No mês de julho de 1922, o Engenho Baixa-Verde estava com as enseadas cobertas de canaviais. Os paus-d’arco floridos infestavam as abas das...

O Baixa-Verde dos aromas, das cores e da alegria


No mês de julho de 1922, o Engenho Baixa-Verde estava com as enseadas cobertas de canaviais. Os paus-d’arco floridos infestavam as abas das serras, o flamboyant coloria o terreiro e à noite o vento zunindo na cumeeira da casa grande testemunhava o nascimento Hermano José.

Engenho Baixa-Verde
O menino cresceu sentindo o cheiro da terra, do bagaço da cana e o perfume das flores, saboreando doces frutas e olhando a mata quase escondendo a casa grande e o que restava da senzala do engenho.

Muita coisa ali mudou desde o seu nascimento, mas a terra se mantém engalanada, pássaros em menor intensidade, e em torno da casa adormecida o vento continua soprando por entre as serranias cobertas com rala vegetação.

O poeta permanece no meio de nós por meio da sua pintura, porque preservou o olhar para a paisagem de Serraria, que dividia com Caiçara, outra cidade onde viveu nos primeiros anos de vida. Tudo o que observou, ele transportou para os quadros pintados no decorrer de nove décadas de vida.

O trabalho dele está abalizado na beleza poética captada pelo olhar místico para as inspiradoras paisagens da infância e da adolescência. Numa referência a um poema, podemos dizer que artista como ele “só se tem uma vez”. A arte é que fica. Sua arte perpetuará sua presença no meio de nós. Ele está na arte que concedeu, por isso eternamente ficará em nossos corações.

Hermano José
O centenário do seu nascimento se aproxima, portanto é bom começar a pensar no que fazer, afinal, sua contribuição para as artes plásticas e a cultura da Paraíba foi inolvidável. Inquieto, incitava o debate pela preservação de nosso patrimônio imaterial e arquitetônico.

Uma bonita celebração deve ser preparada, fazendo do engenho palco de manifestações alusivas ao seu nome. Ao Estado caberá capitanear o elenco de eventos em torno de Hermano José, num reconhecimento ao trabalho realizado para tornar a Paraíba ainda mais conhecida por meio da arte.

Podemos dizer que Hermano tinha o olhar ao transcendental, como que buscando respostas para perguntas que inquietam muita gente.

Tinha consciência do seu papel na preservação da vida e na construção da fraternidade. Percebia que as pessoas destruíam-se, destruindo o ambiente onde vivem, mas achava que ainda havia tempo para recuperar o mal causado à Natureza, de modo que a nossa geração “tivesse a condescendência para com as gerações futuras”.

Para nos redimir do silêncio em torno do seu trabalho, busquei a citação dele quando disse que “basta olharmos as florestas, os rios, os mares e o céu, e teremos parâmetros para conhecermos nossos limites”.

Seu mundo foi construído na paisagem agreste de Caiçara, mas em Serraria captou a paisagem que alimentou sua vida. “O Baixa-Verde era o lugar dos aromas, das cores e da alegria”.



José Nunes é cronista e membro do IHGP
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