Immanuel Kant (1724–1804), filósofo alemão, compreende o funcionamento do conhecimento humano a partir de três grandes faculdades: a de conhecer, a prática e a de julgar. Essas estruturam o modo como o ser humano se relaciona com o mundo,
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consigo mesmo e com os valores estéticos. A primeira é a faculdade de conhecer, responsável pelo conhecimento científico. Nela, a razão opera dentro dos limites da experiência possível, produzindo conhecimentos objetivos e universais. Kant afirma que “todo o nosso conhecimento começa com a experiência, mas nem por isso deriva todo ele da experiência” (KANT, Crítica da Razão Pura, B1). Isso significa que, embora o conhecimento tenha início na experiência, ele depende de estruturas a priori do sujeito para se organizar. A segunda é a faculdade prática, ligada à moral.
Nesse domínio, a razão não depende da experiência sensível, mas estabelece princípios universais e necessários para a ação humana. Diferentemente do conhecimento teórico, a razão prática é incondicionada, pois se orienta pela lei moral. Como afirma Kant: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo
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tempo querer que ela se torne lei universal” (KANT, Fundamentação da Metafísica dos Costumes). A terceira é a faculdade de julgar, relacionada à estética. Por meio dela, o sujeito experimenta sentimentos de prazer e desprazer ao julgar o belo e o sublime. Essa faculdade possui um papel mediador, pois articula a objetividade do conhecimento científico com a universalidade da moral, sem se reduzir a nenhuma delas. Na Crítica da Faculdade de Julgar, Kant afirma que o juízo estético é subjetivo, mas pretende validade universal, pois “o belo é aquilo que agrada universalmente sem conceito”.
Na Crítica da Razão Pura (1781), Kant investiga os limites e as condições do conhecimento humano. Seu objetivo é superar o conflito entre racionalismo e empirismo e submeter a metafísica tradicional a uma crítica rigorosa. Para isso, ele estabelece a distinção fundamental entre fenômeno e noúmeno. O ser humano, segundo Kant, só pode conhecer os objetos tal como
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eles aparecem à consciência (fenômenos), e não como são em si mesmos (noúmenos). Como o próprio filósofo afirma: “Chamamos fenômenos às coisas como aparecem, e númenos às coisas consideradas em si mesmas” (KANT, Crítica da Razão Pura, A249). Essa concepção implica uma profunda mudança na teoria do conhecimento, denominada por Kant de “Revolução Copernicana” da filosofia. Se antes se supunha que o sujeito deveria adequar seu conhecimento aos objetos, agora ocorre o inverso: “Os objetos devem conformar-se ao nosso modo de conhecimento” (KANT, Crítica da Razão Pura, B XVI). O conhecimento passa, assim, a depender das estruturas do sujeito cognoscente.
Segundo Kant, a experiência fornece a matéria do conhecimento, enquanto o entendimento fornece suas formas a priori, responsáveis por organizar essa matéria. Essas formas são, primeiramente, o espaço e o tempo, que pertencem à sensibilidade. Espaço e tempo não são propriedades dos objetos, mas condições necessárias para que qualquer experiência seja possível.
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Kant afirma: “O espaço e o tempo são formas puras da intuição sensível” (KANT, Crítica da Razão Pura, A22/B36). O estudo dessas formas constitui a Estética Transcendental. Além da sensibilidade, intervém o entendimento, que organiza os dados sensíveis por meio de conceitos puros chamados categorias. Essas categorias não derivam da experiência, mas do próprio intelecto. A parte da obra que estuda essa atividade denomina-se Lógica Transcendental.
Para Kant, pensar é julgar, e por isso o entendimento é definido como “a faculdade de julgar” (KANT, Crítica da Razão Pura, A69/B94). O êxito da Revolução Copernicana kantiana reside no fato de que a unidade do objeto na experiência depende da unidade do sujeito pensante, denominada Apercepção Transcendental. O famoso “eu penso” deve poder acompanhar todas as representações, pois é ele que garante a unidade da consciência: “O ‘eu penso’ deve poder acompanhar todas as minhas representações” (KANT, Crítica da Razão Pura, B131). Entretanto, como intuições e conceitos são heterogêneos — as primeiras sendo sensíveis,
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os segundos intelectuais —, é necessário um elemento intermediário. Esse processo é desempenhado pelo Esquema Transcendental, produzido pela Imaginação Transcendental, que permite a aplicação das categorias aos fenômenos.
Kant resume esse ponto afirmando: “Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas” (KANT, Crítica da Razão Pura, A51/B75). Desse modo, Kant demonstra a possibilidade da ciência como um conjunto de juízos universais e necessários, fundamentados em estruturas a priori da razão humana. No entanto, esse conhecimento permanece restrito ao domínio dos fenômenos. A coisa em si não pode ser conhecida, apenas pensada. Essa investigação corresponde à Analítica Transcendental, primeira parte da Lógica Transcendental.
A segunda parte, chamada Dialética Transcendental, tem como finalidade criticar o uso ilegítimo da razão quando ela ultrapassa os limites da experiência possível. Nessa perspectiva, a razão busca o incondicionado e tende a produzir ilusões metafísicas. Kant adverte que a razão, nesse uso, “não conhece objetos”, mas funciona como uma exigência do absoluto que não pode ser satisfeita teoricamente.
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Por fim, Kant distingue o entendimento — como faculdade de julgar —, da razão — como capacidade de silogizar e deduzir conclusões a partir de princípios supremos. Embora indispensável à organização do pensamento humano, a razão deve reconhecer seus limites, tendo o risco de cair em ilusões e erros metafísicos. Assim, a filosofia crítica kantiana não destrói a razão, mas a disciplina, garantindo seu uso legítimo e esclarecido.