É inquestionável a importância vanguardista do compositor carioca Noel Rosa para a transformação poética da canção popular brasileira. A po...

O grande compositor que o Brasil esqueceu

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É inquestionável a importância vanguardista do compositor carioca Noel Rosa para a transformação poética da canção popular brasileira. A poesia de Noel se torna ainda mais relevante quando se considera o fato de que foi ele o primeiro compositor branco, de origem na classe média, com formação escolar em tradicional instituição católica (Colégio São Bento, RJ) e com passagem, embora curta, por uma Faculdade de Medicina, a firmar parcerias regulares com compositores negros, iletrados, dos morros do Estácio, Mangueira e cercanias. Para o jornalista João Máximo, um dos mais criteriosos biógrafos do Poeta da Vila Isabel,

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Noel teve, “de 1929 a 1934, quinze, ou talvez, dezesseis compositores negros como parceiros, o que não existia naquela época, parcerias inter-raciais”. Entre os mais notórios parceiros do morro de Noel Rosa estão Ismael Silva, Bide e Cartola.

A mais rigorosa biografia existente de Noel Rosa foi feita por João Máximo e Carlos Didier e publicada, em 1990, pela editora da Universidade de Brasília. Divergências entre os autores, até hoje não superadas, fizeram com que a obra ficasse restrita àquela primeira e única edição. Nessa biografia, foram levantadas 259 músicas com a participação autoral de Noel, que foram compostas em um pequeno período de oito anos, que findou em 1937, ano da sua morte. O pesquisador Jairo Severiano identificou, em toda a obra de Noel Rosa, 108 músicas feitas exclusivamente por ele, o que leva à conclusão de que quase 60% das músicas do poeta da Vila foram feitas com parceiros.

Após a morte de Noel Rosa, a sua obra caiu em uma espécie de limbo. Para Ruy Castro “o enterro e a missa de sétimo dia para Noel foram apoteóticos, mas o esquecimento começou assim que o padre recolheu os paramentos. Nos onze anos seguintes, a música de Noel desapareceu das lojas de discos, ninguém o cantava no rádio, a imprensa o esqueceu”. Se esse esquecimento envolvia o nome de Noel Rosa, pode–se imaginar o que ocorria com os seus parceiros que tinham nomes menos destacados, como Puruca, Canuto, Nonô, João Mina, Antenor Gargalhada e tantos outros.

Quando se fala das músicas mais representativas da obra de Noel Rosa sempre são citadas “Feitiço da Vila”, “Conversa de Botequim”, “Pra que Mentir” e “Feitio de Oração”.



Feitiço da Vila

Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos do arvoredo
E faz a lua nascer mais cedo
Conversa de Botequim

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’agua bem gelada

Embora essas músicas estejam, indelevelmente, associadas ao nome de Noel Rosa e sejam sempre indicadas entre os melhores sambas da sua vastíssima produção, nelas o Poeta da Vila participou apenas como o letrista das canções, cujas melodias foram feitas por Vadico. Muitos leitores vão se deparar, aqui, pela primeira vez, com o nome de Vadico, que foi um músico e compositor de destaque, principalmente no período que se estende do final dos anos 1920 até meados da década de 1940, comumente denominado, na historiografia, de "época de ouro" da música popular do Brasil.

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Vadico é o mais esquecido dos compositores dessa época dourada. E o seu caso é singular porque algumas das suas canções são bastante conhecidas e continuam a ser frequentemente regravadas e executadas, mas geralmente não se sabe que ele é o coautor das músicas, que são, quase sempre, creditadas apenas a Noel Rosa.

Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, era paulistano, nascido, em 1910, no bairro do Brás, descendente de imigrantes italianos e de uma família de músicos. Começou a estudar piano quando era criança. Muito jovem, iniciou a sua vida profissional como músico em São Paulo, mas garantindo o seu sustento, também, como datilógrafo. Aos vinte anos, decidido a viver, unicamente, da música, deixou a máquina datilográfica de lado e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se concentrava o grande movimento musical do País.

Em 1933, já estabelecido no Rio de Janeiro como pianista e compositor, em um intervalo de uma sessão de gravação do cantor Francisco Alves, Vadico tocava uma das suas composições no piano. O maestro Eduardo Souto, encantado com a melodia, foi numa sala ao lado onde se encontrava Noel Rosa e o chamou para ouvir a música, sugerindo que Noel fizesse a letra. Noel fez, na hora, o que se costuma chamar um “monstro”, uma letra provisória para marcar o número de sílabas com as notas. Dois dias depois, Noel trazia a letra definitiva do samba, que iniciou a parceria entre ele e Vadico e se tornou uma obra-prima da canção popular brasileira:

Feitio de Oração

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade


Vadico foi o parceiro mais constante de Noel Rosa. Fizeram dez músicas juntos. Para João Máximo, nada do que fizeram “é menos do que bom. E quase tudo é mais do que excelente”. A última música da dupla foi “Pra que Mentir", que também se tornou um clássico da música brasileira, “Pra que Mentir" foi composta a menos de dois meses da morte de Noel, que não chegou a ver a música gravada. Uma das inúmeras regravações de “Pra que Mentir" foi feita por Caetano Veloso, que a usou como tema para compor “Dom de Iludir”, intertextualizando a letra da sua música com os versos de Noel em “Pra que Mentir".

Pra que Mentir

Pra que mentir
Se tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir? [...]
Pra que mentir
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?


Infelizmente, os pulmões de Noel não resistiram, nos seus 26 anos de idade, à vida boêmia e desregrada que ele levava, não permitindo que as suas primorosas letras continuassem a se amoldar, de modo perfeito, às elaboradas construções melódicas e harmônicas criadas pelo piano de Vadico.

Dois anos após a morte de Noel, Vadico viajou para os Estados Unidos, como pianista de uma orquestra brasileira que ia fazer apresentações na Feira Mundial de Nova York. Ao término do evento, decidiu ficar por lá. Atuou, inicialmente, como arranjador e, depois, como pianista do Bando da Lua, o grupo que acompanhava Carmen Miranda.

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Quando não tinha compromissos com Carmen Miranda, Vadico tocava em grupos e orquestras em shows e espetáculos na Broadway. Para o jornalista Gonçalo Junior, biógrafo de Vadico, essa participação no teatro teria levado o compositor a ser convidado para fazer trabalhos para os estúdios de cinema Universal e 20th Century Fox.

Nos primeiros anos da década de 1940, os estúdios de cinema norteamericanos, subsidiados pelo governo, participavam do empenho dos Estados Unidos em tentar melhorar o seu relacionamento com os países da América Latina, a chamada Política da Boa Vizinhança. Mas, como sempre, por trás da finalidade declarada, havia uma razão econômica.

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Com o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, houve uma substancial queda no mercado para os filmes produzidos nos Estados Unidos, em virtude da restrição imposta pelos países que estavam sob o domínio da Alemanha, Itália e Japão, mercado que precisava ser recuperado em outros locais. O estúdio Disney, que era o mais afetado com a perda de arrecadação externa, se envolveu inteiramente na iniciativa do governo.

Liberado pela Fox, com quem tinha vínculo contratual, Vadico foi cedido à Disney para colaborar em um desses filmes da Política de Boa Vizinhança. A película era Alô Amigos (Saludos Amigos), que foi a primeira experiência cinematográfica de utilização de personagens reais contracenando com figuras gráficas, como o Pato Donald e Zé Carioca. Partiu de Vadico a sugestão para que Walt Disney encerrasse a película com a música “Aquarela do Brasil” que, a partir do filme, tornou-se um grande sucesso internacional com o título de “Brazil”.


A sina do esquecimento parecia sempre pairar sobre Vadico. Ele compôs músicas de fundo para seis filmes nos Estados Unidos, em nenhum deles teve os créditos devidos. O compositor paulistano apareceu em cena em várias películas feitas por Carmen Miranda nos Estados Unidos, não ao piano, mas tocando tamborim, integrando o Bando da Lua.

Vadico resolveu deixar o Bando da Lua e ir para Los Angeles para trabalhar como pianista e estudar música com Mario Castelnuovo-Tedesco, maestro e compositor erudito italiano de origem judia, que havia emigrado para os Estados Unidos. Vinícius de Morais, que ocupava posto diplomático na cidade e se tornara grande amigo de Vadico, relata que, na época,
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ele sempre se encontrava no piano de sua casa, em Hollywood, “nas boas noites em que ia visitá-lo, estudando sem parar harmonia, contraponto, fuga, composição e orquestração, sob a orientação do mestre Castelnuovo-Tedesco, grande da música contemporânea”.

O aperfeiçoamento musical de Vadico fez com que ele fosse convidado a assumir a direção musical da respeitada companhia de balé da bailarina, coreógrafa e antropóloga Katherine Dunham. O grupo, que era formado por componentes negros, é considerado uma das mais importantes companhias de balé dos Estados Unidos, no século passado. Katherine Dunham era, também, uma grande ativista no combate às práticas racistas no país.

Com o grupo de Dunham Vadico (que era apresentado nos cartazes como Vadico Gogliano) excursionou pela Europa, América Latina e Brasil. Durante a passagem por Paris, Vadico teve três peças instrumentais suas, as quais ele denominou “Choros”, incluídas no disco “Voyage au Brésil”, gravado pela companhia de Katherine Durham na França. O cronista Rubem Braga que, na ocasião, estava em Paris como correspondente de jornais brasileiros, entrevistou Dunham, que ressaltou a importância de Vadico para a sua companhia: “Gogliano tem me ajudado muito, ele tem composições lindas!”. Durante esta excursão Vadico regeu orquestras sinfônicas, na execução da sua peça “Prelúdio e Fuga”, em Santiago, no Chile, em Buenos Aires e em São Paulo.

Após mais de dois anos de trabalho com Katherine Dunham, Vadico desligou-se da companhia. Rubem Braga, que também entrevistara o compositor quando da passagem do grupo por Paris, relata um trecho da conversa com Vadico, em que indaga sobre as moças do balé: "ele ri, conserta os óculos, mas diz que prefere as francesas.” Isso, entretanto, não era verdadeiro. Para Gonçalo Junior, em sua biografia de Vadico, o músico teria se apaixonado por uma das bailarinas, que se tornaria, anos depois, a famosa cantora e atriz Eartha Kitt.

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Na década de 1960, Eartha seria a Mulher-Gato do seriado Batman da televisão norte-americana. Eartha Kitt teve uma destacada carreira como cantora e dentre os seus maiores sucessos estão a canção francesa “C’est Si Bon”, que ela gravou no idioma original, e “I‘ve got you under my skin” de Cole Porter.

O diretor e ator Orson Welles considerava Eartha Kitt “a mulher mais sensual do mundo”. Ela se apresentava com voz sussurrante, gestos lascivos e não era uma pessoa muito cordata. Conta-se que, certa vez, reclamada por causa de seu comportamento, pelo dono de uma boate em que atuava, deixou-o no chão com um soco digno de um boxeador.

Em 1955, por ocasião do lançamento de um disco de Eartha Kitt no Brasil, Vadico já estava de volta ao Rio de Janeiro. Em entrevista concedida na época, destaca-se o impiedoso comentário sobre a artista: “como bailarina, é medíocre; como mulher, idem; como cantora, uma droga!”. Isso mostra que a relação entre os dois não foi bem resolvida. Mas, talvez, o pacato e retraído Vadico não tivesse mesmo se amoldado à tempestuosa Eartha Kitt.

Vadico permaneceu nos Estados Unidos por quase 15 anos. Ainda quando se encontrava por lá, recebeu a desagradável notícia de que, em discos que haviam sido lançados no Brasil com músicas em que ele era parceiro de Noel Rosa, as gravadoras haviam omitido o seu nome na autoria das canções. Vadico teve que recorrer à justiça para fazer valer os seus direitos.

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Em 1954, Vadico voltou, definitivamente, para o Brasil, retomando, no Rio de Janeiro, o seu antigo trabalho como pianista e intensificou a sua atividade como arranjador, orquestrador e, também, como compositor, com vários parceiros, tendo sido Marino Pinto o mais constante deles. Gravou alguns discos instrumentais, que foram elogiados pela crítica, sendo eleito, em 1955, “o arranjador do ano”.

Em meados de 1956, Vadico recusou um convite do seu amigo, e também parceiro, Vinícius de Morais, para musicar uma peça que o poeta iria encenar, transportando o mito grego de Orfeu para os morros cariocas. Em depoimento, Vinícius afirma que Vadico se escusara do convite alegando não se julgar em condições para a tarefa. Para João Máximo, grande pesquisador da vida do compositor, isso não faria sentido, já que Vadico, no tempo que passou nos Estados Unidos, trabalhou na composição de músicas para filmes e peças na Broadway, e a recusa teria sido motivada por problemas de saúde que ele já vinha sofrendo desde os Estados Unidos. Para o trabalho recusado por Vadico, Vinícius de Morais encontrou um jovem maestro chamado Antônio Carlos Jobim, e a parceira entre eles mudaria a história da música popular brasileira.

Em 1962, Vadico sentiu-se mal durante uma sessão de gravação, e apesar de ser levado ao hospital mais próximo pelo baterista Wilson das Neves, seu amigo, morreu no trajeto, dentro do táxi que o transportava. O compositor e músico, de méritos amplamente reconhecidos, que trabalhara na Broadway e em importantes estúdios de cinema, que se apresentara nas mais importantes casas de espetáculos do mundo, na ocasião, morava em Copacabana, em um minúsculo quarto e sala, que tinha apenas uma cama e um pequeno piano de armário.

Em 1979, dezessete anos após a morte de Vadico, foi produzido, por uma pequena gravadora de São Paulo, o primeiro disco somente com músicas do compositor, álbum que, hoje, é uma raridade. Nessa gravação, pode-se ter uma amostra da qualidade das músicas de Vadico que, até então, ainda permaneciam inéditas, como os dois choros instrumentais que foram interpretados no disco por Amilton Godoy, o pianista do Zimbo Trio.

Depois daquela iniciativa de 1979, novamente um véu de esquecimento voltou a encobrir o nome de Vadico. De lá para cá, já se passaram mais de quarenta anos e um absoluto silêncio envolve a obra do compositor paulistano.


Flávio Ramalho de Brito é engenheiro e articulista
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  1. Parabéns meu nobre Flávio Ramalho de Brito. Bom texto, boa narrativa, belo resgate cultural
    Att. Rau Ferreira

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  2. Parabéns por mais um excelente artigo sobre nossa história musical. Está prestando relevantes serviços culturais. Vadico é mais um dos grandes injustamente esquecido. Para além de sua parceria com Noel, tem uma obra de enorme envergadura. A lista dos esquecidos é tão grande, que dá até uma tristeza de pensar. Só se valoriza o que ajuda a demolir nossa cultura viva e ajuda a uma subserviência e uma ignorância militantes. O Brazil realmente não merece o Brasil.

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