Quanto mais refletirmos , mais seremos guiados por aquilo que realmente desejamos e queremos do que por aquilo que os outros impõem s...

Desejantes

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Quanto mais refletirmos, mais seremos guiados por aquilo que realmente desejamos e queremos do que por aquilo que os outros impõem sobre nós por acharem que se trata de um objeto ou ideia de que necessitamos. O desejo é da esfera inconsciente, e o querer pertence ao nível consciente. A lógica produtivista e neoliberal tem automatizado as nossas escolhas.
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Arte: G. Feure, S.XIX
Consumimos produtos e aderimos a ideias de modo impensado. Talvez, mais à frente, nos damos conta de que uma conquista só tem real valor quando vinculada à nossa essência, ao fórum íntimo no qual está o que de fato nos é significativo e não meramente utilitário.

Isso vale para os relacionamentos pessoais, profissionais, as relações familiares, a forma como (não) nos voltamos para a natureza. Será que precisamos de muito mais do que temos? Não nos bastaria estarmos bem alimentados, termos um lar revestido de afeto, conforto e segurança? O desejo nos move, mas os seus excessos roubam nossa paz. O constante anseio por atender às expectativas alheias nos adoece. Vale a clássica pergunta: sou o que fiz de mim ou o que quiseram que eu fosse? Sim, somos uma miscelânea de experiências, de emoções e do resultado desse entrecruzamento de pessoas e cenários. Contudo, o que prevalece? Quem somos nós neste silêncio habitado? Quem somos nós na balbúrdia do vazio?

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Arte: G. Feure, 1896
A auto-opressão, a violência contra si, é “apenas” uma interpretação que fazemos dos lutos mal resolvidos? Quando vamos nos autorizar a sermos quem tanto desejamos ser, nos desvincularmos da autocensura que se impõe pelo medodo que os outros vão pensar? Como saber qual é a hora mais oportuna para se autorizar a viver confortável em si mesmo e deixar de lado quem cerceia nossa liberdade? Não, não é hedonismo. É respeito. Respeito por essa existência que não deve se limitar aos comandos alheios, tampouco a viver sob a égide de uma ansiedade que sequer sabemos sua origem. Eros e Thânatos se duelando. Enamorem-se! Dialoguem – é sonho ou ilusão?

Sendo tão romântico, nunca pensei que fosse dizer isto: sem romantismo, tudo fica mais leve, não porque baixamos o nível das exigências, mas porque enxergamos a complexidade humana. O amor se confere de maturidade quando compreendemos que a ambivalência e a incerteza são indissociáveis nos relacionamentos afetivos.

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Arte: G. Feure, 1903
A frequente racionalização também bloqueia a ternura. Por medo de parecer vulnerável, construímos uma muralha, para depois nos queixarmos de que não somos vistos. Nossas necessidades todas serão atendidas? Não é querer demais que o outro supra todas as nossas carências quando sequer temos consciência destas? Por que tanta burocracia para amar? Amor de quem muito curte encurta? Numa era em que curtir já perdeu a ideia de se demorar e ganhou a acepção de um interesse supostamente genuíno de que o outro está interessado. Amor instantâneo não tende a resultar em bom caldo.

Melhor seria não idealizar ninguém, nenhuma relação. Temos romantizado demais, colocado no pedestal muitas pessoas por uma crença de que o outro tem uma obrigação conosco. Ninguém tem. Podemos ter gratidão sem servidão. Podemos ser gentis sem sermos escravizados pela chantagem de quem nos serviu esperando uma moeda de troca. Podemos manter o respeito sem a obediência cega.

Desejantes, desejosos, o que bem-querer?

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  1. Sábias palavras, Leo. Mas só pode escrevê-las quem já ralou neste mundo de meu Deus. De cabelos brancos, aprendo com você, amigo. Parabéns e obrigado. Francisco Gil Messias.

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