Parti cedinho, saindo do deserto do Atacama, no norte do Chile em direção ao sudoeste da Bolívia, em comboio, junto com outros turistas dis...

Espelhos do infinito

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Parti cedinho, saindo do deserto do Atacama, no norte do Chile em direção ao sudoeste da Bolívia, em comboio, junto com outros turistas dispostos e curiosos.

A primeira parada em minha rota rumo ao Salar de Uyuni foi na Laguna Blanca, já nos Andes bolivianos. Em suas margens há um solo rochoso com pequenas poças de água que dividem o panorama com o capim amarelo característico de lá.

Na tela da Laguna estavam contidas a imagem do vulcão e da cordilheira de picos nevados, perfeitamente refletida num espelho límpido e brilhante, que, além do relevo que a emoldurava, retratava um céu de azul perfeito, daqueles que Mário Quintana diz que, de tão lindo, dá saudade de não-sei-o-quê...


Eu estava diante daquelas belezas que dão um nó na garganta. É impossível que um quadro pintado com tanto esmero não tenha sido feito para ser admirado.

Em momentos assim é quando concordamos com o bispo anglicano irlandês George Berkeley, filósofo de curiosa combinação: empirista e cristão. Dizia Berkeley que o homem dá sentido às coisas ao observá-las e, naqueles lugares onde ele não está ou não alcança, um Grande Observador Dá sentido a tudo...

Toda aquela beleza estava ali antes da caravana chegar e certamente o Seu Autor já a Apreciava em Majestoso Silêncio.

A Assinatura do Artista é o sentimento que nasce no coração quando estamos diante da Sua Obra. Uma emoção nos rouba a fala e as palavas diante da impactante luminosidade de algo tão magnífico e simples.
A coleção de obras de arte disposta por Deus sobre este mundo são tantas que é temerário arriscar o que é mais belo.

Visto do avião, o Saara é um imenso tapete de ouro que parece se extender aos confins da terra.

Desde o Pão de açúcar, o contorno que separa o Rio de Janeiro do mar se reveste de uma exuberância só traduzível através da poesia. As pontes sobre o Rio Douro com a paisagem da cidade do Porto ao fundo, ao entarcedecer, é uma visão que evoca pureza, encantamento e paixão.

Paisagens grandiosas e belas e cenários simples e belos. As cegonhas e os seus ninhos gigantes, construídos em cima dos postes nas pontes sobre o Ebro, em Logroño, enche-nos de um romantismo simples e sincero.

Os campos de lavanda e de trigo, ladeando estradas de cascalho em Castilha y Leon...

Qualquer tentativa de estabelecer uma hierarquia entre estas cenas é superficial e injusta. O melhor é contemplá-las, cada uma em sua singularidade.

A Laguna Blanca, apesar do nome, é como uma grande gema de lápis lazuli encravada em pleno deserto a quatro mil e trezentos metros acima do nível do mar. A essa altitude a água engarrafada, comprada sem gás, começa a borbulhar. O ar rarefeito pode causar enjôo, tontura, cansaço e dor de cabeça. Felizmente fiquei isento desses sintomas, mas observei algumas pessoas respirando oxigênio em tubos para se recuperar.


A seguir fui à Laguna Verde, cuja cor esmeralda depende da intensidade do vento. Quando a vi, nela predominava o mesmo tom azul da Laguna Blanca. Num plano um pouco acima, atravessei o deserto batizado em homenagem ao pintor espanhol Salvador Dalí, assim chamado porque a sua paisagem lembra o fundo de algumas famosas pinturas surrealistas. No meio do deserto há um lugar que, se não fosse pela discreta, mas ainda presente vegetação rasteira, seria um autêntico postal do planeta Marte. Nele, um conjunto de pedras vermelhas amorfas e esburacadas formam um pequeno vale rochoso.


Pouco adiante, encontrei uma cidadezinha chamada San Cristóbal, cuja principal atração, pelo menos para mim que gosto de “pedras velhas”, como me disse uma colega turista, foi uma antiga igreja toda construída com pequenas rochas irregulares dispostas umas sobre as outras.

A parada seguinte foi no hotel, já bem próximo ao destino. Limpo, confortável, bem organizado, bonito e climatizado. Tudo o que eu necessitava após dirigir por mais de seis horas.


No dia seguinte, depois de passar por um cemitério de trens, a areia, de repente, deu lugar ao sal e o solo ficou branco como a neve. Segui pela superfície de brilho ofuscante até chegar a Isla Incahuasi, que significa “casa dos incas”, situada bem no coração daquele deserto de sal, de onde se tem uma vista privilegiada. A “ilha”, uma das vinte e cinco do Salar, na verdade, é uma elevação rochosa coberta por cactos e rodeada por um mar de sal de onze mil quilômetros quadrados, o Salar de Uyuni. Entre trinta e quarenta e dois mil anos atrás, ele era um lago gigante cuja profundidade chegava até cento e quarenta metros, mas que acabou se evaporando,
pois a água não tinha para onde escoar, uma vez que a Cordilheira dos Andes isola o salar do Oceano Pacífico. A própria palavra uyuni significa “cercado”.

Evidentemente a versão mitológica é muito mais bonita.

Os Aymara, povo que habita a região, tem uma lenda que explica como o deserto de sal de formou. Segundo o mito, as três montanhas que circundam o local teriam sido gigantes que, numa época imemorial, protagonizaram um triângulo amoroso. Tunupa, uma gigante fêmea, casou-se com Kusku, mas este a deixou por outra gigante, Kusina. Tunupa teve um filho de Kusku e, enquanto o amamentava, as suas lágrimas escorriam e se acumulavam num lago, que depois secou e deu origem ao salar. Composto por sessenta bilhões de toneladas de sal e rico em potássio, lítio e magnésio, o oceano mineral é uma das reservas mais preciosas desses materiais em todo o planeta, o que atrai a cobiça internacional de corporações e de países.


A Bolívia é a maior produtora mundial de sais de lítio, matéria-prima para fabricação de medicamentos moderadores de humor e, também, de baterias de todo tipo. Torci para que não fosse dali que os sais fossem extraídos, pois nada deveria ser retirado daquela paisagem.

O Salar é como uma beira mar onde nunca se chega ao mar. É uma praia de sal infinita, às vezes pontilhada por flamingos cor de rosa, a única ave que se percebe naquele grande e silencioso deserto branco, cuja sobreviência é improvável para qualquer espécie.

Na parte molhada, formada pelas chuvas sazonais, as extensas poças rasas combinadas com os raios solares compõem um quadro que nenhum surrealismo conseguiria conceber: o de um céu refletido no outro, onde não se consegue, a olho nu, divisar a cópia do original. Imerso nessa maravilhosa ilusão de ótica, caminhei sobre um céu terrestre, como se flutuasse dentro de um salão de espelhos de proporções geográficas, onde a natureza atinge um patamar de perfeição. Ali, naquela imensa planície de sal, testemunhei uma beleza traduzida em imagens que a prosa não tem condições de descrever, nem mesmo numa crônica poética.


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