Narra o mito que Zeus, o deus maior, incumbiu as demais divindades de criar um ser - Pandora - atribuindo-lhe todos os dons (παν+δωρα), a ...

A terapêutica dos mitos

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Narra o mito que Zeus, o deus maior, incumbiu as demais divindades de criar um ser - Pandora - atribuindo-lhe todos os dons (παν+δωρα), a ser entregue a Epimeteu (επι+μήτις, o que percebe depois), que a recebe apesar das advertências de seu irmão Prometeu ( προ+μήτις, o que percebe antes). Impelida pela curiosidade, ela abre a caixa cujo interior continha todos os males, que, a partir de então, passariam a existir entre os homens, à exceção da esperança/expectativa (έλπις), única a restar na caixa. Tal ocorreu porque Prometeu roubara o fogo do Olimpo, morada dos deuses,
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a fim de entregar aos homens, desafiando, assim, Zeus.

Instrumento de elaborações psíquicas, a linguagem das narrativas míticas é simbólica. Acessa os recônditos do inconsciente, traduzindo subjetividades, mostrando imageticamente aquilo que um discurso lógico, racional e diacrônico não consegue abarcar. Nesse sentido, a psique, imbuída das representações dos afetos, é fonte de onde promana o material para essas narrativas. O inconsciente, que se manifesta através de atos falhos, de comportamentos repetitivos, de angústias, de sofrimentos, de silêncios, de entonações, mostra-se elaborado no mito, configurando-se, a sua narração, como processo terapêutico, no sentido grego do termo (θεραπεύω, cuidar) uma vez que os mitos eram "cantados" nas práticas ritualísticas. As narrativas míticas nos capturam porque falam de nós, e em algum ponto, da nossa singularidade.

Pandora, a que tem todos os dons, pois foi assim constituída, não tem o componente da falta que emula o desejo, e por isso mesmo, é ela quem abre a caixa que contém todos os males, não se dando conta do gesto imprudente. A partir do seu ato, os homens também passam a ser emulados pela falta, uma vez que antes viviam na abundância, a eles a natureza tudo dava e nada faltava. Além disso, Pandora deixa a esperança/expectativa no fundo da caixa, dínamo propulsor do existir. Também é possível ver na narrativa a presença da onipotência narcísica na figura de Zeus e de Prometeu, necessária para a ordenação do Cosmos (interno?). Há também a imprevidência de Epimeteu, que só enxerga os fatos depois dos acontecimentos. E o fogo, como consciência.

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