Quando a Igreja na Paraíba soluçava fatigada e envelhecida nas práticas elementares de evangelização, vivendo no silêncio causticante de regras atrofiadas sob o sol da esperança, encoberto por nuvens escuras, surgiram entre nós dois padres com o “cheiro das ovelhas e pés no chão”. Vieram como mensageiros da esperança e de sonhos, como foram os profetas da Antiga Aliança.
Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel, profetas da Antiga Aliança", considerados porta-vozes de Deus pelo povo de Israel antes da vinda de Cristo ▪️ GD'Art
Fonte: CNBB
Assimilando o conteúdo do Pacto das Catacumbas, ambos logo colocaram em prática as recomendações e visualizaram alguns gestos pelos recantos da Paraíba, mesmo sendo repelidos por leigos e integrantes do clero tradicional, que olhavam de soslaio para o que estes propunham.
Pacto das Catacumbas, compromisso assumido por cerca de 40 bispos no final do Concílio Vaticano II (Roma, 1965), que se comprometeram a viver um estilo de vida simples e próximos dos mais vulneráveis, com foco na justiça social ▪️ Fonte: ihu.unisinos.br
Quando lembramos os 60 anos da chegada e do início dos trabalhos pastorais de Dom José e dos 50 anos do bispo Dom Marcelo (depois arcebispo), imaginamos que deverão ser comemorados pelos paraibanos, porque os gestos de ambos continuam no coração de muitos fiéis. Certamente as datas serão lembradas pela Igreja com uma vasta programação,
Dom Marcelo Carvalheira ▪️ Fonte: Diocese de Amparo
De minha parte, pretendo ofertar uma contribuição destacando os períodos de trabalho pastoral de ambos, visando perpetuar na história da Igreja e da Paraíba. Sobre Dom José, temos prevista a publicação do livro-biografia “Um Profeta na Igreja dos Pobres”. Igualmente, preparamos a segunda edição do livro “O Bispo que Amava os Pobres”, sobre a atuação profética e mística de Dom Marcelo, que espero lançar na data oportuna.
Estes dois padres, que vieram de outras terras para morar entre nós, tornaram-se pastores com os pés no chão; preferiram o cajado — símbolo do pastor — e não o báculo, que simboliza a nobreza. Visualizaram e mantiveram as feições proféticas do Concílio Vaticano II. Servos despojados de pompas, com as marcas dos grampos nas mãos e nos pés e, no peito, carregando as dores de Cristo, estiveram no meio do povo.
Dom José Maria Pires em ação nas comunidades rurais ▪️ Foto: Pe. Mauro Passos /// ihu.unisinos.br
Tentaram, a partir da mística de Jesus, e até certo ponto conseguiram, trazer harmonia à vida das pessoas — pessoas que viviam em amontoado de dor e sofrimento, à margem estreita entre os excluídos. Com eles, para muitos, a Palavra de Deus criou possibilidades humanas e conquistaram um arabesco espiritual; inclusive, diversos camponeses e famílias sem esperança se adornaram de luzes.
Partiram, levando consigo a poeira das terras paraibanas, e deixaram conosco a saudade, junto com a suavidade dos afetos. As lições de ternura e de pulso firme de ambos continuam como legado dos ensinamentos de Cristo.

























