Para a geração de escritores e artistas estrangeiros, nos anos inicias do século XX, em doce exílio intelectual, Paris era uma festa, so...

Paris por um flâneur

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Para a geração de escritores e artistas estrangeiros, nos anos inicias do século XX, em doce exílio intelectual, Paris era uma festa, sobretudo para os que frequentavam o chique restaurante Closerie des Lilas, no Boulevard Montparnasse, ao lado da Gare de Luxembourg. Já Victor Hugo, em Os Miseráveis, diz que Paris sempre mostra os dentes, seja para sorrir, seja para rosnar. É bem verdade também. Para quem vai a Paris se submeter a trabalho e enfrentar a burocracia francesa, Paris sempre rosna; mas se vai, para desfrutar de sua beleza, em férias, como turista, desobrigado de horários, Paris sorri.

Já que estamos falando do elegante Closerie des Lilas, desçamos o Boulevard Saint-Michel, passemos pelo Jardim de Marco Polo, com a sua magnífica representação do mundo, numa fonte romântica, que atrai turistas e jovens enamorados. O melhor momento é o final do verão, início do outono, quando a temperatura está amena, ainda há sol até quase nove horas da noite e o marronnier está mudando a cor das suas folhas, dando um colorido especial à cidade. Nessa descida, passemos pelo Jardim de Luxemburgo, com sua vista impagável para o Panthéon, onde estão os imortais da cultura francesa, de Victor Hugo a Alexandre Dumas, ali recebido em 2001. Aproveitemos o passeio para ir colhendo o marron caído pelo chão, que logo será vendido assado nas ruas por hindus e paquistaneses, que gritam o seu produto – marron chaud ! marron chaud ! –, com o um inconfundível sotaque pesado, pronunciando bem forte o r. Poderíamos seguir um pouco para o lado do Panthéon, derivando para a Rua Mouffetard com seu mercado livre, de mil e uma especiarias, e pequenos e excelentes restaurantes asiáticos. Continuemos, contudo, na Saint-Michel.

A Place de La Sorbonne é parada obrigatória para ver a esplendorosa universidade fundada na Idade Média. Cafés na calçada, grupos de artistas se exibindo bem embaixo da estátua de Auguste Comte, pai do Positivismo. No pátio interno, a majestosa estátua de Victor Hugo, a quem os franceses deveriam prestar reverência todos os dias. Assim como Napoleão I colocou a França definitivamente na História, Victor Hugo tornou-a mais grandiosa ainda literariamente. Aliás, é impossível estudar o século XIX, sem nos referirmos a essas duas figuras emblemáticas daquela época.

Continuamos descendo a Saint-Michel, passando pelo Musée Cluny, antigas termas do tempo do império romano, quando a França ainda era chamada de Gália. O museu encontra-se exatamente na esquina mais famosa de Paris: Boulevard Saint-Michel com Boulevard Saint-Germain. Se Paris tivesse um Paulo Vanzolini, essa esquina seria imortalizada como uma espécie de Ipiranga com avenida São João, só que mais chique, pois o metro quadrado aqui é cotado a peso de ouro. Aí também se encontra o coração do Quartier Latin, o quarteirão dos estudantes, com seus restaurantes variados. Ninguém pode dizer que não come bem em Paris, pois tem o que escolher entre comida japonesa, chinesa, tailandesa, vietnamita, italiana, grega, espanhola, árabe e, claro, francesa, tudo num único lugar, com a vantagem de estar no entorno mais famoso da cidade. É nesse famoso quartier que se encontra a Fonte Saint-Michel, ponto de encontro de todo mundo, sobretudo dos jovens, onde se veem as mais estranhas figuras, e até quem, nu, tome banho na fonte e suba pela estátua de São Miguel derrotando o dragão...

Da fonte, temos uma vista esplendorosa do Sena, passando ao largo da Conciergerie, hoje, Palácio da Justiça, onde Maria Antonieta esteve presa e em cujo meio se encontra a Sainte-Chapelle, igreja de frequentes concertos eruditos e que guarda a maior de todas as relíquias do cristianismo: nada mais, nada menos do que a coroa de espinhos de Jesus Cristo... À esquerda, a incomparável e grandiosa catedral de Notre-Dame, tornada, de tão importante, personagem por Victor Hugo em seu romance Notre-Dame de Paris, mal traduzido como O Corcunda de Notre-Dame. Alguém poderá dizer que em tão pouco tempo já falamos demasiado em Hugo, mas Paris é tão hugoana, quanto napoleônica. Impossível escapar a qualquer um desses dois personagens.

No parvis de Notre-Dame, marca-se o ponto zero de todas as estradas da França; embaixo, existe um museu, abrigando uma cidade celta, com mais de dois mil anos, encontrada no momento das escavações para a reformulação do adro. Île de la Cité, Île Saint-Louis, por trás de Notre-Dame, um dos pontos mais chiques da cidade. Trata-se do mesmo Luís, em cuja homenagem, no século XVII, Daniel de la Touche, Seigneur de la Ravardière, fundou a ilha de São Luís, atual capital do Maranhão.

Paris é uma ilha, nascida exatamente com o nome de Lutécia, bem em frente à entrada principal da Conciergerie. As pontes não deixam que o turista desavisado perceba que está saindo de uma ilha para outra. Aliás, as pontes são outro capítulo à parte. Da Petit Pont, à Pont des Arts – normalmente cheia de artistas, exercendo seu métier – , passando pela Pont Neuf, famosa pelo filme Les Amants du Pont Neuf, com Juliette Binoche, porém mais famosa ainda pela estátua equestre de Henri IV. Antes de Napoleão e depois de François I, ele foi o maior monarca que a França teve, responsável pela famoso Édito de Nantes (1599), concedendo a tolerância religiosa, numa França que se dilacerava em lutas de religião.
Ele mesmo, um sobrevivente da malfadada Noite de São Bartolomeu (24/08/1572), quando estava se casando com a não menos famosa Marguerite de Valois – a rainha Margot, personagem de um romance homônimo de Alexandre Dumas, que inspirou o filme com Daniel Auteil, Isabelle Adjani e Jeanne Moreau, esta impagável no papel de Catherine de Médicis, a rainha-mãe, ordenadora do massacre dos huguenotes que acompanhavam o então protestante Henri de Navarre, para o seu casamento.

Voltemos a Notre-Dame. Dali podemos seguir para a esquerda e chegaremos ao Hôtel de Ville, majestosa edificação que hoje abriga a Prefeitura de Paris, outrora incendiado no episódio da Comuna de Paris (1871), que não foi muito adiante, mas pelo menos serviu para pôr um fim ao império retomado por Napoleão III – o sobrinho do outro –, e para a restauração da república francesa, que não mais recuaria. Se seguirmos para a direita do Hôtel de Ville, entraremos em um dos bairros mais charmosos de Paris, o Marais, bairro judeu, que abriga, talvez a mais bonita praça da cidade, a Place de Vosges, onde Victor Hugo morou e hoje é um museu. Visita a não perder. É no Marais, também que encontramos o Museu Picasso. Seguindo ao longo da Avenida de Saint-Antoine, sairemos na Bastilha, onde está a famosa Coluna de Julho, em homenagem aos Três Gloriosos de julho de 1830, dias 28, 29 e 30, que levaram à destituição do segundo rei de França depois da Revolução Francesa de 1789, Charles X, colocando em seu lugar o último rei de França, Louis Philippe, destituído em 1848, para que a França conhecesse um período curto de mais uma república até o golpe de Estado em 1851, resultando no império de Napoleão III, chamado sarcasticamente por Hugo de “petit Napoléon”, para contrastar com o tio, “le grand Napoléon”. Na Bastilha, vemos também o belo edifício moderno da Ópera da Bastilha, motivo de polêmica entre os franceses, que se orgulham da verdadeira Ópera, aquela…

Se pegarmos a esquerda do Hôtel de Ville, estaremos entrando no Châtelet e em Les Halles. Passaremos pela Torre Saint-Jacques, de onde Santiago partiu para fazer o seu caminho até Compostella (exatamente, são a mesma pessoa: Saint-Jacques > Saintiacque > Santiaco > São Tiago > Santiago). Continuando pelo Châtelet até Les Halles, passaremos pelo Centre National d’Art Georges Pompidou, uma estrutura de metal e vidros, num estilo futurista que não agrada muito aos franceses mais renitentes, em cujo pátio, porém, artistas de toda a sorte se apresentam e as pessoas aproveitam para descansar ou para namorar. Logo em seguida, as estreitas ruas do local, onde se ergueram barricadas, contra o exército do rei Louis-Philippe, em 1832, na tentativa de derrubá-lo, segundo nos narra – quem? –, sim, ele mesmo, Victor Hugo, nesse romance insuperável que é Os Miseráveis. Chegamos a Les Halles, o antigo mercado popular, eternizado como ambiente-personagem por Émile Zola, em Le ventre de Paris, hoje transformado em moderno shopping center subterrâneo e onde se situa uma das mais importantes e concorridas Gares de Paris, Châtelet-Les Halles, verdadeiro labirinto para quem ainda não dominou o segredo das correspondências das linhas e a maneira de driblar as placas indicativas para ir mais rápido.

Continuemos na avenida principal, a não menos famosa Rue de Rivoli, em homenagem a quem? Ora, Napoleão. Pela Rivoli, vamos até o Louvre, famoso museu, antes morada dos reais, cujo último inquilino foi Napoleão III. Ainda hoje, podemos visitar toda uma ala que corresponde aos seus aposentos – a perna esquerda do “u”, para quem está de frente para a pirâmida externa, tendo às costas o Arco do Carrossel.
Entremos no Louvre pela entrada menos chamativa, a da Rua Coligny, o marechal chefe do protestantismo na França, assassinado por questões religiosas, na Noite de São Bartolomeu. Ironicamente, nesta rua se encontra a Igreja de Saint-Germain de l’Auxerrois, cujos sinos – um espetáculo à parte – badalavam, enquanto se processava o massacre dos protestantes. É nessa rua que temos acesso à entrada do castelo, atravessando o seu fosso. Chegamos ao pátio do Louvre e estamos diante de mais uma obra polêmica, apesar de sua beleza, a pirâmide de vidro, entrada principal para o museu. É belíssimo vê-la de baixo, pois temos a impressão de que ela está solta no ar...

Estamos no Louvre, entremos. O que vamos ver? Visitar o Louvre é algo que requer paciência, e não pode ser feito só de uma vez. Mas digamos que só temos um dia e que precisamos ver o essencial, então não podemos deixar de ver as peças greco-latinas, sobretudo o Hermafrodita, Marsias escorchado por Apolo, Diana na Caça, a magnífica estátua de Palas Atena, a Vênus de Milo, Eros cavalgando Centauro, Pan, as lastras do Parthenon..., guardando para o final a incontornável Vitória da Samotrácia. Depois disso, seguimos em rota batida para ver a Mona Lisa, que já não parecerá tão fascinante, pois, além de ofuscada pela Vitória da Samotrácia, está isolada por um vidro à prova de balas e há um exército de japoneses tirando fotos, que tornam impossível apreciá-la por mais de 5 segundos…

Que faremos? Atravessar a ponte e ir ver o Musée d’Orsay, onde estão os impressionistas, e um dos quadros mais polêmicos do mundo, A Origem da Vida, de Gustave Courbet, que representa um torso de mulher com o sexo à mostra e as pernas abertas, ou seguir direto pelo Louvre até o Arco do Triunfo? A bela visão do Jardim das Tulherias nos convence a atravessá-lo.
Passemos, então, imediatamente pelo Arco do Triunfo do Carrossel, entre o Louvre e as Tulherias, em homenagem à batalha de Austerlitz, vencida por Napoleão I. Passando pelas fontes do jardim, chegamos à Praça da Concórdia, onde está o obelisco, proveniente de Luxor no Egito. Praça simétrica, onde muitos foram guilhotinados no chamado período de Terror da Revolução Francesa (1793-1795). Testando a simetria da praça temos a Assembléia Nacional que está em linha direta com a Igreja da Madalena – grandioso templo grego! –, no outro extremo, atrás o Arco do Triunfo do Carrossel e a Pirâmide do Louvre; à frente, o Champs-Elysées e o Arco do Triunfo de l’Étoile; por trás dele, o Grande Arco de La Défense; contornando a praça, oito alegorias representando as oito principais cidades da França...

Fazendo um pequeno desvio, subindo pela Avenue de l’Opéra, chegaremos à majestosa Ópera de Paris, onde acontecem os grandes espetáculos, ali bem perto, no Boulevard des Capucines, está a casa de show de Paris – L’Olympia. Voltando pela Avenue de l’Opéra, não esqueçamos de arriscar um olhar, sobretudo à noite, na Rue de La Paix, para vermos a fantástica coluna Vendôme, em frente ao famoso Hotel Ritz, de propriedade do pai do último namorado da princesa Diana. A exemplo da coluna de Trajano, no fórum desse imperador, ou da coluna de Marco Aurélio, na Praça da Coluna, ao longo da Via del Corso, ambas em Roma, A coluna Vendôme, feita com o bronze de 1200 canhões aprisionados na batalha de Austerlitz, é em alto relevo contando a vitória de Napoleão.

Voltemos à Place de la Concorde, para subirmos a famosa Avenida des Champs-Elysées e nos encantarmos com as largas calçadas, as incontáveis salas de cinema, as vitrines sofisticadas de marcas famosas, os pontos históricos, como a casa em que Thomas Jefferson morou, quando foi embaixador dos Estados Unidos na França, ou procurar fantasiosamente o 202, onde o eciano Jacinto tinha seu moderníssimo apartamento, que resumia o seu universo: “O mundo é Paris e Paris é o 202, Champs-Elysées” (A cidade e as Serras). Uma das coisas magníficas de Paris, é o fato de que a história está em cada esquina e lembrada por várias placas. Como Paris foi invadida pelos nazistas em junho de 1940 e libertada em agosto de 1944, o que não falta é placa em homenagem a alguém que tombou morto, nos dias que antecederam a libertação. O Arco do Triunfo da Estrela é assim chamado porque ele é a confluência de doze avenidas, que, vistas do alto, formam uma estrela de doze pontas. É um monumento indescritível. Se a Torre Eiffel é o símbolo de França, o Arco do Triunfo é o seu monumento mais charmoso, sobretudo, quando estamos subindo a escada rolante, da estação de RER A Charles de Gaulle-Étoile, e vemos o arco lentamente ir aparecendo em nossa frente. Idealizado por Napoleão, começou a ser edificado em 1808, mas só foi terminado em 1822. Embaixo, está a tumba do soldado desconhecido, com a chama eterna acesa, para lembrar os mortos na Primeira Guerra.

Se seguirmos por uma das doze avenidas do arco, Avenue d’Iéna – mais uma homenagem a Napoleão, pela batalha ganha –, chegaremos à Torre Eiffel, passando pelo belíssimo Palais de Chaillot, descendo ao longo da sua irresistível fonte, atravessando a Pont d’Iéna, para chegar a essa estrutura imensa de ferro, do século passado, que é símbolo da França.
Do alto da torre, pode-se contemplar, à maneira napoleônica, vinte séculos de cultura, na cidade mais charmosa do mundo. Depois, é descansar um pouco no gramado do Campo de Marte, tendo ao fundo a Escola Militar, onde estudou... Napoleão.

Não poderíamos terminar este passeio, sem uma volta de metrô – pois todo este percurso pode ser feito a pé. Vamos escolher a Linha 14 – são 14 linhas de metrô, 5 de RER e 3 de trens urbanos, circulando em Paris, nos subúrbios e cidades próximas, num percurso distribuído por mais de 400 estações. Ninguém se choque com os números, ou pense em exagero, pois Paris é uma cidade de três milhões de habitantes fixos, e mais de dez milhões de pessoas, diariamente, flutuando por ela, deixando qualquer coisa como 16000 toneladas de lixo e 3 toneladas de cocô de cachorro pelas calçadas, devidamente recolhidas, sendo as calçadas e sarjetas lavadas regularmente todos os dias.

Depois dessa pequena digressão, voltemos à Linha 14. Trata-se da linha mais moderna de Paris, totalmente automatizada, com um cais seguro, pois os usuários estão protegidos por uma parede de vidro que só se abre à chegada do metrô. Este metrô tem uma velocidade maior do que os demais, por isto é chamado de Meteor. A linha é razoalvemente curta, de Saint-Lazare a Olympiades, passando por estações das mais importantes como a Madalena, Biblioteca François Mitterand, Châtelete-Les Halles e Gare de Lyon, além de ligar o Norte com o Nordeste de Paris.

Se quisermos começar outro passeio, basta saltarmos em Bibliothèque, onde poderemos apreciar o moderníssimo prédio, que parece uma mesa ao contrário – são quatro torres em L, formando um quadrado – e seguir o Sena até chegar a Saint-Michel, com a opção de na Pont d’Austerlitz (olha ele de novo!), dar uma entrada no Jardim das Plantas, antigo Jardim do Rei, na época de Luís XVIII e Charles X, que abriga um museu de História Natural e guarda espécimes empalhados das Harpias, a ave de rapina, conhecida como a águia brasileira.

É isto, Paris.


Milton Marques Júnior é doutor em letras, professor, escritor e membro da APL
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