A Morte de Ivan Ilitch (1886) é uma das mais rigorosas e implacáveis investigações literárias sobre o sentido da vida, a falsidade das convenções sociais e o medo humano diante da morte. Em poucas páginas, Tolstói condensa uma crítica moral profunda à sociedade burguesa do século XIX, ao mesmo tempo em que realiza uma sondagem psicológica de extraordinária precisão, antecipando procedimentos que mais tarde seriam centrais na literatura moderna.
Léon Tolstói (1828–1910), célebre pelo realismo psicológico e reflexão moral profunda de sua obra ▪️
Ivan Ilitch, em vida, é o produto acabado desse universo. Sua existência foi correta, decente, como devia ser, isto é, moldada segundo as expectativas da classe média burocrática russa. Ele escolheu a profissão certa, casou-se adequadamente, frequentou os círculos apropriados e cultivou um gosto estético que não ultrapassa o decorativo. Nada em sua vida foi autenticamente vivido; tudo foi desempenhado. Tolstói constrói o personagem
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A doença surge como elemento de ruptura. Inicialmente banal, tratada com a mesma superficialidade com que Ivan tratou sua vida, ela se transforma em uma sentença inescapável. O corpo, até então ignorado como dimensão frágil da existência, impõe-se de modo tirânico. Tolstói descreve com precisão quase clínica o processo de deterioração física, mas é no plano interior que o drama se intensifica. A dor não é apenas corporal; é metafísica. Ivan Ilitch sofre porque percebe, ainda que confusamente, que viveu mal — não no sentido moral convencional, mas no sentido mais radical: viveu de forma inautêntica.
Um dos eixos centrais da obra é a mentira social diante da morte. Médicos, familiares e colegas conspiram, consciente ou inconscientemente, para negar a gravidade da situação. Todos fingem que Ivan não está morrendo, e essa farsa coletiva aprofunda sua angústia. A morte, para a sociedade retratada por Tolstói, é obscena, inconveniente, algo que deve ser escondido sob eufemismos e diagnósticos técnicos. O
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Nesse cenário, a figura de Guerássim, o criado, adquire dimensão simbólica decisiva. Simples, rude, mas profundamente humano, Guerássim é o único que não mente. Ele aceita a morte como parte natural da vida e, por isso mesmo, é capaz de oferecer compaixão autêntica. Tolstói estabelece aqui um contraste ético poderoso: a sabedoria moral não está nos círculos instruídos e civilizados, mas na simplicidade daqueles que não se afastaram da experiência concreta da vida e da morte. Guerássim encarna uma verdade pré-filosófica, quase evangélica, que ilumina o vazio espiritual da elite.
À medida que a morte se aproxima, Ivan Ilitch inicia um doloroso processo de autoconfrontação. Ele revisita sua vida e percebe que tudo o que considerava importante — carreira, status, conforto — dissolve-se diante do absoluto da morte. Essa tomada de consciência não é serena nem edificante; é violenta, marcada por revolta, desespero e pavor. Tolstói não romantiza a morte: o terror de Ivan é real,
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O momento final do conto é um dos mais complexos e discutidos da literatura de Tolstói. Ao perceber que sua angústia deriva do apego egoísta à própria dor e à própria vida, Ivan experimenta uma súbita inversão interior. Ao pensar no sofrimento dos outros — especialmente da família —, ele rompe o círculo do egocentrismo. A morte deixa de ser trevas e transforma-se em luz. Essa passagem não deve ser lida como simples consolo religioso, mas como afirmação ética: a vida só adquire sentido quando vivida em relação ao outro, na compaixão e na verdade.
Do ponto de vista formal, A Morte de Ivan Ilitch destaca-se pela economia narrativa e pela precisão psicológica. Tolstói utiliza um narrador que oscila entre a ironia distanciada e a imersão na consciência do personagem, antecipando técnicas do fluxo de consciência. A linguagem é clara, despojada, quase austera, em consonância com a gravidade do tema. Não há excessos retóricos: cada cena, cada diálogo, cada descrição serve ao desvelamento progressivo da falsidade da vida social e da autenticidade possível diante da morte.
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Ler A Morte de Ivan Ilitch é submeter-se a um julgamento silencioso e implacável, no qual não somos espectadores, mas réus. A morte de Ivan Ilitch, no fim, não é apenas a morte de um homem: é a exposição da morte de uma forma de viver.

























