratará das suas insônias, meus caros, buscando causas anatômicas e respiratórias. Ele, então, lhes orientará a hábitos saudáveis e prescreverá, se for o caso, terapias com CPAP (sigla em inglês para Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas), e intervenções cirúrgicas, aí cabendo as do septo nasal e as remoções das amígdalas. É claro que estou a tratar disso de modo curto e grosso, pois não sou do ramo.
O que sei na plenitude das minhas faculdades é que insônia é uma desgraça e só traz pensamentos ruins. Estou ciente de que as boas lembranças nunca se deitam na cama dos insones.
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Dr. Google tem suas explicações para isso: “A resposta está na neurobiologia do cérebro privado de sono e em mecanismos evolutivos de sobrevivência”. Entendi que, se alguém não dorme, seu cérebro entra em estado de vulnerabilidade química e emocional, ativando circuitos específicos que priorizam ameaças e problemas. A coisa é pior do que eu pensei.
Eu, em meus 80 anos, perco a vergonha e confesso: De vez em quando, desejo minha mãe por perto com cantigas de ninar. Mas, as estrangeiras, porque as nacionais são de matar. Ainda hoje, eu sinto medo do boi da cara preta. Também, ainda fujo da Cuca, com papai na roça e mamãe a trabalhar. E o que dizer do bicho-papão no telhado? “Deixa esse menino dormir seu sono sossegado”, cantava para mim Vó Amélia. Nos meus primeiros colchões eu dormia, então, de medo.
Dormiria de bom grado com a melodia e os versos franceses de “Frère Jacques”, referência ao frade que precisava acordar às primeiras horas da manhã, a fim de tocar o sino da igrejinha. Ou com o acalanto de Brahms, em seus anseios de boa-noite e de sonhos tranquilos feitos de anjos e flores. Será que essa bela e terna peça ainda está à beira dos berços deste Terceiro Milênio?
Kathryn Stott (piano) e Yo-Yo Ma (violoncelo) - Lullaby (Brahms)
Meus filhos pequenos ouviram de mim “Mamãe, eu quero mamar”, marchinha aprendida com Carmem Miranda por meu pai. “Dá a chupeta pro bebê não chorar”, diz um dos versos. Melhor do que bois brabos e bichos ruins o suficiente para papar menino sem sono, não é não?
Ponho-me entre as multidões que padecem de insônia, aqui e alhures. Mas, de moto próprio, tenho fugido dos soníferos. Em vez deles, tomo providências como ler e compor nas madrugadas. O que agora escrevo decorre disso.
Tempo atrás, pensei em recorrer a velhas simpatias para conciliar a paz e o sono. Elas advêm de tempos imemoriais. Pretendo, agora, se a preguiça deixar, tomar banhos de ervas relaxantes.
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Dormirei, assim, com cheiro de camomila e erva-doce. Amanhã, quando eu me deitar, porei as chinelas ao pé da cama formando uma cruz, na esperança de deixar para trás os caminhos e o cansaço diários. Já desisti de contar carneiros. Isso não me serve e não acho que sirva a alguém mais. Talvez me atendam de melhor modo um copo com água filtrada no criado-mudo para absorção das preocupações e da energia pesada, folhas de louro, ou ramos de alecrim e manjericão debaixo do travesseiro. Vá ver, isso funcionará.
Ultimamente, me têm ocorrido a melodia e os versos de “Mr. Sandman”. Refiro-me à canção que fala do “Homem de Areia”, a figura do folclore europeu e americano que jogava terra mágica nos olhos das pessoas para ajudá-las a dormir e sonhar. Em 1954, o sonho pedido pelo compositor Pat Ballard deveria trazer ao suplicante o ente amado e a quebra da solidão. Eis seus primeiros versos:
Mister Sandman, traga-me um sonho.
Faça dele o mais fofo que eu já vi.
Dê a ele dois lábios de trevo e orvalho,
E diga a ele que suas noites solitárias acabaram.
Sandman, estou tão só.
Não tenho ninguém para chamar de meu.
Por favor, ligue seu feixe mágico.
Mister Sandman, traga-me um sonho.