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Poetas das caatingas e dos canaviais

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Na abrangência do vento que rodopia o Sertão da Serra do Teixeira, na Paraíba, em debanda do Pajeú, em Pernambuco, desde o linear do século XIX, muita poesia foi espalhada por poetas repentistas e cantadores que traziam consigo raízes fincadas nas terras do além-mar. Num tempo quando a vida era edificada na solidão do campo, muitos beberam na fonte da rústica paisagem do Nordeste, que inspira e favorece intensamente a criação poética com profunda raízes na alma.

A poesia do improviso também ganhou espaços na paisagem repleta de montanhas do Brejo Paraibano, misturando-se com a música do vento que se esparrama pelas serras cobertas de canaviais. O ar fresco das tardes ou nas noites nubladas no tempo de invernadas,
unindo-se aos acordes da viola plangente, revigorava o amor adormecido.  Quem nasce na paisagem rural leva certa vantagem quando escreve poesia que fala da alma da terra.

Pelos idos de 1850, em Teixeira/PB, membros da família Nunes da Costa dão brilho a poesia popular, utilizando o improviso e a viola como instrumento de comunicação e divertimento, patrocinando memoráveis noitadas de cantorias.

Outros existiram antes ou surgiram depois, mas nunca com o fervor dos integrantes desta família que tem tino para as artes, sendo a poesia o dom maior. Muitos cantadores se transformaram animadores de comunidades que surgiam, sendo emissários de notícias de lugares mais distantes e mais evoluídos, porque viviam nômades. Descreviam acontecimentos, narravam romances de reinos imaginários ou criavam a partir do que presenciavam nos Sertões.

Durante dois séculos, muitas gerações de cantadores surgiram e se espalharam pelo Sertão, ganhando notoriedade nacional e até internacional, a exemplo do mestre Leandro Gomes de Barros, angariando admiração como os irmãos Lourival, Dimas e Otacílio Batista, que saíram São José do Egito/PE para glorificar a poesia do repente com suas violas.


Sem chegar à dimensão inventiva de Inácio da Catingueira ou Pinto do Monteiro, nem a dimensão de Patativa do Assaré, que construiu poemas épicos, no Brejo da Paraíba surgiram nomes que deram grandiosidade à poesia popular, angariando respeito e admiração.

Se estes construíram as vigas mestras da poesia que canta a dor e o sofrimento do sertanejo, na região do Brejo Paraibano igualmente tivemos cantadores e repentistas que se destacaram. Alguns contornaram as cordilheiras nordestinas, onde o cerne da poesia expandiu suas raízes. Partindo de suas cidades, levando no matulão a inspiração que brota dos canaviais e dos riachos de água cristalina, doce e saborosa, alguns ganharam o mundo.

Trago a cantoria ao meu terreiro, pois em Serraria tivemos bons cantadores, alguns que ganharam fama sem muito esforço, e pelo simples modo de cantar ou pela explosão de valentia no improviso com a viola colada ao peito.

Entre os que têm raízes na terra de massapê vermelho deste lugar, Libânio Mendes de Lima e Josué da Cruz são glória da nossa gente. A estes se juntam Joaquim Bento, Apolônio Alves, Severino Frazão, Santino Alves e Lumarques Mendes. Certamente outros que não estão nesta lista emprestam sua verve poética ao mundo encantada da poesia.

O poeta repentista e versejador Libânio Mendes, filho de Maria Rosalina, prima de minha avó Maria Laurentina, filha do coronel João Mendes, ganhou destaque com sua poesia e sua viola. Sem muita instrução intelectual, como era a maioria dos cantadores de viola à época, deixou alguma produção que nosso parente Nemésio Calvalcanti tenta resgatar num trabalho paciente de garimpagem junto às fontes de pesquisa.

Serraria ainda não produziu um Leandro Gomes de Barros nem um Louro do Pajeú, mas guarda a semente para germinar no tempo oportuno. No entanto, até agora, os poetas que surgiram deram seu recado.

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