“Escrevo para me percorrer” Henri Michaux Escrevo para refletir sobre minha iminente mudança de endereço. É um olhar sobre o espaço...

Espaços

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“Escrevo para me percorrer” Henri Michaux
Escrevo para refletir sobre minha iminente mudança de endereço. É um olhar sobre o espaço que nos cerca, os hábitos e as percepções.

Moro neste apartamento há 21 anos. Sempre me deslocando pelo mesmo bairro ou por suas vizinhanças, percorro ruas nas quais me reconheço e sou reconhecida, íntima das fachadas dos prédios. Por toda parte,
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rostos familiares. Vou a pé aos supermercados, empórios, livrarias, farmácias, consultórios médicos e à academia, próxima dos amigos, das esquinas e dos largos, das praças e das árvores, e das praias de Copacabana e de Ipanema.

De repente, sou instada a me mudar: a proprietária quer vender o apartamento. Sou sacudida por um tipo de abalo e de apreensão. Antigamente, as mudanças me traziam renovação; eu agia repleta de energia positiva. Mas, hoje, o espaço que se tornou "meu" resvala, falha, malogra

O tempo passa sem nos darmos conta. É preciso um acontecimento fatal para nos depararmos com a finitude do tempo. Vivemos o presente em sua intensidade, olhamos para o passado quando se faz necessário compreender o agora e, quanto ao futuro, vêm-me imagens de receio e inquietação.

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O mercado de aluguéis mudou radicalmente, principalmente em relação aos pequenos apartamentos. Os proprietários preferem alugar por temporada, pela maior rentabilidade.

“O espaço da nossa vida não é contínuo, nem infinito, nem homogêneo. Mas será que sabemos onde ele se rompe, onde ele se curva, e se desconecta e onde ele se junta? Sentimos as fissuras, os hiatos, os pontos de fricção...”, escreve Georges Perec.

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Penso, então, em futuros espaços: a página em branco, o quarto, a cama, a sala, o prédio, a rua, o bairro... Passar de um espaço a outro exige energia. As lembranças nos tornam melancólicas. As casas onde morei surgem na memória. São tantas: países diferentes, cidades diferentes, ruas, apartamentos vários. Uma sucessão do tempo se manifesta. Surge uma epifania da memória dos lugares.

A luz filtrada entra pelas janelas e incide sobre objetos que me acompanham e que acabam por me conferir uma identidade.

Passo a olhar os recantos do apartamento como quem se despede. O espaço e as coisas que acumulei. Observo minha biblioteca e temo por ela. A porcelana e os cristais no grande armário embutido encontrarão acolhida em outro espaço? A pintura de Darel encontrará uma parede? A coleção da revista Magazine Littéraire, que passou a se chamar Lire e que leio como uma enciclopédia, terá chance de me acompanhar? As máscaras africanas, as esculturas em ferro fundido do Museu de Atenas, a boneca de porcelana de Praga, as bailarinas de Degas, a cerâmica do Museu Nacional de
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Antropologia do México... O laptop, a mesa, a cama, as mesinhas de canto, a pequena cômoda, a cristaleira, os papéis, passaportes, documentos... Vinte anos é uma vida.

Mudar-se. Deixar o apartamento. Inventariar, organizar, triar, eliminar, abrir mão, jogar fora. Empacotar, embalar, desparafusar, desligar, desconectar, desmontar. Fechar. Partir.

Partir para outra paisagem, desvendar o novo. O desconhecido. Não sei para onde. Reaprender a linguagem dos novos espaços. Como me desfazer dos hábitos? Será como reaprender a olhar, a observar o novo, a me redescobrir no outro, no diverso, no diferente. Redefinir os contatos necessários do dia a dia.

Perec escreveu sobre o tema dos espaços; tento me orientar por ele.”

“O tempo que passa (minha história) deposita resíduos que se empilham: fotos, desenhos, cartas, cartões postais, cadernos, cadernetas, canetas que já não escrevem, caixas, livros, poeira, bibelôs, é isso que chamo de minha fortuna.”
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E comenta: “qualquer proprietário de gato dirá que os gatos habitam as casas muito melhor do que os homens. Eles sabem encontrar recantos propícios.”

Michel Leiris vê a cama como uma ilha:

“Ela é lugar de repouso, do sono reparador, do prazer. É de alguma forma a nossa casa. Nascemos numa cama, dormimos todos os dias numa cama, e morremos numa cama”.
É verdade que Copacabana e Ipanema já não são hoje os bairros charmosos de antigamente, quando havia cinemas de rua, livrarias, jornaleiros, cafés, a venda do Sr. Domingos aberta aos domingos, um português que acabou voltando para Portugal. É como se os bairros tivessem envelhecido, perdido o vigor e a juventude. Hoje, são as farmácias que imperam.

Foi no apartamento da Rua Canning, em Ipanema, que iniciei um processo criativo de desenhos, colagens, escrita e tradução. Reunia colegas do curso de especialização em tradução para compararmos as versões do mesmo texto e examinar
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as diferentes soluções encontradas por cada um. Lia muito e escrevia pequenos textos. Comecei a traduzir para revistas acadêmicas. Naqueles anos, vivi um amor intenso e louco. Morava em um apartamento grande, que dava para um jardim interno. Era vizinha de Fernando Sabino, com quem trocava leituras. Meus dias eram movimentados e cheios: trabalhava e estudava. Hoje, vejo aqueles anos de enlevo, repletos de brilho juvenil, vividos em instantes delirantes de paixão e arrebatamento pela vida, como se eu estivesse dentro de um filme da Nouvelle Vague. Mudei-me para o Posto Seis, em Copacabana, depois de sete anos em Ipanema. Quando me aposentei, perguntei a mim mesma como seria viver ali com todo o tempo livre para mim. Queria instaurar um estilo, um ateliê da tradução, do desenho, da criação. Logo comecei a traduzir para o Centro Celso Furtado. Alguma coisa da maturidade veio junto, sem que eu me desse conta. Neste espaço habita a verdadeira calma e a solidão, à qual me afeiçoei e que se afeiçoou a mim. Passei a ler compulsivamente. Aqui mergulhei na leitura de maneira intensa: era, afinal, o tempo da leitura.

O parágrafo acima eu o escrevi assim que me mudei para este apartamento. Vinte anos se passaram.

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Dou-me conta de que o tempo da nossa vida escoa por entre o nada, sem que possamos, de alguma forma, condensá-lo. Talvez por isso eu faça um registro. Escrevo como quem procura compreender o curso efêmero da nossa existência. O tempo da narrativa se confunde com a aventura existencial em busca de sentido. Aproprio-me de outros textos para tecer o meu próprio texto, feito de colagens.

Na sala, livros de arte sustentam um abajur art déco, como no filme Nunca te vi, sempre te amei. Na parede acima, uma fotografia de Robert Doisneau, de 1944: Simone de Beauvoir lendo
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e fazendo anotações à mão no Café Les Deux Magots. Cinco pequenas estantes estão abarrotadas de livros e de objetos de outros mundos por onde um dia passei. Pratos azul e branco do ceramista Chico Ferreira, de João Pessoa.

Possuo muitos pesos de papel. Há um da Comédie Française, com os dizeres: ‘Être ensemble et être soi-même.’ Outro, em cristal, com figura feminina de Mucha, adquirido em Praga por minha irmã. Um disco dourado, com hieróglifos, do Museu de Atenas, de uma segunda vez que passei pela Grécia. E aquele com a figura de Fernando Pessoa sentado à mesa, de terno e gravata-borboleta, reprodução de um óleo de Almada Negreiros existente no Café ‘Irmãos Unidos’, de Lisboa, onde se reuniam os poetas de Orpheu.

Pesos de papel e marcadores de livros são objetos caídos em desuso. Talvez por isso possuam uma aura, uma beleza singular.

Uma pequena cômoda abriga Oscar Wilde, Fernando Pessoa e Machado de Assis, da Nova Aguilar. Uma mesa-estante, em estilo inglês, adquirida no antiquário, abriga somente os poetas.
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Dei-lhes essa morada de exclusividade.

As obras reunidas de Baudelaire, encadernadas pela Gallimard, trazem a linda dedicatória de Jean-Luc Marion: ‘Ton souvenir en moi luit comme un ostensoir’ (Tua lembrança em mim reluz como um ostensório). Eu o conheci quando surgiu o movimento dos novos filósofos. Era rival de Bernard-Henri Lévy e ainda não pertencia à Academia Francesa de Letras.

Os poetas habitam essa pequena mesa giratória de dois andares. Suas vozes ressoam e instauram um diálogo comigo. Uma poltrona ampara as leituras. Na parede, uma tela de Darel e um desenho de Di Cavalcanti.

Mas o que povoa a sala são os livros. Romances do século XIX e lançamentos recentes, contos de autores brasileiros e estrangeiros se espraiam como um acervo de paixões. Eles são as vozes que me questionam e que me fazem ser quem eu sou.

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Em minha mente, construo o cenário de outra morada, um espaço integrado, sem paredes divisórias, como os grandes galpões de antigamente, que no passado serviam para armazenar imensas quantidades de grãos. A Praça XV e suas construções do período colonial. Imagino uma mesa de madeira rústica, uma cadeira, uma poltrona junto à grande vidraça, livros empilhados no chão de tábua corrida, uma cama ao fundo.

A imaginação viaja para espaços livres. A geometria dos espaços externos precisa se harmonizar com a geometria dos espaços interiores das pessoas.

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