A leitura do livro O dilema do porco espinho - como encarar a solidão , de Leandro Karnal , me fez refletir e começar escrever esse ...

Solidão a dois

casal solidao casamento
A leitura do livro O dilema do porco espinho - como encarar a solidão, de Leandro Karnal, me fez refletir e começar escrever esse texto com o pensamento nos casais que com o tempo começam a sentir a solidão a dois. O "poetinha" Vinícius de Moraes cantava "que é melhor se sofrer junto, que viver feliz sozinho”. Eu me pergunto e também à leitora ou ao leitor, será?

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Foto: LM Crew
A verdade é que existem vários tipos de solidão. É algo que pode ser benéfico, criativo e necessário, mas muitas vezes ela pode ser também maléfica e cruel. Vejamos: Há a solidão do escritor e a solidão do leitor. Uma solidão benéfica uma vez que ninguém pode escrever rodeado de interferências, assim como é quase impossível você focar na leitura em meio a balbúrdia. Para que a leitura seja prazerosa e produtiva faz-se necessário o mínimo de silêncio possível. Nada como estar sozinho para se deleitar ouvindo uma boa música, meditar, recolher-se dentro de si mesmo. A solidão não envolve apenas a companhia ou a falta dela.

Certo dia, conversando com uma amiga que teria se mudado para um condomínio fechado, fiz-lhe uma observação: que bom pra vocês que estarão convivendo com mais pessoas; o que ela respondeu me deixou um pouco frustrada: Você que pensa; nunca vi pessoas tão fechadas. Ninguém se conhece e nem se dá um bom dia. Aquilo me fez refletir um pouco sobre a solidão acompanhada. O que não é bom pra ninguém.

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Foto: B. Aydın
A pessoa muito solitária pode chegar a insanidade. O cinema e a literatura retratam muito bem personagens isolados que chegam à loucura ou ao assassinato. Você aí que me acompanha, se já leu até aqui esse texto, deve ter lembranças de algum filme que mostra essa afirmação. A solidão é o vestíbulo para a perda da razão ou ao pior de cada um. O pior castigo para um prisioneiro é a solitária.

Ainda pergunto a você leitor ou leitora que leu esse texto até aqui. Será melhor se viver só, do que mal acompanhado? O que você me responderia? Nossas celas solitárias são tão inventivas que somos capazes de estar profundamente sós ainda que ao lado de um cônjuge. Hoje, infelizmente, assistimos cerimônias em que os sacerdotes
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A. Cristine
alertam os novos casais sobre as dificuldades da vida a dois. Para que uma união dê certo é necessário que o casal, mesmo sendo um casal, tenha a sua própria individualidade. Todos nós precisamos de nossa solidão, de nossa solitude. Existe uma distinção entre essas duas palavras: solidão/solitude. A solidão expressa a dor de se estar sozinho ou por uma ausência de contato com os outros em nossas relações, no confronto de nossas ideias enquanto solitude expressa exatamente o oposto; que é a glória de se estar sozinho. O pleno contato consigo mesmo; estar e sentir-se bem sem precisar de companhia. Na solitude há um equilíbrio em estar com os outros ou consigo mesmo.

Vamos pensar no caso da solidão feminina. Por que algumas mulheres são incrivelmente felizes no casamento e outras não? Até pouco tempo, a separação não era possível nem mesmo “aceita” pela sociedade. Muitas mulheres se mantinham e ainda se mantêm em relacionamentos tóxicos, ruins e sem mais amor. Se estar sozinho pode ser bom, a solidão a dois pode ser terrível; o casal passa a viver uma eterna “solidão a dois”. E um casal que vive dessa maneira vive situações de solidão acompanhada em qualquer lugar, mesmo que esteja acompanhado de amigos.

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Imagem: Kampus Prod
A solidão a dois é terrível, uma prisão muitas vezes autoimposta por muitas mulheres ainda nos dias atuais. Com o tempo, as palavras não ditas viram silêncios entre os amantes, como disse Lya Luft em seu livro O silêncio dos amantes. A monotonia e a previsibilidade na relação são sintomas que levarão o casal à solidão a dois. Citando Karnal: “paradoxos da vida conjugal, vivemos numa solitária em companhia indesejável. Estamos ao lado de, mas não, com alguém”. Hoje, ninguém mais conversa. Os casais já mão se olham nos olhos, se olham por baixo, de olho no celular. Cada um no seu canto, no seu quarto, nos seus tablets, nos seus iphones. A solidão a dois viralizou, para usar uma gíria moderna. O que acontecerá com os relacionamentos daqui pra frente, só Deus há de saber.

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Imagem: Wolf Art
Uma coisa é certa: estar sozinho e bem, requer maturidade e equilíbrio.

Vivemos um momento único na história da humanidade, em que a mulher pode escolher se casar ou não. A pressão social da separação está cada vez menos intensa, pois muitas já alcançaram sua independência e podem se manter sozinhas. Hoje, elas conquistam o que querem usando apenas o cérebro. Estudando, trabalhando: sendo independentes.

Citando novamente Karnal: “A solidão deve ser uma vitória, uma conquista, um esforço Somos seres sociais e vivemos em grupo. É preciso que consigamos o exercício da solidão/solitude como um prêmio fruto de nosso esforço, um privilégio de busca, uma maturidade de vida. Vamos ter uma vida inteira de solidão no nosso túmulo, um dia". Então, precisamos exercitar o nosso lado alegre, criativo e libertador do isolamento e evitar que o túmulo nos surja, ainda em vida.

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