Quando quinta-feira (3) chegar, completará 120 anos que nasceu, em berço paraibano, um ilustre escritor, que conquistou projeção além-cont...

O universo de José Lins do Rego

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Quando quinta-feira (3) chegar, completará 120 anos que nasceu, em berço paraibano, um ilustre escritor, que conquistou projeção além-continente, com obras traduzidas em diversos idiomas, inclusive o russo: José Lins do Rego. Considerado um autor eclético, qualquer aspecto que se pense é encontrado em sua obra, inclusive o ontológico e o sensualismo, além de narrativas que contemplam do erudito ao popular.

José Lins, porém, foi além de um literato. Aqui não cabe tantas informações de sua versatilidade.

Optei, no entanto, por repercutir uma geral intimista, escrita por ele próprio, no auto-retrato, e a apoteose do ingresso na Academia Brasileira de Letras. Convivi com o seu mundo-memória, ao trabalhar no seu Museu, situado na Fundação Espaço Cultural (Funesc), instituição que leva seu nome. No contato com seu rico acervo e com experts de sua vida e obra, tive a revelação do homem amoroso, nordestino-raiz, extremamente sincero, valores expressados no amor à família, no discurso polêmico que marcou seu ingresso na ABL, o fervor com que torcia pelo seu time (Flamengo) e por aí vai.

Menino rico, solitário e travesso, Zé Lins ficou órfão cedo e viveu os sofrimentos e os prazeres da infância no engenho do avô materno. O cerco dos parentes tolhiam a sua liberdade, ao ponto de revelar que "sentia inveja dos moleques da bagaceira". Com seu repertório rico e variado, transportou suas vivências de menino de engenho para os livros.

DISCURSO na ABL

Apesar de ser um escritor de renome, o sucesso não interferiu nos seus hábitos de um homem comum. Na Academia Brasileira de Letras manteve seus traços fortes de personalidade. O discurso de posse foi de certa forma polêmico. Eis alguns trechos:

"- Aqui estou sem ter feito uma caminhada de aventuras. Não me pus na luta empenhando o que podia e o que não podia. A Academia não me foi uma ideia fixa... E nem vendi a alma ao demônio para obter a vossa imortalidade. Chego sem alvoroço e sem tropeçar na glória dos outros... Chego a esta Casa sem arrependimentos pelo que fiz nem temor de falar como sempre falei, com a língua solta que Deus me deu... Trago ao convívio de doutos e mestres a simplicidade de um falar ligado ao povo... Não tenho rancores e nem simulo bondades. Dou-lhes a minha alma despida. E nem o fardão luzente e nem a espada virgem me farão diferente do que sou e quero ser: um homem simples..."

Fugindo da praxe e, ao contrário de outros acadêmicos, José Lins não elogiou o seu antecessor, Ataulfo de Paiva. Eis uns trechos:

-"... O poder de Ataulfo estava na sua invencível força para manobrar os homens. Nisto, ele foi admirável...Para vencer as criaturas, teve Ataulfo um extraordinário engenho. O que ele imaginava, conquistava ou conquistaria pelas escadas da vaidade e da gratidão de seus semelhantes... Tudo fazia Ataulfo de Paiva para agradar os que pudessem servir às suas ambições. Para muitos, vivia dando espetáculo de servidão. E não estava senão a serviço de si próprio..."

Chegou ao Supremo Tribunal Federal sem ter sido um juiz sábio e à Academia Brasileira de Letras sem nunca ter gostado de um poema...Se não recebia convites, sentia mágoas e planejava revides…

Por fim, Zé Lins arrematou:

"Senhores acadêmicos: Chego ao fim e vos agradeço a eleição. Não rastejei. Não vos namorei com olhos compridos de enamorado impertinente. Destes-me esta Cadeira sem esforço e sem trabalho. Agradeço-vos e serei vosso companheiro sem torcer a minha natureza. O homem José Lins do Rêgo continuará intacto com as suas deficiências e as suas possíveis qualidades, pronto ao serviço de Machado de Assis, o capitão de todos nós".

AUTO-RETRATO

Aos 46 anos, José Lins escreveu seu auto-retrato. Para mim, os trechos mais marcantes:

"...tenho muita saúde e muito medo de morrer. Não gosto de trabalhar, não fumo, não durmo com muitos sonhos... Se chove, tenho saudades do sol, se faz calor, tenho saudades da chuva. Sou homem de paixões violentas. Temo os poderes de Deus e já fui devoto de Nossa Senhora da Conceição."

Enfim, literato da cabeça aos pés, amigo de meus amigos e capaz de tudo se me pisarem nos calos. Perco então a cabeça e fico ridículo. Não sou mau pagador. Se tenho, pago, mas se não tenho, não pago e não perco o sono por isso. Afinal de contas, sou um homem como os outros. E Deus queira que assim continue".


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