O amigo me mandou algumas fotografias – por correio eletrônico (e por isso mesmo não sei se o nome está correto; essas imagens digita...

E o reboco torna-se pele...


O amigo me mandou algumas fotografias – por correio eletrônico (e por isso mesmo não sei se o nome está correto; essas imagens digitais são “fotografias”? Depois consultemos nosso amigo Aurélio; por hora fechemos o parêntese, literalmente); e chamou aquele álbum de “Uma tarde no centro histórico...”.

Não soubesse eu de que tarde se tratava, diria que aquelas fotografias, de prédios antigos e praças, haviam sido tiradas em paragens distantes, em alguma cidadezinha pacata das tantas terras estrangeiras que ele habituara-se a visitar, dada ausência de alvoroço nas ruas. Porém, aqueles velhos casarões e aqueles singelos jardins estão bem aqui, na nossa cidade, no aludido e esquecido centro histórico. Vendo essas ruas vazias – é domingo à tarde na imagem paralisada pela tecnologia –, onde agora, no centro da ribalta, se destacam as construções – que normalmente são meros figurantes dos astros principais, os transeuntes frenéticos que ali resolvem suas vidas e cumprem suas rotinas humanas nos dias que chamamos de úteis –, percebo como são belas, e que geralmente me passam despercebidas.

Quão formosos ainda, posto que descuidados, os prédios que outrora abrigaram tantas almas que já não coabitam conosco. Naquela casa amarela – será que sempre o fora? –, a da amiga, a moça deve ter-se escondido do pretendente indesejado por desajeitado, ainda que por seu pai abraçado por abastado (permitam-me a aliteração maljeitosa); naqueloutra, azul, o senhor via passar, tenho certeza, da grande janela, as pessoas indo e vindo e inevitavelmente os anos, esses apenas indo, porquanto jamais voltavam os ingratos, na ampulheta perversa da existência (que absurdo! cronista; pois não é você mesmo quem está a descrever a beleza da vida? Otimismo homem, otimismo...). Ah, que belo jardim! Se hoje vendem panelas e pilhas em suas alamedas, outrora casais ali se descobriam – ou se despediam (mania de aliteração!) – e pais orgulhosos expunham o mundo aos seus filhos, e estes àquele, pois inevitável. A igreja: um dia orgulhou-se de ser o prédio mais alto da cidade; já não o é. A divindade foi perdendo espaço para o homem, que se foi amontoando em edifícios.

Assim com as casas, assim com as gentes. Se me aflora a beleza das construções apenas quando em fotos, olvidando-a na pressa da vida, na desatenção com o mundo que me rodeia, na primariedade egoística do que é apenas meu – e não é muita coisa –, não digo diferente das pessoas. Observando aquelas paredes e portas e janelas, olhando detidamente os jardins, passo a ver sorrisos, desalentos e a ouvir vozes. E o reboco torna-se pele; e as janelas, olhos; e as portas, bocas; e a chuva não passa de lágrimas; não tarda e tenho muitos rostos a encarar-me, indagando-me da sua importância na minha vida. As pessoas me rodeiam e me são importantes, mas só as percebo quando as vejo em velhas fotos, quando observo o intangível passado. Felizes daqueles que não precisam das fotos para enxergar o quanto lhes é importante tudo: os prédios, os jardins, as gentes... Não fui agraciado com essa virtude, mas faço uso de ardil para evitar os atropelos da consciência: não revolvo meus álbuns, para que eles não me exponham a fraqueza.


Douglas Antério é advogado e cronista (Campina Grande-PB).
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