Comecei a aprender matemática em casa, com as primeiras letras. Logo entrei para o Primeiro Ano A, na escola de Dona Carmita, na Praça da I...

Mania de calcular

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Comecei a aprender matemática em casa, com as primeiras letras. Logo entrei para o Primeiro Ano A, na escola de Dona Carmita, na Praça da Independência, quando a tabuada entrou definitivamente em minha vida.

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Como a maioria das crianças, iniciei a vida detestando a matemática. Eu acho que se devia à obrigatoriedade de aprender tabuadas decorando os números. Logo eu, que nunca gostei de decorar, preferindo o raciocínio. Mas cresci e descobri que a chatice da matéria podia ser diferente. Pois aprendi a regra do noves-fora, o que já tornou a matemática mais interessante. No final da infância, um episódio pode ter me feito mudar.

Quando eu tinha 10 anos, recebemos a visita de duas irmãs de papai, que moravam no Rio de Janeiro, tia Lourdes e tia Nevinha. Elas tinham acabado de fazer uma excursão à Terra Santa, e trouxeram para mamãe um crucifixo que continha uma lasca da cruz de Cristo!

Na minha cabeça ingênua de coroinha, cheia de catecismos, tendo feito recentemente a Primeira Comunhão, olhei embevecido para aquela relíquia... e fiquei imaginando o sofrimento de Jesus Cristo naquele objeto.

Anos depois, com meus 14 anos, já adolescente, recebemos novamente a visita das tias, recém-chegadas, mais uma vez, da Terra Santa. Trouxeram para mamãe um rosário com outra lasca da cruz de Cristo!

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Na minha cabeça de adolescente, olhar cretino, observei aquele objeto religioso, e de repente passei a imaginar. Comecei a fazer cálculos. Multipliquei aquele pedacinho pela quantidade de devotos que freqüentavam Israel. Daí multipliquei pelo número de anos, desde o Ano 33 da Era Cristã, e cheguei a uma conclusão interessante: a cruz de Cristo devia ter 18 andares!

Claro que mamãe não gostou nadinha dessa minha conclusão. Pior ainda por eu ter dito às minhas tias, que ficaram horrorizadas. Acho que foi porquê ela não gostava de matemática, embora anos depois tenha se revelado uma talentosa investidora.

A partir daí a minha mente não parou mais. E a matemática passou a ser a minha companheira do silêncio, dos momentos de tédio ou de aflição. Como vocês logo verão.

Aprovado no exame de admissão ao ginásio (Ensino fundamental) entrei num mundo novo: a matemática do curso ginasial. Frações, matrizes, raízes quadradas e de todas as formas possíveis, porcentagem. Porcentagem? Ah, que prazer! Tornou-se a base da estatística, a melhor matéria do curso básico para medicina.

Crescendo, já na terceira série ginasial, com o Irmão Geraldo aprendi a montar equações, vindo a saber depois que isto me acompanharia por toda a vida. Finalmente na quarta série superei totalmente todas as barreiras psicológicas, e adotei definitivamente a matemática.

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Chega o curso científico (hoje Ensino médio), e pelas hábeis mãos do professor Sebastião Ferreira aprendi física. Descobri os vetores, a cinemática, a ótica. Depois vieram a química e a biologia, com suas fórmulas e seus códigos genéticos. Ou seja: cada uma com a sua própria matemática.

Na classe vizinha, no Liceu, havia duas irmãs inseparáveis. Os colegas apelidaram-nas de Seno de Alfa e Cosseno de Beta. Outro, magrinho, apelidaram de Co-secante. E o colega enrolão não podia ter outro apelido: Tangente!

No curso médico descobri o prazer do uso infinito da estatística. Que se tornou essencial para mim, tanto no desempenho profissional como na minha vida, em geral. O lado triste é o cálculo diário de vítimas de bala perdida e de confrontos com a polícia, na grande maioria jovens, pobres e pardos.

Na vida profissional o que não tem faltado é a aplicação prática da matemática. Em todas as atividades médicas, de todas as especialidades, nós utilizamos a matemática. Na obstetrícia, por exemplo, levamos nove meses para nascer.

Especialmente a cardiologia também usa a sua matemática. Por exemplo: a interpretação do eletrocardiograma exige conhecimentos de trigonometria e de vetores, expressos em valores numéricos.

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Uma parada cardíaca gastará tantos miligramas e nano gramas de adrenalina, atropina, noradrenalina, soro fisiológico. Pressão venosa central e pressão arterial estimadas em tantos milímetros de mercúrio.

A gasometria arterial vem carregada de números. Assim como o cálculo de D-dímero, da PCR e da troponina, tão importantes no diagnóstico, ou na exclusão deste. O cérebro só suporta até 6 minutos em hipóxia. Depois disso os neurônios começarão a morrer.

A matemática é vida, é o dia-a-dia. Para onde olhamos a enxergamos. Chegamos ao museu do Prado e vimos os quadros de Picasso da fase cubista. O Palácio do Planalto se destaca pelos arcos futuristas. O teto dos corredores da Abadia de Fontenay, na Borgonha, por arcos belíssimos, porém antigos.

Se por um lado na natureza encontramos linhas retas, por outro os alvéolos dos favos de mel são hexagonais. Mas eu acho que a estrutura dos cristais também foge a essa regra.

Tudo é possível de ser contado. Quando sou obrigado a comparecer a algum evento chato, missas, solenidades com discursos quilométricos, eu começo a contar, a elaborar equações, a fazer estatísticas.

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Conto quantos metros tem a parede da frente, e a parede ao lado. Dessa forma calculo a área. Incorporando a medida da altura obtenho o volume do ambiente. Depois conto quantas pessoas estão presentes. Assim já estou chegando à densidade demográfica por metro quadrado. Calculando quantos estão sentados e quantos estão em pé chegarei à estatística. Depois quantos estão dormindo e quantos acordados.

Alguns podem até chamar isso de TOC. Mas isso nem me toca: é fascinante!


José Mário Espínola é médico e escritor
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  1. Ângela Bezerra de Castro6 de julho de 2020 11:17

    É incrível esse texto . Se os professores de matemática chegarem a ele, vão levá-lo para todas as classes. Jamais imaginei que alguém pudesse falar de matemática nesse tom. Excepcional!

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