O latim está em toda a parte. Às vezes, quero me esconder dele, mas não adianta, ele sempre dá um jeito de se mostrar. Embora considerada, ...

Do imposto à gastronomia

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O latim está em toda a parte. Às vezes, quero me esconder dele, mas não adianta, ele sempre dá um jeito de se mostrar. Embora considerada, por muita gente, uma língua morta, a realidade me diz que ela não só está viva, mas goza de muito boa saúde.

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Como exemplo, gostaria de trazer duas histórias dessa língua, que se encontram imiscuídas em nossa cultura. A primeira diz respeito ao imperador Vespasiano (69-79 d.C.). Depois de mais uma guerra civil em Roma, cujo gatilho foi a morte de Nero, em 68 d.C., Vespasiano, originário da Gens Flauia, chega ao poder, se firma e cria a dinastia dos Flávios. Ele assume o comando de uma Roma financeiramente destroçada, em 69, ano que se tornou singular por ter tido quatro imperadores – Galba, Otão, Vitélio e o próprio Vespasiano.

Vespasiano torna-se imperador com o cacife da dominação de Jesuralém e ainda consegue fazer de seus dois filhos – Tito (79-81) e Domiciano (81-96) – seus sucessores. Uma de suas medidas para refazer o erário romano foi a taxação da urina usada nos curtumes para o amaciamento do couro. Quando Vespasiano comenta a intenção de estabelecer uma taxação tão inusitada, Tito, seu filho, acha estranho e faz cara de nojo.

O tempo passa. Um certo dia, Vespasiano chama o filho e pede que ele cheire as milhares de moedas amontoadas na sala do tesouro. O filho sem entender e, mais uma vez achando estranho o pedido do pai, cheira algumas moedas e diz que elas não têm nenhum cheiro especial. A resposta de Vespasiano foi lacônica: Atquin, e lotio est, isto é, “No entanto, veio da urina”. Eram exatamente as moedas provenientes da taxação da urina. É o que nos conta Suetônio, no Divino Vespasiano. Desse episódio, surge a expressão Pecunia non olet ou "dinheiro não tem cheiro" (o verbo ŏlĕō, ŏlērĕ significa ter cheiro, que pode ser bom ou ruim).

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A expressão é ainda muito usada hoje em dia, principalmente, diante da dificuldade de se localizar o dinheiro da corrupção. A lição que fica é que quando não se sabe ou não se quer saber a origem do dinheiro, não há razão para associá-lo a alguma atividade suja.

A outra expressão serve para nos mostrar que muito do que achamos uma invenção moderna já se encontrava no mundo grego ou romano. Para quem acha, por exemplo, que os franceses são grandes chefes e criadores de uma cozinha de excelência,
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desconhece que Marcus Gavius Apicius (25 a.C. – 37 a.D.) era gastrônomo célebre e que o poeta Marcial (40 - 102 d.C.) apresenta muitos pratos deliciosos, nos diversos banquetes que integram seus epigramas, celebrando, por exemplo, o Falerno como um dos vinhos excelentes do mundo romano, e as ostras do Lago Lucrino como inigualáveis.

Só acredita, portanto, que coq au vin é receita francesa, quem não conhece o poeta Horácio (65-8 a.C.), que nos apresenta essa receita (Sátiras, Livro II, s. IV, versos 17-20), de modo a livrar um anfitrião de uma visita inesperada para o jantar. Confiram o texto em latim e a nossa tradução em versos heptassílabos duplos rimados:

Si uespertinus subito te oppresserit hospes,
ne gallina malum responset dura palato,
doctus eris uiuam mixto mersare Falerno:
hoc teneram, faciet.

Se um hóspede noturno te fizer uma surpresa,
para que tua galinha apeteça-lhe à mesa,
serás douto mergulhando-a ao Falerno, com frequência:
misturando-a ainda viva, terá tenra consistência.

Suetônio ainda nos conta, no Divino Augusto, que Augusto, em visita a Alexandria, quis ver o túmulo de Alexandre. Levado ao mausoléu do grande imperador, Augusto fez uma prece. Ao terminá-la, o seu guia perguntou se ele queria ver os túmulos dos Ptolomeu. Augusto respondeu que estava ali para ver um Imperador, não defuntos. Assim é o latim, do imposto à gastronomia, ele mostra-se essencial, o mais é carne morta.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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