Incapaz de tomar o leme de sua existência, aquele menino andava e andava pela larga avenida da grande cidade. O movimento de seus pés, descalços, parecia o ruir silencioso da estrutura social. O seu rosto, sem sonhos, sem descendências, acentuava o fio tênue que o prendia à vida.
Cumpria a sina de viver.
GD'Art
Ele nada pedia. Apesar de minha pouquíssima visão, enxerguei tantas nuvens de lágrimas naqueles olhos que teimavam em não cair. Era a enormidade de receios. O futuro frio, sem proteção, sem significados. Sua figura desarmonizava o ambiente. “Era preciso que se fosse”, assim disse um segurança.
O pequeno foi, sobre a lâmina da vida, tendo por algoz a indigência. A ausência de valores, o desconforto que causam essas crianças, o desaprender de quem somos e do que somos.
Atravessou a rua. Abraçado ao peito, tinha algo que parecia um casaco verde e surrado, mas carregado como traje de gala em noites de frio, como seria aquela, no inverno tardio do nosso Rio. Será que ele abraçava o casaco ou a mãe, naquele ermo repleto
GD'Art
Num rasgo de coragem, já mergulhado na porta entreaberta da noite, arrastou seus pés, novamente, para a calçada onde, antes, estava. Novamente iria atravessar a rua. Parecia que era possível sentir a dor de ter nascido naquele menino. Pés sujos, pernas finas. Procurava um retalho do mundo, talvez — repito — outro ventre frágil, mas que o acolhesse. Varou a porta de um novo estabelecimento comercial. Mais uma vez:
— Vá embora.
Afinal, a violência campeia. Uma brisa fina passou pelos detalhes de seu pequeno corpo. Novamente, um choro breve, quase um riso, o tornou audível para o mundo.
Naquele instante, o tempo voou na velocidade das andanças daquela criança. Não pensou muito. Seus pés quiseram novamente o outro lado. Não sua mente, que, sem ver, devia estar sonhando.
GD'Art
Porém, o sinal estava aberto. Há tanto a dizer, e não comigo. O corpo estendido. O casaco verde, ainda preso à sua pequena mão. Vozerio. Fuga do atropelador. Nenhuma notícia. Para quê? Não era de ninguém e era de todos.
Queria ser poeta para dizer o que senti, como participante desta etapa "social". No rosto daquela criança — que não deveria ter mais do que sete anos — pareciam estar marcadas todas as estradas do destino já findadas. Tudo. O todo já por ele vivido não se acomodava na estrutura daquele pequeno corpo.
Ao atravessar a rua, com seus passos curtos e pés descalços, conseguiu um passaporte de retorno ao que tanto esperava. À semelhança de certo filme e livro homônimos, Jesus já o esperava de braços abertos, em um local tão belo quanto etéreo. Retornou ao ventre materno.
Na grande avenida ficaram rostos aprisionados em preto e branco com o acontecimento.
O menino — agora — estava no lugar certo. Nunca soube por quem foi gerado e por quê.








