Literatura se alimenta, sobretudo, de literatura. Todo teórico e crítico sabe disso. Todo escritor tem consciência desse fato, afinal de c...

O escritor, um leitor privilegiado

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Literatura se alimenta, sobretudo, de literatura. Todo teórico e crítico sabe disso. Todo escritor tem consciência desse fato, afinal de contas não existe escritor que não seja antes um leitor. Esse processo de texto que se forma de outros textos pode ser chamado de intertextualidade, caso alguém opte pela teoria de Julia Kristeva, ou de transtextualidade, caso se firme na teoria de Gérard Genette, que ampliou e aprofundou os conceitos daquela autora. Intertextualidade ou transtextualidade, pouco importa o nome técnico que se dê, relevante mesmo é sabermos que, quando estamos lendo um texto, sempre há outro(s) texto(s) que se encontra(m) devidamente retrabalhado(s) sob muitas dobras.
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Para que o leitor consiga desdobrar alguma coisa do texto e fazer o reconhecimento do que está ali, muitas vezes de modo sutil e sub-reptício, é preciso ter um amplo horizonte de expectativa — l'horizon d’attente, de que fala Genette —, formado por todo conhecimento acumulado durante a sua vida. Portanto, quanto maior a informação, consciente ou inconsciente, disponível no cérebro, maior a fruição de uma obra, ao se fazer todas as conexões possíveis.

Entusiasmado com as Bucólicas de Virgílio, poema que lhe foi apresentado por Mecenas, Otávio César pede a seu amigo, conhecedor e protetor das artes e dos artistas, que o poeta mantuano escreva um poema didático sobre o campo, de modo a incentivar o trabalho e a produção agrícola. Virgílio aceita o encargo e, no ano 29 a. C., quando Otávio César já é o princeps, o primeiro homem de Roma, surge em versos hexâmetros latinos e dividido em quatro livros o belíssimo Geórgicas, título que significa “dos trabalhos na terra”, em grego. Como se trata de um texto longo, gostaria de me referir aqui apenas ao primeiro livro desse poema, belo e extraordinário, apesar de didático e de ter sido feito sob encomenda.

O Livro I das Geórgicas começa mostrando a primavera como o início dos trabalhos do campo. O trabalhador tem que se esforçar, para poder subjugar a terra. Para esse labor, é necessário ter o conhecimento das constelações, da fabricação das armas do agricultor, como o arado, fazer preces e sacrifícios aos deuses, sobretudo a Ceres, de maneira a poder começar o processo de lavragem e semeadura dos campos. A ideia que perpassa o poema é a de que a vida é trabalho constante; trabalho que necessita de organização e de previsão do como e do quando se fazer, daí a necessidade da observação constante dos astros, a fim de que os sinais possam ser conhecidos e os presságios revelados.

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Nessa construção, que podemos dizer ser um primeiro chamamento para organização do trabalho agrícola, Virgílio se utiliza de alguns mitos, que já haviam se fixado literariamente. Ele retoma, por exemplo, os conceitos de Hesíodo sobre as idades das raças humanas, conforme se encontra no poema Trabalho e dias (século VIII a. C.). A Idade de Ouro de Saturno, momento em que a natureza era pródiga e o homem não precisava trabalhar, pois a terra tudo lhe concedia, será substituída pelo trabalho do homem, abrindo as entranhas da terra para daí retirar o seu sustento. A intertextualidade com Hesíodo é clara, sobretudo quando sabemos o agricultor virgiliano encontrar-se na Idade de Ferro, em que as armas do lavrador se tornaram armas de guerra — “As curvas foices se fundiram em rígidas espadas” (Et curuae rigidum falces conflantur in ensem, verso 508). Além de ter de trabalhar a terra para viver, o homem anda às voltas com as guerras, que paralisam os trabalhos dos campos,
sem falar na morte inútil dos jovens, tema já apresentado na tragédia Eumênides, de Ésquilo.

Por outro lado, quando Virgílio se refere à importância da observação dos astros para os trabalhos do campo, ele chama a atenção para o percurso do sol, durante os doze meses do ano — a eclíptica solar —, cujo trajeto oblíquo passa por 12 constelações (hoje, são 13), circunscritas entre as três das cinco zonas da Terra, excluídas aí as polares — o Equador, o Trópico de Câncer, no hemisfério norte; o Trópico de Capricórnio, no hemisfério sul –, fornecendo, assim, o material astronômico para o poeta Ovídio escrever o mito de Faetonte e o desastre desse filho de Febo, na condução do Carro do Sol; episódio que se encontra relatado no Livro II das Metamorfoses do poeta dos Amores. Virgílio vai um pouco além, referindo-se ao mito de Niso e Cila, um esboço do Cyris, poema posterior, a ele atribuído. Esse mito também será retomado por Ovídio, como o primeiro episódio do Livro VIII das Metamorfoses.

Considerando todo este processo de leitura e de escritura, é bom termos em mente que “ler” é um verbo que vem do trabalho no campo, seja na língua grega — λέγω —, seja na língua latina — lĕgo, lĕgĕre —, cujo primeiro sentido é “colher”, “escolher”, supondo, portanto, a um só tempo, seleção e apreensão. Só depois é que, em grego, passaria a designar "dizer" e, em latim, tomaria o sentido de "ler", ambos translatos, como conhecemos hoje. O leitor, portanto, é aquele que colhe o que se lhe apresenta, num processo de escolha, atribuindo novos significados, para poder dizer em novas organizações, já como escritor, aquilo que ele apreendeu.

Esta é a inter/transtextualidade, que revela como o escritor é um leitor privilegiado.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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  1. Texto oportuníssimo, mestre. Meu amigo, o maestro José Alberto Kaplan, que "não morreu" em 2009, escreveu muito a respeito da intextualidade na música e criou várias belas obras assumidamente em cima de partituras alheias. Algo como Joyce ao criar o estupendo "Ulysses" a partir da "Odisseia" de Homero. Ou Camões, ao começar "Os Lusíadas" com "As armas e os varões assinalados", que fora buscar no "Arma virunque cano" da "Eneida" de Virgílio. O cinema está cheio de "citações" semelhantes, como a cena do tiroteio na escadaria, de "Os Intocáveis" com fonte explícita - carrinho de bebê e tudo - na célebre sequência da escadaria de Odessa, do "Couraçado Potenkim", de Eisenstein. Ainda ontem eu contava pra Bráulio Tavares e Renato Félix - aqui no facebook - o lance em que Kleber Mendonça Filho me levou e ao ator Irandhir Santos para seu gabinete, onde mostrou que a cena final de "O Som ao Redor" seria feita em cima daquela, de "Blade Runner", em que o casal de "replicantes" ( androides ) vai, no elevador, ao apartamento de seu criador, pedir que elastecesse os seus prazos de validade, matando-o ao não serem atendidos. E no campo das leis, a mesma coisa. O "olho por olho, dente por dente", de Moisés, provém de igual tópico do Código de Hamurabi, o primeiro do mundo, com propósito legislativo. Aqui na Paraíba, como conto em meu livro "Zé Américo foi Princeso no Trono da Monarquia", vi o grande escritor dizer, ao me ver comparando o começo de "A Bagaceira", com o começo do "Édipo Rei" - o povo grego flagelado pela peste, indo pedir socorro ao palácio, assim como as vítimas da seca à casa-grande da fazenda Marzagão, no Brejo: "É mesmo!" Algum tempo atrás, quando me pediram que escrevesse algo sobre Augusto dos Anjos - já tão estudado - vi, ao procurar o que dizer, que o poema "Solitário", dele, é ... "O Corvo" do Edgar Allan Poe... do ponto de vista do fantasma de Lenora, ou: a mesma cena vista de fora. E quanto já se falou do espelho na parede ao fundo do "Las Meninas", do Velásquez, correspondendo ao do fundo de cena do "Casal Arnolfini", de van Eyck. Ou sobre o quanto "O Grito do Ipiranga", do nosso Pedro Américo, tem do "Napoleão em Friedland", de Meissonier. Uns assumem a intertextualidade, domo Kaplan ou Joyce, outros citam o "neste mundo nada se cria, nada se perde, tudo se copia", outros fazem valer a assertiva de que "cultura é o que fica depois do esquecimento".

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  2. É isto mesmo, mestre Solha! Não há arte sem referência implícita ou explícita - depende do horizonte de expectativa de cada um - a outras artes. Não quis citar, por exemplo, que Guimarães Rosa usa um verso, de forma conscientemente estropiada, das Geórgicas, no conto "Conversa de bois", de Sagarana. Guardei a informação, pois é o objeto de um ensaio para o Correio das Artes de dezembro, texto já pronto.
    Obrigado pela leitura e pelo comentário.
    Milton Marques Junior

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  3. O Ambiente de Leitura Carlos Romero e a ALCR-TV agradecem aos leitores, autores e telespectadores pela prestigiosa participação, pelo compartilhamento, comentários sempre bem-vindos e convida a todos para que continuem nos prestigiando com sua importante e honrosa presença.

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