Por mais que achemos difícil a vida nesta cidade do Rio de Janeiro de monotonia é que não se morre. Creiam os prezados amigos que aqui, mesm...

Santa Rita do Procon



Por mais que achemos difícil a vida nesta cidade do Rio de Janeiro de monotonia é que não se morre. Creiam os prezados amigos que aqui, mesmo nas trivialidades do dia a dia, no mero deslocar-se pelas ruas, ou até no recesso do lar, o cidadão encontra inúmeras ocasiões para encher-se ora de ódio, ora de revolta, ora daquele receio difuso do inesperado.
Como ocorre a quem atravessa uma selva escura e treme ao mero estalido de um graveto seco.

Aqui, como os amigos não desconhecem, é extremamente improvável contratar um serviço, abrir um crediário, adquirir um bem para entrega em domicílio, enfim, qualquer uma dessas comodidades normais em qualquer parte do mundo, sem que surjam problemas de várias ordens, pelo descumprimento descarado do que foi contratado, pela demora na entrega, pelo desaparecimento do produto adquirido e pago, pelo interminável jogo de empurra a que fica sujeito o queixoso ao tentar um contato honesto e franco com o fornecedor faltoso.

A loja onde se adquiriu o produto exime-se de qualquer responsabilidade e limita-se a fornecer esses quiméricos telefones de Serviço de Atendimento ao Cliente - na prática, um simples exercício de humor sádico contra o desavisado cliente. Não é por acaso que as repartições do Procon - que felizmente funcionam muito bem - vivam atulhadas de reclamantes.

Há alguns meses comprei alguma peças de cozinha e banho numa grande loja da cidade - e a atendente convenceu-me a pagar com o cartão deles - "sem juros, sem acréscimo de preço, e ainda contando pontos" para não sei que benesses. Eu, idiota, cri ter surpreendido um leve sorriso maldoso na moça, mas levado por sua extrema urbanidade, cedi.

Ai de mim! Nunca consegui fazer com que me mandassem a fatura do mês, obrigando-me a muitas idas à loja até conseguir que alguma alma boa a imprimisse. Dirigi-me ao gerente, que muito polidamente explicou: eles nada tinham a ver com aquela empresa - uma mera financiadora, com sede no interior de São Paulo e sem escritório no Rio. Passou-me os inevitáveis telefones de contato e até o site da tal firma - boa piada.

Hoje enchi-me de coragem e aí pelas 9 da manhã saí em busca do Procon. Sabia que o escritório se mudara da rua da Ajuda, no centro - um espaço cômodo e bem localizado para todo mundo - para a babélica Central do Brasil.

De fato, peguei o metrô e fui informado por um guarda que teria de adentrar o subsolo do prédio: usando de fé e pensamento positivo, acabaria por encontrar o serviço. E encontrei - mas apenas uma bela placa avisando da mudança da repartição para a Avenida Rio Branco, na altura da Praça Mauá. Encontrei lá tudo funcionando muito bem, cafezinho, água gelada e atendentes educados e competentes. Deixei a queixa registrada e saí, mas no fundo senti que faltava alguma coisa.

Ao atravessar a Marechal Floriano, reparei em uma antiga igreja que há ali, e que sempre me lembra os romances do Machado. Ao dar com o nome do orago, caiu-me a ficha. Chama-se "Igreja de Santa Rita dos Impossíveis". É essa exatamente a invocação adequada para nós cariocas. Como tudo aqui se arma imediatamente em problema de solução improvável, tem-se de recorrer ao Procon - e, como imprescindível reforço, invocar a ajuda dessa poderosa santa para causas desse tipo. E ali mesmo, contrito e cheio de fé, invoquei: "Valei-me nesta causa, minha Santa Rita dos Impossíveis!"
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