Sigmund Freud, o pai da Psicanálise , era grande estudioso, dentre outras matérias, da Antiguidade Clássica Greco-Latina. Nesse sent...

Recordar, repetir e elaborar: Freud e o tempo mítico

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Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, era grande estudioso, dentre outras matérias, da Antiguidade Clássica Greco-Latina. Nesse sentido, não é raro nos depararmos, ao longo da obra do eminente psicanalista, com a presença desse acervo na elaboração da sua metapsicologia, tendo a clínica como campo de observação e de respaldo. Assim sendo, os mitos também fazem parte desse conglomerado analítico, funcionando como subsídio para se entender o ser humano, mais especificamente a sua subjetividade, uma vez que o sentido
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intrínseco do mito reflete manifestações da psique humana, tratando-se de instrumento de elaboração da subjetividade do homem de antanho, portanto, de valor atemporal.

Nesse âmbito, além do arcabouço das narrativas míticas no que tange, sobretudo, ao sentido da tentativa de explicar a origem do que existe — do universo, do homem, da vida, do amor, das estações do ano, da inveja etc. — Freud recorre a significâncias mais profundas do pensar mítico, perceptíveis na dinâmica psíquica humana, o que pode ser verificado, por exemplo, em seu ensaio “Recordar, repetir e elaborar”, de 1914, do qual propomos analisar alguns aspectos.

Mas, antes de adentrarmos esse meandro — assim nomeamos a análise proposta por haver, no texto do psicanalista, a essência do pensar mítico, que intentamos averiguar, relacionando-o com a Psicanálise —, como adendo ao estudo a ser desenvolvido no presente ensaio, a fim de corroborá-lo, citemos, por exemplo, a elaboração do conceito de Narcisismo, nome advindo da figura de Narciso, cuja narrativa mítica chegou até nós principalmente através
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do poeta latino Ovídio, em sua obra Metamorfoses, e que traz, em sua composição, elementos embrionários da formulação acerca do Narcisismo.

Vale destacar, nesse sentido, o paralelismo existente entre Narciso, nos momentos finais do seu drama, quando se depara com a própria imagem no reflexo das águas cristalinas do córrego, sem conseguir reconhecer-se, pois pensa ser outro aquele por quem está apaixonado, sendo, na realidade, ele próprio, ou melhor, a sua imagem, e o estado narcísico do sujeito, presente de modo absoluto na psicose, mas que todos nós possuímos em algum grau.

No primeiro caso, da psicose, a percepção e a interação com a alteridade não ocorrem. O sujeito vive fechado em si próprio, em uma realidade absolutamente interna, sem relação com o mundo externo que poderia desconstruir as suas fantasias caso ocorresse o contato com a realidade exterior, mas o sujeito não consegue, pois está encerrado no universo de si mesmo. A funcionalidade dessas pessoas é comprometida. No segundo caso, há ocorrências dessa natureza, em que a fantasia está presente, mas o sujeito se
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relaciona com a realidade na maior parte do tempo, não havendo comprometimento da funcionalidade e da sua interação com a realidade externa, com a vida prática.

Há também o Complexo de Édipo, tema basilar da Psicanálise, sobretudo no que tange à neurose, cujo respaldo simbólico se encontra na peça Édipo Tirano, do tragediógrafo Sófocles. O ponto de convergência entre o referido processo psíquico e o enredo da tragédia diz respeito à relação triangular entre o pai, a mãe e a criança, que teria o desejo de “matar” o pai a fim de conservar o amor da mãe unicamente para si.

Sem adentrar nas minudências da análise literária, é possível afirmar que Édipo, o personagem, tem um receio religioso quanto a ir para a cama com a mãe, concernente à realização do oráculo de Delfos, não se tratando, no entanto, de Jocasta, mas de Peribeia, sua mãe adotiva, até porque Édipo irá conhecer a rainha, sua mãe biológica, vendo-a pela primeira vez apenas no dia do casamento. Logo, para ele, Jocasta é simplesmente uma mulher, não havendo os vínculos afetivos materno e filial entre os dois. Em uma leitura psicanalítica, seria possível pensar que o receio de Édipo exprime, na verdade, o seu desejo pela mãe, que, quando reprimido na criança, faz surgir o interdito,
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com a entrada do terceiro na relação: o pai. A interdição é a Lei, a castração que se impõe para a constituição da subjetividade.

Quanto à configuração do tempo mítico, ele é arquetípico e cíclico, o que significa o retorno periódico dos acontecimentos naturais ao seu começo, mas como Sísifo, e não como o tanque das Danaides. É o retorno para um novo começo, e não simplesmente uma repetição infrutífera. Dentre outros mitos, encontramos esse mesmo sentido também na narrativa do rapto de Perséfone por Hades, que leva Deméter, deusa dos grãos e mãe da jovem, a ausentar-se por conta do desaparecimento da filha, não produzindo mais alimento para os mortais.

Trata-se de narrativa mítica que explica o surgimento das quatro estações do ano, que sempre retornam anualmente, mas de modo diferente. Esse movimento está na base do pensamento mítico e reflete, exatamente, o arcabouço da psique humana, presente nas etapas cíclicas do recordar, repetir e elaborar, respeitantes à dinâmica da técnica psicanalítica a ocorrer no *setting* analítico ao longo da terapia. É nessa direção que abordaremos o texto
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“Recordar, repetir e elaborar”, escrito por Freud em 1914, relacionando a Psicanálise com o pensamento mítico.

Freud, nesse ensaio, discute, sobretudo, acerca da transferência, elo que ocorre entre o psicanalista e o analisante na relação analítica dentro do espaço terapêutico. Esse elo pode dizer respeito, entre outros pontos, à revivência de padrões antigos adoecedores pelo paciente com a figura do psicanalista, os quais são passíveis de modificação através da ressignificação da experiência vivida anteriormente.

Nesse processo, a recordação ocorre através da repetição daquilo que não está em nível consciente, o reprimido, seja pela rememoração do fato através da fala e da associação livre, seja pela atuação, advindo daí a elaboração necessária para a ressignificação. Freud nos dá um exemplo de atuação na seguinte ocorrência: o analisando não diz que se lembra de haver sido teimoso e rebelde ante a autoridade dos pais, mas se comporta de tal maneira diante do médico. Ele passa à ação, atua com o psicanalista aquilo que, na infância, vivenciou com os pais,
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sendo algo atual, apesar de cronologicamente passado. Uma vez vencida a resistência que se expressa pela repetição, chega-se ao ponto original do acontecimento, passando-se, então, à fase da elaboração.

Chegamos, então, ao ponto de interseção entre o processo analítico e o tempo cíclico do mito, em que se retorna ao início de modo ressignificativo, como ocorre, por exemplo, com Sísifo, já citado anteriormente, que busca uma nova forma de conseguir alcançar o topo da colina a cada descida da pedra. Assim, na análise, a elaboração advém da ressignificação do acontecimento vivenciado, mas não no seu tempo histórico, e sim na realidade psíquica do sujeito, sendo, portanto, atual. Vencida a resistência em acessar aquilo que está reprimido, retorna-se, através do rememorar, pela técnica da associação livre, à origem, quando o evento aconteceu.

Ao situá-lo, acompanhado do efeito catártico, o sujeito integra-o ao lugar a que pertence em sua história de vida e, desse modo, torna-o passado, não mais interferindo em sua vida presente. No mito, a narrativa que se repete, que se
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narra novamente na realização do rito é a busca do retorno, é um eterno retorno, mas nunca do mesmo modo.

Trata-se de um novo começo, como acontece a cada ciclo da natureza, com as suas estações, mostrado pelo mito do rapto de Perséfone. Ou nos ritos de cura, em que o mito cosmogônico é narrado novamente a fim de se buscar o poder regenerador do princípio, em que tudo começou. Algo assim acontece com Odisseus, quando, em seu rito de passagem da infância para a fase adulta, é ferido pelo javali que caçava nas terras do seu avô e tem a ferida curada mediante a aplicação de um unguento e da realização de um rito, em que um canto cosmogônico é entoado a fim de sarar a ferida, regenerando a pele.

Assim, a Psicanálise, cujo objeto de estudo é o ser humano — mais precisamente a sua subjetividade —, pode recorrer aos mitos como rico instrumento para a sua metapsicologia, como bem nos mostra Sigmund Freud.

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