“Nada me atrai mais do que a palavra/ e toda palavra me trai;/nada me ocupa mais que a palavra/ e toda palavra me culpa.” É o que diz o meu amigo, o poeta José Antônio Assunção, em um dos seus poemas. Essa luta do poeta na sua busca da palavra, constatando a sua intangibilidade é
José Antônio Assunção, poeta, escritor, ator e produtor cultural, natural do Rio Grande do Norte e radicado na Paraíba.
própria da criação artística. E como o poeta, digo que sou fascinado pelas palavras e pelas construções que elas possibilitam. Não há elegância na língua portuguesa maior do que a construção camoniana de mais-que-perfeito com mais-que-perfeito, a exemplo de “mais amara se não fora...”.
Gosto das palavras “insinuar” e “seduzir”, e dos seus compostos. Em “insinuar” parece que já vemos nas curvaturas dos “n’s” e do “s” o seu sentido, lembrando a genial estrofe 14 de Augusto dos Anjos, em “Monólogo de uma Sombra”, quando a rima se faz de uma maneira nova, criando a plasticidade que a cena exige:
É uma trágica festa emocionante!
A bacteriologia inventariante
Toma conta do corpo que apodrece...
E até os membros da família engulham,
Vendo as larvas malignas que se embrulham
No cadáver malsão, fazendo um s.
Por outro lado, a sibilar da fricativa /s/ parece facilitar que a palavra escape com mais rapidez. Mas, afinal, qual a etimologia de “insinuar”, para melhor compreendermos o seu sentido? “Insinuar” é composto da preposição latina in, que rege um acusativo de direção, com o sentido de ir para lá ficar, determinando o fim de um movimento. O substantivo masculino que compõe a palavra é sinus,
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sinus, da quarta declinação, com uma possível variação para um vocábulo arcaico neutro, sinum, sini, ou masculino sinus, sini, ambos da segunda declinação. Em qualquer um dos casos, o sentido da palavra nos remete para o de seio, concavidade, algo vazio, curva e, num sentido translato, golfo e baía.
O que nos atrai nessa palavra é o seu sentido primeiro ligado a curva e à palavra seio. O leitor avisado já terá feito as conexões e entendido que “sinusite” é a inflamação dos seios da face, as concavidades paranasais, cujas mucosas, ao se inflamarem, nos causam tanto problema. “Insinuar”, portanto, significa ir em direção a uma concavidade, a um vazio, para lá ficar.
Outra palavra fascinante é “seduzir”, composta de uma preposição latina sē, com o sentido de separação e divisão, e da raiz de dux, ducis, o que conduz estando à frente, o líder, como “Il Duce”, usado pelo ditador Mussolini. Seduzir (sedūco, seducĕre), em latim, é derivado de dūco, ducĕre, verbo da terceira conjugação latina. Seduzir, portanto, é separar para conduzir. Assim como segregar é separar da grei, do rebanho, o sedutor tem as rédeas da condução, a seu bel-prazer, daquele que ele separou dos demais.
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O mais fascinante é quando juntamos as duas palavras. O sedutor insinua algo, que se aloja numa concavidade do seduzido, ali permanecendo, e, dessa maneira, consegue separá-lo dos demais. Para haver sedução há que existir insinuação. É assim que agem as ideologias, não importando a sua origem – política, religiosa ou filosófica. Depois de insinuada para dentro do vazio cerebral, qualquer um é presa fácil de ser conduzido pelo sedutor.