Vou-me embora para Ouro Velho, não é que lá tenha rei, nem mulher que já não quero, nem cama que escolherei. Vou-me embora para Ouro Velho!...

Tenho para onde ir

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Vou-me embora para Ouro Velho, não é que lá tenha rei, nem mulher que já não quero, nem cama que escolherei. Vou-me embora para Ouro Velho!... É que até o meado da semana (já não se sabe hoje) Ouro Velho vacilava entre as quatro das nossas 223 cidades onde os venenos letais da globalização não haviam ainda soprado.

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É improvável que tenha desembarcado algum portador do vírus em Ouro Velho. Lá, o descongestionamento deve nos isentar de tensões, sendo de supor a pouca utilidade das máscaras. Como vi com inveja, num lance de ontem do quadro atual da Espanha, os anciãos voltaram a seu lugar na praça, onde se lê jornal de papel. Os de Ouro Velho não precisaram se recolher. E se Antônio Marinho não dá mais o ar de sua graça, a cidade deve mantê-lo vivo de espírito. Era um inspirado sem versos numa terra rodeada de poetas cantadores. Quem não versejava, pendurava a viola na sala para o poeta que chegasse. Marinho era das tiradas curtas:

— Isso é bode, Seu Marinho? – perguntaram, vendo-o passar de couro de bode às costas.
— É não, é couro.
— O couro é seu?
— Não, é do bode.

Há décadas, com Ouro Velho se iniciando nas rodas de tevê em preto e branco, fui empapar uma coalhada das de trinchar na casa de Edson Melo, sogro de José Ferreira Ramos, hoje todos com Deus, no céu dali mesmo. Sim, porque segundo esse Antônio Marinho, famoso de espírito, “viva-se onde viver, morra-se onde morrer, nunca se sai de Boi Velho”. Era Boi Velho, Zé Ramos, prefeito, que trocou o boi pelo ouro, por amor a Beta, sua mulher, filha de Edson.

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Nascido pertinho dali, no Camalaú, com irmã no convento, meu amigo saudoso entendeu de ser padre e se fazer no latim do Seminário, isso nos anos 50. Anos lendários, por que não? Zé Américo no governo, Getúlio saindo da vida para a História, JK virando o motor do Brasil e adentrando nele, a Copa de 58 se desforrando com sobra da de 1950, a Paraíba implantando sua Universidade. E o latim de Zé, do original da Suma Teológica, fazendo-o escadear, mérito após mérito, de chefe de redação, juiz, prefeito, ao ordenador pioneiro dos cursos universitários, encerrando a carreira e a vida de conselheiro do MEC, em Brasília.

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Há uns cinco anos, eu com a mão em concha para aprumar as ouças no que Zé dizia, lá volta Ouro Velho. De visita aos nossos pagos, à sombra de um quiosque de Tambaú, não domina outro assunto: “Podíamos dar uma chegadinha a Ouro Velho, voltar à certeza, desmentir Hobsbawm”, filosofou, irônico, o crente impenitente de Santo Tomás. “É melhor não ir”, cortei vendo-me de volta a Alagoa Nova, a rua cheia e eu ali sozinho como fantasma. Mas cortei errado, vendo agora o registro da Saúde com Ouro Velho isolada da globalização sem controle, sinistra.

Mesmo sozinho, sem Zé, tenho de ir para Ouro Velho, não sei se me deixam entrar.


Gonzaga Rodrigues é escritor e membro da APL
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