Uma assinatura de Getúlio Vargas vai completar 77 anos. É a da Portaria 4.744 que em 9 de agosto de 1943 criou a Força Expedicionária Brasi...

A guerra do “Senta a Pua”

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Uma assinatura de Getúlio Vargas vai completar 77 anos. É a da Portaria 4.744 que em 9 de agosto de 1943 criou a Força Expedicionária Brasileira, a FEB da cobra a fumar. A providência permitiu o desembarque de mais de 25 mil brasileiros na Segunda Guerra Mundial.

Todas as unidades da Federação, Paraíba no meio, estavam representadas nos oito sucessivos escalões de oficiais e soldados despachados para a Itália. E foi de uma garganta paraibana que surgiu o “Senta a Pua”, brado de guerra de 400 integrantes da nossa Força Aérea, a FAB tantas vezes reverenciada.

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O envolvimento direto do Brasil nos atos de guerra decorreu de acertos entre Getúlio e Franklin Roosevelt, o presidente dos Estados Unidos desembarcado em Natal, naquele janeiro de 1943. As tropas nacionais, depois disso, ganhavam treinamento, armas e munição, enquanto o País recebia grana alta e assistência técnica para a criação da Usina Siderúrgica Nacional.

Natal foi um de Paraíso na Terra para os contingentes da Base que Tio Sam montou em Parnamirim. Local estratégico em virtude da aproximação com a África e com importantes frentes de batalha na Europa, esse recanto do Nordeste via o pouso e decolagem de uns 300 aviões por dia, ao que li.

E, tanto quanto isso, via os primeiros bikinis (oficiais americanos aqui chegavam com suas famílias) e as primeiras coca-colas, antes que o restante do Brasil disso tomasse conhecimento. E advinhem quem, em território nacional, mascou os primeiros chicletes?

A grande retribuição – pelo menos, aos solteiros – ficava por conta da campinense Maria Boa, a dama da noite natalense, para desespero dos boêmios locais que não ganhavam nem gastavam em dólar. Em razão dos relevantes serviços que suas moças prestavam aos visitantes, ela chegou a ter o nome estampado num B-25, o avião poderoso que fazia estragos nas tropas de Hitler, Hiroito e Mussolini.

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Mas vamos ao “Senta a Pua”, expressão de uso ocasional, ainda hoje, entre os mais velhos. Significa “mete o pé”, ou “baixa o cacete”. E assim já era nos anos de 1940, de turbulência universal, quando foi tomada do paraibano Firmino Ayres, então um tenente-aviador em serviço na Bahia.

Firmino não chegou a embarcar para o teatro da guerra. Tampouco, eu que nem era nascido. Teve ele, porém, a expressão – usada para apressar o motorista – inscrita na fuselagem dos P-47 Thunderbolt, uma das importantes armas contra o nazifacismo.

A irreverência, o jeito desengonçado, a aversão à polidez e o costume de tratar todo mundo por “Zé” fizeram de Firmino Ayres uma figura notável. Isso, certamente, ajudou na adoção, pelos companheiros de farda, daquilo que mais traduzia seus modos.

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Autor de antiga homenagem ao 22 de Abril, Dia da Aviação de Caça, o então senador Romeu Tuma (PTB-SP) transcreveu, no Senado Federal, o artigo “O mais longo dos dias”, do tenente Alessandro Silva. Ao que foi dito, o “Senta a Pua” aportou no Panamá com três voluntários baianos ao 1º Grupo de Aviação de Caça, que ali fazia treinamento antes do embarque definitivo.

Dali, seguiu para os Estados Unidos onde os voluntários teriam o primeiro contato com os P-47. Já na Itália, a expressão ganhava força e se transformava no brado de guerra dos brasileiros.

Segundo o relato, o capitão Fortunato Câmara de Oliveira foi quem imaginou o símbolo composto pelo avestruz de boné, a pistola e o Cruzeiro do Sul. A ave, tanto por sua velocidade quanto pelo estômago de ferro, justamente aquilo de que a moçada precisava para digerir a comida servida a bordo do UST Colombie, o navio de transporte até a Europa.

Boa parte dos paraibanos lembra-se de Firmino Ayres, já brigadeiro, como chefe de Polícia do governador João Agripino. Era a época das greves estudantis e do Ato Institucional nº 5, o mais draconiano dos instrumentos da ditadura militar.

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Dom José Maria Pires havia obtido do governador o compromisso de que a Polícia não reprimiria uma passeata da meninada em protesto contra a prisão de estudantes. Mas não foi o que aconteceu. O grupo terminou disperso a golpes de cassetete quando se aproximava do Ponto de Cem Reis, no Centro de João Pessoa, relembrou-me, tempo atrás, o amigo Gonzaga Rodrigues.

Ao ver que uma baioneta cortara a blusa de uma colegial a ponto de arranhar-lhe o peito, Gonzaga foi ao gabinete do governador, alarmado: “Sua Polícia está espancando estudante”. E saiu dali convicto de que Polícia nenhuma, naquela ocasião, obedecia a qualquer comando que não fosse o do Exército. A guerra era outra, mas a essa última eu fui com a farda do Liceu Paraibano.


Frutuoso Chaves é jornalista
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