“Escrevo para me percorrer”
Henri Michaux
Escrevo para refletir sobre minha iminente mudança de endereço. É um olhar sobre o espaço que nos cerca, os hábitos e as percepções.
Moro neste apartamento há 21 anos. Sempre me deslocando pelo mesmo bairro ou por suas vizinhanças, percorro ruas nas quais me reconheço e sou reconhecida, íntima das fachadas dos prédios. Por toda parte,
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De repente, sou instada a me mudar: a proprietária quer vender o apartamento. Sou sacudida por um tipo de abalo e de apreensão. Antigamente, as mudanças me traziam renovação; eu agia repleta de energia positiva. Mas, hoje, o espaço que se tornou "meu" resvala, falha, malogra
O tempo passa sem nos darmos conta. É preciso um acontecimento fatal para nos depararmos com a finitude do tempo. Vivemos o presente em sua intensidade, olhamos para o passado quando se faz necessário compreender o agora e, quanto ao futuro, vêm-me imagens de receio e inquietação.
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“O espaço da nossa vida não é contínuo, nem infinito, nem homogêneo. Mas será que sabemos onde ele se rompe, onde ele se curva, e se desconecta e onde ele se junta? Sentimos as fissuras, os hiatos, os pontos de fricção...”, escreve Georges Perec.
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A luz filtrada entra pelas janelas e incide sobre objetos que me acompanham e que acabam por me conferir uma identidade.
Passo a olhar os recantos do apartamento como quem se despede. O espaço e as coisas que acumulei. Observo minha biblioteca e temo por ela. A porcelana e os cristais no grande armário embutido encontrarão acolhida em outro espaço? A pintura de Darel encontrará uma parede? A coleção da revista Magazine Littéraire, que passou a se chamar Lire e que leio como uma enciclopédia, terá chance de me acompanhar? As máscaras africanas, as esculturas em ferro fundido do Museu de Atenas, a boneca de porcelana de Praga, as bailarinas de Degas, a cerâmica do Museu Nacional de
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Mudar-se. Deixar o apartamento. Inventariar, organizar, triar, eliminar, abrir mão, jogar fora. Empacotar, embalar, desparafusar, desligar, desconectar, desmontar. Fechar. Partir.
Partir para outra paisagem, desvendar o novo. O desconhecido. Não sei para onde. Reaprender a linguagem dos novos espaços. Como me desfazer dos hábitos? Será como reaprender a olhar, a observar o novo, a me redescobrir no outro, no diverso, no diferente. Redefinir os contatos necessários do dia a dia.
Perec escreveu sobre o tema dos espaços; tento me orientar por ele.”
“O tempo que passa (minha história) deposita resíduos que se empilham: fotos, desenhos, cartas, cartões postais, cadernos, cadernetas, canetas que já não escrevem, caixas, livros, poeira, bibelôs, é isso que chamo de minha fortuna.”
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Michel Leiris vê a cama como uma ilha:
“Ela é lugar de repouso, do sono reparador, do prazer. É de alguma forma a nossa casa. Nascemos numa cama, dormimos todos os dias numa cama, e morremos numa cama”.
É verdade que Copacabana e Ipanema já não são hoje os bairros charmosos de antigamente, quando havia cinemas de rua, livrarias, jornaleiros, cafés, a venda do Sr. Domingos aberta aos domingos, um português que acabou voltando para Portugal. É como se os bairros tivessem envelhecido, perdido o vigor e a juventude. Hoje, são as farmácias que imperam. Foi no apartamento da Rua Canning, em Ipanema, que iniciei um processo criativo de desenhos, colagens, escrita e tradução. Reunia colegas do curso de especialização em tradução para compararmos as versões do mesmo texto e examinar
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O parágrafo acima eu o escrevi assim que me mudei para este apartamento. Vinte anos se passaram.
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Na sala, livros de arte sustentam um abajur art déco, como no filme Nunca te vi, sempre te amei. Na parede acima, uma fotografia de Robert Doisneau, de 1944: Simone de Beauvoir lendo
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Possuo muitos pesos de papel. Há um da Comédie Française, com os dizeres: ‘Être ensemble et être soi-même.’ Outro, em cristal, com figura feminina de Mucha, adquirido em Praga por minha irmã. Um disco dourado, com hieróglifos, do Museu de Atenas, de uma segunda vez que passei pela Grécia. E aquele com a figura de Fernando Pessoa sentado à mesa, de terno e gravata-borboleta, reprodução de um óleo de Almada Negreiros existente no Café ‘Irmãos Unidos’, de Lisboa, onde se reuniam os poetas de Orpheu.
Pesos de papel e marcadores de livros são objetos caídos em desuso. Talvez por isso possuam uma aura, uma beleza singular.
Uma pequena cômoda abriga Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Machado de Assis, da Nova Aguilar. Uma mesa-estante, em estilo inglês, adquirida no antiquário, abriga somente os poetas.
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As obras reunidas de Baudelaire, encadernadas pela Gallimard, trazem a linda dedicatória de Jean-Luc Marion: ‘Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir’ (Tua lembrança em mim reluz como um ostensório). Eu o conheci quando surgiu o movimento dos novos filósofos. Era rival de Bernard-Henri Lévy e ainda não pertencia à Academia Francesa de Letras.
Os poetas habitam essa pequena mesa giratória de dois andares. Suas vozes ressoam e instauram um diálogo comigo. Uma poltrona ampara as leituras. Na parede, uma tela de Darel e um desenho de Di Cavalcanti.
Mas o que povoa a sala são os livros. Romances do século XIX e lançamentos recentes, contos de autores brasileiros e estrangeiros se espraiam como um acervo de paixões. Eles são as vozes que me questionam e que me fazem ser quem eu sou.
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A imaginação viaja para espaços livres. A geometria dos espaços externos precisa se harmonizar com a geometria dos espaços interiores das pessoas.





























