2020 está terminando e pelo visto o cinquentenário de “O nariz do morto”, de Antonio Carlos Villaça, vai passar em brancas nuvens. Ma...

50 anos de 'O nariz do morto'

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2020 está terminando e pelo visto o cinquentenário de “O nariz do morto”, de Antonio Carlos Villaça, vai passar em brancas nuvens. Mas agora não mais, pois, modesto que seja, este texto se propõe celebrar o importante acontecimento literário brasileiro.

Começo dizendo que quem mais entende de Villaça na Paraíba é o nosso Chico Viana, cuja dissertação de mestrado, belamente intitulada “Travessia do Mosteiro”, é justamente dedicada à obra autobiográfica daquele que se tornou um dos maiores memorialistas do Brasil. Chico leu tudo ou quase tudo de Villaça e sobre Villaça. Mais ainda: Chico conviveu com Villaça, no Rio de Janeiro, conversando com e até mesmo ouvindo confissões do escritor carioca, o que lhe forneceu ferramentas críticas e hermenêuticas a que poucos tiveram acesso. Chico, além de admirador e estudioso de Villaça, converteu-se, como não poderia deixar de ser, em dileto amigo do autor, o que lhe reveste de credenciais únicas para falar sobre ele.

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1970. Villaça estava com 42 anos de idade quando deu ao público seu livro mais importante: “O nariz do morto”, pela JCM Editores Ltda. Livro original. Literariamente, é voz geral, um dos pontos altos de nossas letras, suficiente, ele sozinho, para consagrar um escritor, qualquer escritor. Carlos Heitor Cony, em crônica publicada na Folha de S. Paulo por ocasião de sua morte, em 28 de maio de 2005, afirmou sobre “O nariz”: “Villaça escreveu uma obra-prima”. E foi mesmo assim. A crítica colocou o livro, em termos de literatura memorialista, acima de Joaquim Nabuco, de Gilberto Amado e de Pedro Nava. Não é pouca coisa.

Livro original, sim, mas também livro belo e livro sofrido, testemunho dolorido da “travessia do mosteiro” de que fala Chico Viana em sua dissertação. Testemunho amargo de ilusões perdidas e de uma enorme decepção juvenil. Decepção com o mosteiro - e com os monges, afinal tão iguais ao mundo que o jovem Villaça pensava estar deixando para trás quando adentrou o multissecular edifício beneditino, no Rio. Mas o mundo rasteiro e medíocre estava dentro do mosteiro, com todos os seus vícios e misérias, e a fantasia literária e religiosa do rapaz sonhador desfez-se dolorosamente. Se o mosteiro era igual ao mundo em sua pequenez, por que ficar lá, desiludido? Tudo isso é a matéria de “O nariz do morto”, narrativa de um calvário existencial.

A ilusão de Villaça foi construir uma imagem literária do mosteiro. Ele mesmo afirmou em entrevista concedida ao cearense Edmílson Caminha: “Sempre concebi o mosteiro como o lugar da literatura, da cultura. O mosteiro pra mim sempre foi a biblioteca... Sempre tive essa concepção culta da vida monástica”. Pois o mosteiro então decepcionou-o. Lá, como nos conta no livro, havia muito pouco da alta atmosfera que idealizara. Havia a biblioteca, sim, milhares de livros eruditos, mas a vida cotidiana se dava ao rés do chão ...

Em algumas passagens de “O nariz”, Villaça chegou a ser quase cruel com alguns de seus antigos companheiros de claustro: “Dom Fábio fungava... Dom abade era porco, não limpava as unhas ... Dom Hermógenes era ou é um quase débil mental”. E ainda: “Quando vi a vulgaridade dos monges e frades, sua cotidianidade, horrorizei-me. Aquilo era bárbaro.” Villaça não resistiu: abandonou a casa de São Bento, no Rio, e foi para o mundo, viver sua consumada e inquieta vocação para as letras.

Um dia, Gilberto Amado lhe disse: “Você não cabe no mosteiro”. Ao que Villaça respondeu: “Mas o mosteiro cabe em mim”. E era verdade. Porque, a despeito de ter deixado a clausura, onde não chegou a ser ordenado monge, a condição e o espírito monásticos nunca deixaram Villaça, cuja vida celibatária e modesta, cuja barba de profeta e cujas vestes negras habituais levaram alguém a chamá-lo de “Dom Abade das Letras”. E era mesmo. Em artigo publicado por ocasião de seu aniversário de cinquenta anos, ele mesmo confessa: “Saí, acabei saindo. Mas em certo sentido não saí. Meus ossos estão lá, enterrados, sob as pedras. Ou passeiam no escuro, de noite, entre morcegos e ratos, à procura de uma paz que hoje sei impossível”.

F. James
Há uma história muito engraçada, contada pelo próprio escritor em outro livro. Um dia, ele foi visitar Rachel de Queiroz na sua fazenda “Não me deixes”, em Quixadá, no Ceará profundo. O carro parou na frente da casa-grande, ele desceu e foi se aproximando do portão. Uma empregada da casa o avistou, em todo o seu garbo eclesiástico, e saiu correndo, a chamar: “Dona Rachel, o bispo está aí!”. E o bispo era ele, com sua gorda e expressiva figura. Vejam só.

Claro está que o livro vai muito além do mosteiro, experiência particular do autor. Seu grande tema, para mim, é a angustiante procura do destino por um jovem no começo da vida adulta. Procura que é de todos, no mundo inteiro, em todos os tempos, e que é decisiva para cada um, nem sempre com final feliz. Rito de iniciação. Descobrir quem se é e quem se quer ser. Nisto reside a universalidade de “O nariz”. A propósito, podemos dizer que o nosso Chico Viana também abandonou em tempo o seu mosteiro (o curso de Medicina), para abraçar, tal qual Villaça, e com imenso êxito, a incontornável vocação literária. Chico fez, discreto, a sua travessia laica aqui na aldeia. E certamente sofreu.

Descobri Villaça no sebo do saudoso Pontes, lá na Visconde de Pelotas. Certo dia, estava a buquinar quando caiu-me às mãos uma primeira edição de “O nariz do morto”, ofertada pelo autor a conhecido intelectual paraibano, então recentemente falecido. A leitura foi para mim um alumbramento, como diria o poeta. A partir daí, fui atrás de seus outros livros e nunca mais deixei de tê-los como amigos.

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Giancarlo Corti
Se um dia tivesse de viver sozinho em qualquer lugar, até mesmo na clássica ilha deserta, um dos livros que certamente levaria comigo seria “O nariz do morto”. Para mim, estou certo, não poderia haver melhor companhia nem maior conforto.

Apesar de tudo, Lelento e Sigismundo vivem. E viverão. Sobre eles, espero muito, o olvido não há de prevalecer.


Francisco Gil Messias é cronista e ex-procurador-geral da UFPB
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