Antes da pandemia, vi numa livraria uns títulos estranhos. Tinham a ver com 1001 sugestões de filmes e livros para ver e ler antes de... mor...

Antes de... morrer

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Antes da pandemia, vi numa livraria uns títulos estranhos. Tinham a ver com 1001 sugestões de filmes e livros para ver e ler antes de... morrer. Achei estranho, volto a dizer. E um pouquinho mórbido, também. Afinal, não é toda hora que somos lembrados assim de nossa mortalidade, de forma tão explícita. Será bom? Provavelmente, sim. Desconfortável? Idem. Necessário? Talvez.

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Lembrei-me da história que contam sobre Júlio César. O imperador romano quando desfilava recebendo aclamações da multidão levava junto um escravo cuja única missão era repetir-lhe ao ouvido uma frase de apenas duas palavras: “És pó”. Seria esse o antídoto certo para eventuais vaidades que pudessem aflorar no humano peito imperial. Sábio César.

Perguntei-me: Já não bastam os lembretes vários que recebemos diariamente sobre nossa finitude, a começar pelos obituários do jornal?. Já são tantas as lembranças da morte em nosso cotidiano. Precisaríamos realmente de uma lista de filmes ou de livros para nos lembrar o que gostaríamos de esquecer?

E o interessante, para mim, foi ver que constavam da lista dos livros indispensáveis várias obras que nunca consegui ler e que certamente nunca conseguirei, por mais que me esforce. A não ser obrigado por razões profissionais, fosse eu professor de literatura ou crítico literário. Mas, felizmente, não é este o caso, o que me libera para ler apenas o que me dá prazer, seguindo o lema de vida do filósofo francês “Só faço o que me dá alegria”. Sábio Montaigne.

Auscultei meu coração ao saber que não leria todos os 1001 livros recomendados. Sentia remorso intelectual? Achava que não estava ainda pronto para partir, salvo quando lesse a lista completa? E se outra vida houvesse, estava despreparado para enfrentá-la, por conta dos livros que não lera? Enfim, confesso que me perturbou a súbita consciência de minhas leituras desfalcadas.

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Poderia enfrentar o fim sem ter lido o “Ulisses”, de James Joyce? “Guerra e Paz”, de Tolstói? E “Em busca do tempo perdido”, de Proust? Graves questões que me abalaram, à vista de minha pouca força de vontade para enfrentar tais monumentos universais. Iria (irei) para o inferno por conta disso? Ou já estou nele por ser um leitor tão relapso?

O fato é que resolvi não comprar os títulos com as 1001 recomendações. De qualquer modo, sei que morrerei sem ter feito coisas muito mais importantes. Ler certos livros e ver certos filmes é o de menos. Nem só de literatura e de cinema vive o homem. Fui sábio?


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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  1. Carvalho
    Mesmo atirados no epicentro de uma pandemia, mesmo acossados diariamente por milhares de mortes, milhões de pessoas continuam vivendo suas vidas rotineiras como se nada estivesse acontecendo. A consciência da morte parece não existir para essa gente. Se mesmo com tantas mortes diárias, com a presença viva da morte ceifando vidas em grosso e a varejo, os valores das pessoas continuam mesquinhos e inabaláveis, não há muito o que esperar da chamada humanidade.
    A vaidade de muita gente continua em primeiro plano e se alimenta de qualquer elogio de meia-tigela.
    Nunca é demais trazer à tona o exemplo de César (seja verdade ou mitologia), que deveria ser a oração matinal e do final do dia de cada homem sensato.
    Os filmes, os livros, os objetos culturais que realmente importam são os que podem ser assimilados por cada um e podem alegrar a vida de cada um, contribuir para uma compreensão mais profunda da vida e/ou transformar cada pessoa em uma pessoa melhor. Listas não passam de publicidade e comércio.
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