Enquanto lia o livro “Engenho Laranjeiras: O Doce Afeto da Natureza” de Francisco Barreto, furtivas lembranças me ocorreram de quando, aind...

O doce afeto do Engenho Laranjeiras

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Enquanto lia o livro “Engenho Laranjeiras: O Doce Afeto da Natureza” de Francisco Barreto, furtivas lembranças me ocorreram de quando, ainda criança, as pessoas me conduzindo pelas mãos, eu estive nesse aprazível recanto de beleza que ornamenta Serraria.

Barreto fez um trabalho substancioso de pesquisa sobre a vida nos engenhos do Brejo, um texto recheado de poesia que me faz lembrar o jovem Goethe, seduzido pelas afinidades da natureza.

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De ativista político durante o período de estudante secundarista, na juventude, Barreto passou pela purificação do exílio em terras estranhas, como pastor errante num deserto de pedras, de onde recolheu princípios éticos, filosóficos e políticos que ajudaram a consolidar o perfil de homem revestido de ensinamentos. Retornando à terra natal, com sabedoria, exerceu atividades como professor universitário, parlamentar e com o mesmo zelo foi administrador de órgãos públicos.

Chegando a idade que lhe trouxe cabelos brancos e novas astúcias criativas, decidiu retornar ao campo. Numa sábia escolha, chegou aos verdejantes prados de Serraria para recompor a natureza perdida na infância, rejuvenescendo nos afetos do Engenho Laranjeiras, que havia conhecido na tenra idade.

Buscando a natureza perdida e esmaecida da infância, ele foi, aos poucos, rejuvenescendo nos afetos do Engenho Laranjeiras para novos sonhos e projetos.

Quando estive em Laranjeiras pela primeira vez, o engenho estava com sua chaminé fumegando pelas encostas das serras, de onde despencavam os canaviais a se espalhar beirando os riachos por onde escoria água cristalina, dando doçura à cana.

Cinco décadas depois, retornei ao lugar, não levado pelos braços de alguém, mas atraído por exuberante cenário que me convidava ao regresso e contemplar sua paisagem. Mas nem tudo era igual ao tempo de quando lá estive no começo dos anos de 1960. Revidei as emoções desse momento, escrevendo um poema de devaneios.

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A partir de então, mais constante, retornei ao Laranjeiras. Como agora, ao rever aquele santuário da natureza nas páginas do livro que o professor Francisco Barreto nos presenteia, recheado de lembranças agradáveis que remontam ao passado da região de Serraria, com sua economia baseada na cana e no café, em um bonito passeio pelos tempos recentes.

Barreto reconstruiu a paisagem do engenho num livro que é um canto de louvação à terra que o acolheu, por ele escolhida para devaneios e revelações da alma. O livro contêm lembranças e incontidas emoções que delas nos apoderamos. Escrito numa linguagem suave, “Engenho Laranjeiras: O Doce Afeto da Natureza” é registro de um tempo em que o açúcar e a rapadura davam camisa e comida às centenas de famílias de Serraria e de todo o Brejo.

- O senhor deixou a política, que exercia com tanto zelo, para se dedicar ao cultivo da terra e ao trabalho no campo - disse-lhe, certa vez, um trabalhador rural sindicalista de Borborema, vizinha cidade, expressando-lhe admiração. Foi exatamente isto o que fez, adquirindo o Engenho Laranjeiras.

Ali aprendeu a escutar o silêncio, a sentir o halo das plantas, o aroma das flores e o cheiro da terra
Chegando ao engenho, ousou na mudança dos planos para melhor aproveitamento das potencialidades econômicas da terra, tentou o fabrico de rapadura, depois investiu no turismo rural e na produção de flores. Por fim, fez do ambiente o recanto para acolher o que sobrou da vegetação típica da região, com seus animais e o silêncio que reconstrói a paz. Do lugar recolheu as emoções para alimentar as ansiedades dos dias durante o entardecer de sua vida.

Neste livro ele descreve as raízes do panorama dos engenhos no Brejo, reeditando o rastro da História política, social e econômica da Paraíba naquela região. Fazendo memória do tempo, resgatou o cenário que ainda se encontra na memória de muita gente do lugar. Assim agindo, prestou um grande serviço não somente a Serraria, a Borborema e Pilões – em face das proximidades e ligações com o Laranjeiras – mas a todo o Brejo.

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O autor soube captar a natureza local, descrevendo os caminhos dos engenhos de Serraria, seu modo de vida e sua riqueza, o apogeu daquilo que a cana e o café proporcionaram e do momento em que comprou as terras do engenho de fogo morto.

Ressalta que o lugar lhe doou muitos ciclos de paz, tranquilidade, alegria e bem estar, pois ali está a origem da força que o impulsiona para novos projetos. Como disse, o Engenho Laranjeiras creditou-lhe “muitos anos de sobrevivida, na medida em que pulverizou os graves impactos de estresse e conflitos existenciais e políticos”.

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Francisco Barreto
Abdicou da vida pública e política quando o panorama lhe apresentava novos e promissores horizontes, para exilar-se em definitivo do mundo do trabalho nos gabinetes e salas de aula, atraído pela sedução do Laranjeiras, que foi avassaladora.

Andando em trajes de camponês, quando encontra amigos do tempo em que planejavam transformar o quadro politico e social do país, eles logo percebem as mudanças que o Engenho Laranjeiras proporcionou na sua vida.

Como ele disse, ali aprendeu a escutar o silêncio, “a sentir o halo das plantas e o aroma das flores, e ainda sentir o cheiro da terra”. E mais, como as terras de Serraria são sagradas, passou a andar descalço, retornando à vida infante de outrora, podendo “desfrutar dos fluídos energéticos da terra”.

Revelou que o olhar para o cenário do antigo engenho criou novas paisagens para a alma, alimentando sua fé, então percebeu como sendo uma prece que lhe aproxima ainda mais de Deus.


José Nunes é poeta, escritor e membro do IHGP
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