“Estão descascando a aroeira” - ele entrou dizendo, logo cedo, ao voltar da calçada que costumava espiar todas as manhãs, feito as borbolet...

Lembranças do que era verde


“Estão descascando a aroeira” - ele entrou dizendo, logo cedo, ao voltar da calçada que costumava espiar todas as manhãs, feito as borboletas que lá voejam. Doido por plantas, flores e folhas, inclusive as secas, em que via uma expressiva mensagem sobre a efemeridade das coisas, Carlos Romero é assim. Um cronista suave feito a brisa que sentia ao visitar esse canteiro, na calçada da rua, onde plantou tantos mimos do qual hoje florescem, além dos pequenos flamboyants, infinitas e gratas recordações.

aroeira
Aroeira da Praia
Curiosos, fomos olhar a aroeira. Realmente, em alguns trechos, haviam-lhe sido estranhamente retirados grandes pedaços da casca de seu tronco. Quando voltamos para o café da manhã, nossa secretária, um tanto entendida da medicina empírica, foi logo dizendo: “Essa planta é boa para o estômago. Fazem chá da casca”. A posologia foi depois confirmada pelo Google e tudo ficou bem, se era para o bem.

E a aroeira continuou sendo despida sem nenhuma vergonha da strip-tease benfazeja às azias e queimações, tampouco dos transeuntes que não se intimidavam em desnudá-la. Mesmo assim, frondosa e verdejante, demonstrava o ar de superioridade merecida e pertinente ao reino de suas espécies. Apesar de tão depredadas e menosprezadas, as árvores sabem que sem elas não haveria vida alguma pela Terra.

poivre rose
Massa com pimenta rosa
Certa vez, caminhando nas vielas de Saint-Paul de Vence, num dos adoráveis périplos pela riviera francesa, e, como gosto de cozinhar, entramos em uma loja de ervas culinárias para comprar uns temperinhos que perfumariam futuras experiências gastronômicas. Depois de escolhidos alguns sachês, entre eles veio um vidrinho com umas bolinhas cor-de-rosa, recomendadas pela moça da loja como saborosas e aromáticas. Ao perceber que éramos brasileiros, disse apontando para o tal recipiente: “essas poivre-roses [no rótulo estava escrito “Baies Roses”] vêm lá do Brasil, vocês não conhecem?” Nos entreolhamos e discordamos. Não, não as conhecíamos. Só depois ficamos sabendo que se tratavam de pimenta-rosa, uma especiaria usada em alguns pratos refinados, polvilhada moderadamente em saladas, canapés, purês e cremes salgados. E o melhor: eram justamente o fruto da aroeira. Aquela cuja casca “é boa para o estômago”.

Claro que papai, patriota como si, ficou todo ancho. Afinal de contas, tinha sido ideia sua plantar uma muda no canteiro da calçada. Agora mais ainda ao saber que ela também era conhecida no exterior, apreciada pelos franceses e vendida até na Côte d’Azur!

aroeira da praia
Tilápia ao molho de pimenta rosa
Já de volta às nossas rivieras, igual ou superiormente melhores do que as outras do mundo afora, os pratos preparados com as pimentinhas-rosas tiveram sabor duplo. Do sutil e aromático paladar e das lembranças de Saint-Paul de Vence.

Um belo dia, para surpresa nossa, já familiarizados com as bolinhas coloridas, descobrimos muitos pés de aroreiras que exibiam cachos e mais cachos exuberantes de poivre-roses, quando pedalávamos pelas trilhas de praias e maceiós do litoral sul. “Olha só!” - exclamamos – “serão elas?” Depois de provar e comprovar, enchemos os bolsos. Sim, eram elas, as próprias. Sem precisar dos euros. Apenas pelo custo dos arfantes e renovados pulmões, cheios de ar puro com gosto de mar.

Em outras viagens, achávamos graça vê-las nas prateleiras das épiceries, custando alguns euros e agora, para nós, só o prazer das brisas tropicais.

Mas a lição que ficou não tem apenas o sabor da pimenta, que nem arde, e nem das boas e eternas lembranças de viagem com a família, sempre em torno do amado pai. Veio junto com a realidade que se evidencia na negligência perante os tesouros nativos que se extinguem com a indiferença e a voracidade do progresso desenfreado e sem controle.

Com as aroreiras, estão indo embora de nossas vistas, saúde e paladar os pés de guajirus, de maçaranduba, pitombeiras, mangabeiras, pitangueiras. Tristes, testemunhamos jardins e quintais, falésias e matas nativas dando lugar à inexorável expansão urbana. Tudo se preparando para ser visto, num futuro sombrio, apenas por fotos ou lembranças do que era verde...


Germano Romero é arquiteto e bacharel em música
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  1. Sempre que leio seus textos, sinto-me como no dia em que, zanzando em São Paulo, a pé, deparei-me com um Rolls-Royce numa vitrina. Anos depois, pintei um quadro, em que um operário tenta tocar no que vê tão perto e tão inacessível quanto a tela de Velásquez.

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  2. Gilberto Freyre, tão cioso e orgulhoso das nossas coisas regionais, certamente assinaria em baixo de sua crônica, Germano. Muito bem. Francisco Gil Messias.

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