Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. ...

O céu na terra

Alberto Lacet Ambiente de Leitura Carlos Romero

Mesmo os urubus mais antigos – Segundo Seu Axessio Pordeus, alguns chegando a viver dez, doze anos --, não tinham memória de seca daquela. Mas tinham, isso sim, começado a cair, de tão gordos. Simplesmente despencavam do alto e esborrachavam o papo no chão. Nos lajedos. Na lama esturricada da vazante.

alberto lacet conto nordestino ambiente de leitura carlos romero
Ouviram falar disso, de primeira mão, na manhã em que as mulheres da Cooperativa de Doce passaram por lá, carregando seus cestos e varas, para a coleta de umbu. Traziam cabeça e braços enrolados em panos para se proteger dos espinhos, e foram elas a dar a estranha notícia de um deles, já seco e encalacrado na galhada de um umbuzeiro. A uma delas pareceu que um bicho, Timbu Ela disse, o varrera por dentro.

No dia seguinte, Edmundo veio dos matos dizendo ter esbarrado com um deles espetado no alto de um grande cacto. Coisa feia, pra cristão nenhum botar defeito. O bicho pendia de lá feito um crucificado, ele disse. Do Quixadá à Mombaça, se ouvira falar em troço mais esquisito? Em compensação, o gado vinha se evaporando no ar. Pudera.

Ainda não nascera urubu que desse conta de tanta mortandade. E a pestilência. Nem dava vontade de pegar Tejuaçu desprevenido lambendo ossada. Viam aquele rabo saindo de dentro da carcaça do boi e passavam tampando o nariz. E havia, como se não bastasse, os velhos urubus de dois braços.

Estes, acabam sempre comprando o que querem a preço do que bem entendem que seja o valor: gado em estado razoável para engorda no Maranhão, Pará, lugares onde nunca falta chuva, e depois, aumentando seus lucros através de carros-pipa, com a venda de água dos açudes que o governo tão bem soube construir em suas propriedades.

Quando acontecia fazer distribuição gratuita dessa água, já viu: é tempo de eleição e estão de olho no teu voto.

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Havia muita ruindade nesse mundo. D. Gertrudes, às vezes com a boca e a bochecha cobertas pela palma da mão, o cotovelo lá na frente empurrando-a para dentro como a tampar um grito enorme, observava Edmundo tentando cortar uns restos de palma forrageira, uns cambões de milho ressecado, trazer um pouco de água barrenta para as galinhas – e o que podia ela pensar, a não ser coisas do tipo que disse uma vez ao Armínio, seu irmão.

Virgem mãe, menino tão bom, trabalhador que só / Andar assim no desamparo, caído na maior tristeza / Pensando em ganhar o mundo, ir atrás do pai / O que vai ser disso tudo, meu Deus

D. Gertrude bem que se preocupava. Era sem maldade nenhuma, o rapaz, e tinha visto muita coisa feia desde que o pai se fora, junto com as chuvas. Sabia ela, porém que nem a ausência de Miguel havia custado para ele tanto quanto a morte de Relâmpago. Aquele alazão de punhos brancos fora até ali o xodó de sua vida. Quando fez 15 anos, ganhou do pai, que lhe alisou os cabelos da cabeça, e falou: Meu fio agora já é home, pode ter cavalo.

O menino e seu cavalo: parecia que os dois gostavam de exibir o apego tido pelo outro. Bastava que estalasse os dedos, e o animal já se achegava, roçando-lhe o focinho no ombro.

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A definhar, começou muito depois do pasto acabado, apesar dos cuidados que lhe devotava o menino. Mas, jeito, que é bom, não teve. Chegou uma hora de dar tristeza se ver. Foi chegando naquele ponto terrível em que o animal bruto se move com dificuldade. E isso para quem um dia tinha ganho o nome de Relâmpago.

Começou então a ser atacado por morcegos de sangue. À tardinha, eles são vistos saindo de uma grande fenda no Serrote do Mulungu. Às vezes, na sede medonha, chegavam a morder no mesmo local já virado bicheira. O menino lia a agonia nos olhos de Relâmpago ao lhe passar creolina nas feridas.

No dia combinado, o tio Armínio chega logo cedo e, pouco depois, Edmundo desce para apanhar na vazante uns ramos de quebra-pedra que a mãe resolve, de repente, lhe pedir, no que Armínio, apressado, passa uma corda no cavalo e o conduz para o sacrifício, no lugar da cova já pronta.

Quando o rapaz volta e dá pela falta do animal, inquire prontamente a mãe.

Menos pelo que dela ouviu, e mais pelo que ela não disse, entendeu tudo e saiu feito louco, correndo mundo à fora, numa última tentativa desesperada de salvar o amigo. A partir daquele dia, nunca mais foi o mesmo Mundinho de alegria pronta, sorriso fácil.

Naquela casa não se falava no assunto. Mas, a conselho de Armínio, D. Gertrude andara enxergando o que fosse, talvez, uma maneira de tirar Edmundo do transe maligno: compraria uma moto para ele. Da última vez em que fora na cidade, é quase atropelada por uma delas, que assustavam as ruas feito enxame de abelhas. Estava Armínio se informando de preço. Prestação.

Faltava somente escrever para Miguel e pedir consentimento para derrubar o Cedro por ele plantado no baixio, há coisa de uns de vinte anos atrás, e que, segundo Armínio, já devia ter entrado em tempo de corte. O pagamento de entrada até que poderia vir da venda dos arreios do cavalo, um luxo de especial qualidade, fruto daquele mimo de pai em tempo de fartura. Era questão de apertar um tantinho aqui, tantinho ali.

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Já os urubus começavam a demonstrar cautela na hora de alçar voo.

É que tinham dificuldade, em certos momentos, de se mover adequadamente no meio do bando, com vistas à arrancada de decolagem, conforme explicou seu Miguel, faz um avião, como o que pegou para o Rio de Janeiro, para tanto indo de ônibus até Fortaleza.

É que já nos primeiros sinais de que a coisa podia ficar feia, seu Miguel não quis mais saber de conversa. Pegou pela corda o melhor garrote que tinha, montou Relâmpago e marchou as três léguas da grande que o separam de Mombaça, levando o animal para a feira.

Quem tem sorte puxa por ela, diz o ditado, e talvez ele nem tivesse conseguido a venda, muito menos fazer o bom negócio que fez, segundo ele mesmo disse, sem a inesperada passagem do beato Zezinho por Mombaça, uns dias antes.

Zezinho da Coroa Grande (Coroa Grande é o nome de um rochedo do Araripe, nele o beato cumpriu 10 anos de penitencia, jejum e toda sorte de mortificação. Não cortava o cabelo, que, de enrolado crescia para cima. A barba avançando para os lados. Um dia, ele desce do penedo e faz aparição em público. Veste uma bata branca surrada que traz, na altura do peito, uma cruz e uma coroa pintadas com sangue de carneiro) havia passado por aquela paróquia e provocado grande comoção em prece coletiva, razão pela qual a maioria dos habitantes mantinha esperança nas chuvas – fundamental para a boa venda do garrote.

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Mas, por via das dúvidas, não quis seu Miguel ficar esperando pelo dia de São José só para ver a boca de fogo que, naquele dia se postou escancarada num céu esquecido de riscar pelas nuvens. Certo ele. Possuía já aquela fama de homem sabido. E isso se provou uma vez mais. O dinheiro do garrote deu de sobra para a passagem de avião, por aqueles dias mais barata que se fosse de ônibus.

D. Gertrude bem que reconhecia o tirocínio do marido, que, além do mais, sempre que ia a feira de Mombaça, não deixava de passar na farmácia de Seu Axéssio Pordeus, para aquele dedo de prosa. Esse homem da farmácia, Virgem Nossa, guardava a fama de ser sabedor de tudo que nesse mundo fosse viver ou já tivesse. Saído dessas conversas com ele, Seu Miguel já vinha preparado para o que de bom ou ruim era de vir por aí.

Sem contar com homem tão precavido quanto ele, com esse costume benigno de se adiantar às adversidades, teria sido difícil prever a sorte da família, pois uma vez por mês, lá se ia Edmundo para a rua, pegar o vale postal e o dinheiro depositado pelo pai na agência dos Correios. Tudo somado, iam pagando as contas do mais indispensável.

Era água de carro-pipa, comida, leite em pó para o menino da Otília. Mas, o que vinha ficando difícil mesmo, era enxotar tanto urubu.

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Estavam por toda parte, e aqui e ali, se ouvia o baque de um pouso forçado. Os danados já não tinham por que ficar espiando daquele azul distante do céu, na eterna ronda das carcaças, conforme são avistados cá debaixo, numa daquelas formações silenciosas que lembram cena de bombardeio aéreo em filme de cinema mudo, como aquele passado na parede da igreja matriz, no Crato, por aquele homem cego, tal de Aderaldo. Mas, o que parecia de fato era que a terra tinha perdido de vez a vergonha, e com ela, se fora o último receio desses rapinantes.

Ficavam por ali mesmo, no chão, ou, uma vez saciados, enfileirados em uma quina de lajedo, pelos moirões de cerca, e isso de voar, para que, mesmo, se uma simples caminhadazinha, naquele andar de molejo apapagaiado, talvez fosse o bastante para apressar a digestão. Notava-se que alguns, de tão gordos, pagavam o preço da gula ao ter de deixar o andar serelepe, aos pulinhos, e pareciam agora avançar melhor num andar enviesado, alternando-se para um lado e outro. Importando para eles se deslocar, sair do canto.

E depois, entre uma providencia e outra, fosse bicar uma larva debaixo da asa, fosse enxotar algum intruso de olho na companheira do lado, logo, logo, estaria chegando a hora de nova e bem-vinda refeição.

Melhor não se aventurar nas alturas, de papo já cheio.

Mais recentemente, um daqueles urubus, acima do peso, vai e despenca sobre a casa. Cai feito um meteoro, no fundo da sala; e lá fica se estremunhando entre cacos de telha, deixando em cima aquele buraco de se ver o céu. Foi susto grande, cena de cair o queixo. Do quarto grande dona Gertrude tinha escutado o baque e, por pouco, não tem um troço ao ver o desmantelo. O bicho ali, nos estertores, se estrebuchando na sala. A mulher, de rosto esticado pelo nojo, pega o animal por uma asa, vai pela porta de trás e o atira moribundo embaixo dos aveloses, que passam atrás da casa

Somente elas sabem o que é sofrer debaixo de temperatura tão infeliz de quente
Apesar do susto, até agora ninguém se animou a conserto do telhado, por ser goteira seca, sem chuva. Mas foi a partir dali que um poderoso tubo de luz se estabeleceu naquela sala, e com seu movimento silencioso passou a servir, ao menos, de relógio.

Invariavelmente, o marcador de luz lambe os pezinhos de ferro do aparador por volta das 9 da manhã. Lá pelas 3 da tarde, estará se afastando da bacia de lavar as mãos, nessa altura, já bem quente.

Isto veio a acontecer depois de um bando deles se aproximar da casa, andando e pulando pelo terreiro em volta. Dado ninguém aparecer para o combate, foram ficando, o que atraiu mais e mais parceiros. Edmundo tinha descido ao baixio, para arrancar umas batatas fora de época, e D. Gertrudes até quis enxotá-los, aos gritos, lamentando-se por não ter água quente que lançasse na direção do bando, mas acabou desistindo. É que, numa hora, bateu-lhe o medo.

O resultado disso foi que tomaram conta do entorno, e sem dar muita bola para o cachorro que, às vezes, late mais para bater ponto, ameaça uma investida ou outra, e, daquele urubu que no momento pretende acossar, consegue colher no máximo um curto salto alado, para o alto e para trás, e que a gente vê que foi executado quase à contragosto, embora sob perfeito controle do jogo de asas abrindo e fechando no tempo certo, num ligeiro recuo de urubu que é quase passo de dança, e que pouco se demora para voltar a ocupar a nesguinha de terreno cedido.

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Quando percebe que não consegue nada, e vem sendo perigosamente cercado, o magricela do cachorro volta para o seu canto, e, de lá, arengando com as moscas, fica vigiando o bando invasor por um canto do olho – que, nesses momentos, parece meio enlouquecido.

De volta para casa, abrindo caminho do terreiro para a porta, e bastante espantado com a cena, Edmundo foi direto pegar a espingarda na despensa. Mas, aí, lembrou-se de que não havia pólvora (gastou-se a última no sacrifício do cavalo). D. Gertrudes o viu naquele espanto e falou:

Uma coisa dessas só pode ser sinal de grande castigo, meu fio / Tenho muita é dó dessa gente que só pensa no mal / Mazela desce á terra pra pagar língua de poderosos / O céu pega fogo porque há muito pecado na terra.

Neste momento, no canto da sala, o sol está pegando em cheio na bacia de lavar as mãos. É meio-dia, então, e, vez em quando, a luz oscila se o tubo de luz é rapidamente interceptado pela sombra de um dos bichos, que botou a cabeça no buraco da telha para espiar de lá. Pelo terreiro, deixou de ser novidade a massa de dorsos negros, curvos e separados por pescoços parecidos com cabos de bengala, e, de dentro da casa, tudo que se escuta agora é um contínuo gorgolejar, vindo de fora.

Aquela constante abanação de asas na fornalha do meio-dia.

Ficam agora em grandes bandos espreitando a sombra da casa que cumpre seu translado, movendo-se com ela.
Esse ajuntamento faz a gente pensar num plano sinistro. Não será que cercaram a casa e estão agora apenas aguardando uma ordem a vir do alto, sinal descido dos céus, quem sabe na figura poderosa de um Urubu-Rei, para começar o ataque?

Talvez por isto, Edmundo tenha ido ao quarto dos fundos, subido em um tamborete e retirado do vão entre a parede e as telhas sua baleeira de caça. Ele falou para a mãe que ia na rodagem, apanhar uns seixos. Ela estendeu-lhe o chapéu de palha – Está quente, Mundinho – Disse. Em seguida, Edmundo saiu pela porta da frente, de encontro à massa escura.

Ameaçou algumas pernadas a esmo, e se foi. Levava, atravessados no peito, dois bornais vazios. Foi ele saindo e sua mãe fechando também a porta de cima. A rodagem fica a uma meia légua de distância.

Mas, o que não se leva em conta é que essas aves, com sua roupa preta, monótona e desagradável, se têm que agradecer, por um lado à providência da seca que lhes garante comida farta, por outro, somente elas sabem o que é sofrer debaixo de temperatura tão infeliz de quente.

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Ficam agora em grandes bandos espreitando a sombra da casa que cumpre seu translado, movendo-se com ela. É o jeito encontrado de fugir ao sol inclemente, já que a maioria das árvores se escarificou na seca. Culpa também não têm de serem vistos pelos moradores da região somente como adivinhadores de desgraça. Basta olhar para o umbuzeiro do outro lado do caminho que passa em frente à casa. Como nunca perde a copa, sua sombra vive agora inteiramente ocupada por eles.

Os da extremidade ficam se espremendo, e se bicando na briga por um naco de sombra. Sabe-se lá. Uns anos mais nessa brincadeira e a raça do bicho acaba evoluindo. Talvez sejam até aproveitados num futuro nem tão distante para ajudar na limpeza pública – emprego que, segundo falou seu Axéssio para Seu Miguel, já foi um dia ocupado por porcos, num tempo de há muito passado. Distante de toda lembrança.

Ao chegar da feira, Seu Miguel contou, com desassombro, essa estranha história de que um dia foram usados porcos na limpa das aldeias. Acrescentou ainda que não se podia desconsiderar, ou mesmo blasfemar contra um dote que houve de nascer um dia, na graça de Deus, benigno, e que houve de ser apanhado pela raça de urubu, sabe Deus quando. Derna, quem sabe, do primeiro ninhal do tempo, quando o homem se tomou no destino de tanger porco para dentro de chiqueiro, que dali nunca mais saiu.

Datando, pela conversa que ouviu de Seu Axéssio, da primeira vez em que esse mundo se acabou, tendo explodido por dentro devido ao tantão de vida que fervilhava nele, e tanto por dentro quanto por cima.

Num jeito bem seu, Dona Gertrude tentava explicar para Edmundo o relato escutado do marido:

Pela manhãzinha, meu fio, era já de assoprar aquela malignidade rasteira/ Boquinha da noite se alevantava e era o mundo varrido pela ventania dos mortos / Daquele tempo de antão inté dias de hoje, meu fio / Peleja a boca da terra sem dá conta de todos seus perecidos.


Alberto Lacet é artista plástico e escritor
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  1. Gostei muito desse conto de Alberto Lacet. Leitura que flui sem tropeço pelas artérias da alma.

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