Fala-se da melancolia como um novo mal do século, mas ela é tão antiga quanto o próprio homem. Pode-se dizer que o que nos inaugura, em ter...

A máscara de Narciso

ambiente de leitura carlos romero chico viana narciso mitologia melancolia tristeza interior

Fala-se da melancolia como um novo mal do século, mas ela é tão antiga quanto o próprio homem. Pode-se dizer que o que nos inaugura, em termos simbólicos, é a tristeza consequente à “primeira transgressão”. Essa tristeza nos estrutura e nos reinventa.

Sucumbimos ao apetite pelo fruto proibido e em troca ganhamos o arrependimento, o selo de nostalgia que nos faz encarar continuamente a face do abismo, o outro lado de nós mesmos, a sombra da morte (contra a qual se recorta a vida em seu provisório esplendor).

ambiente de leitura carlos romero chico viana narciso mitologia melancolia tristeza interior
Perder é o nosso destino e em nenhum momento nos alheamos disso. Vestimos os disfarces da alegria mas somos substancialmente tristes, herdeiros de Belerofonte, o patrono da grei dos melancólicos na cultura ocidental. Ele teve a ousadia de desafiar os deuses e acabou ficando sozinho, “cantando sobre os ossos do caminho/ a poesia de tudo quanto é morto” – conforme dirá séculos depois Augusto dos Anjos.

Aristóteles destacou o refinamento perceptivo do melancólico, que teria mais aptidão do que os outros homens para as atividades do pensamento e da arte. O que o acomete é um desequilíbrio humoral (discrasia); nele o humor negro (melaina kole) prepondera sobre os outros humores. Mas, para o estagirita, ser dosadamente triste é vantajoso.

Foram os românticos que descobriram (e valorizaram) o charme da melancolia. Com eles a tristeza e o tédio viraram pose e se transformaram numa escolha de vida (e também de morte). Divinizavam a mulher para colocá-la fora do seu alcance. Embora dessem a entender o contrário, eles fugiam do prazer erótico, ao qual se associava a angústia decorrente do sentimento de culpa. O amor romântico era uma maldisfarçada vitória de Tânatos.

Veio a modernidade e, com ela, Freud. Entre as muitas intuições que teve o mestre vienense, destaca-se a de que o melancólico está de luto. Tão simples, mas só ele viu.

ambiente de leitura carlos romero chico viana narciso mitologia melancolia tristeza interior
Ou, se outros também viram, foi ele quem melhor formulou a ideia da melancolia como resultante de um luto por si mesmo (uma defecção do ser, como diz Julia Kristeva em “Sol negro”).

O mecanismo é distinto do que ocorre no luto normal: ao perder o objeto (que pode ser uma pessoa, um ideal, um valor), o sujeito se identifica com ele. E passa a tratar a si mesmo com o ressentimento que deveria ser destinado a quem o abandonou. Desprezado, o sujeito julga que não merece o afeto ou o interesse de ninguém. Perde a autoestima e se abisma numa tristeza que pode culminar no suicídio – uma forma de matar, enfim, esse outro cuja sombra caiu sobre ele.

Seja na perspectiva da teologia, seja na da filosofia ou na da psicanálise, que vê o melancólico como vítima de um jogo de forças no qual o objeto triunfa sobre o eu, ressalta-se a concepção da melancolia como uma crise do indivíduo, da subjetividade, enfim, do próprio ser. Mas é ela que orienta a nossa busca para um absoluto que desejamos, fantasiamos, e que também está em nós. Para além da triste máscara de Narciso.


Chico Viana é doutor em teoria literária, professor e escritor
COMPARTILHE
comente via facebook
COMENTE

leia também