Leio que o edifício do Ipase vai ser restaurado e adaptado para moradia popular. A ideia não é nova, já se ouviu falar nisso em promessas...

O que fazer do Ipase

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Leio que o edifício do Ipase vai ser restaurado e adaptado para moradia popular. A ideia não é nova, já se ouviu falar nisso em promessas de intervenções anteriores. Felizmente ficou na promessa.

Que é imperiosa a intervenção (e já bem tardia) não há dúvida. Os que têm algum dever com o patrimônio cultural e paisagístico de João Pessoa remancham nessa dívida.

Não sendo daqui, filho de lugar de prendas mais modestas, não são poucas as vezes em que venho tocando o assunto. Desde que os funcionários do antigo instituto, mudando de sigla e se motorizando, se mandaram para sede com espaço para estacionamento. A civilização do automóvel, a conversão do homem ou da mulher em parte dele ou com ele acumpliciada, infelizmente é quem tem ditado a prioridade. Tudo que não tiver garagem é lixo. A rua das Trincheiras é lixo. A Cardoso Vieira, sem acostamento, fechou mais portas comerciais e residenciais do que a pandemia pavorosa destes nossos dias.

Os cuidados com o automóvel são muito mais sagrados do que com a vida, a respiração, o ar, o oxigênio vital dos comuns. Não há um só ano em que a prefeitura não imprima uma capa de asfalto sobre as vias mais transitadas. É um cuidado que rivaliza com o da saúde pública. Na Epitácio, o nível do asfalto chega a ser mais alto que o da calçada, para onde escorrem as águas das enxurradas. Na Júlia Freire, que passa em minhas ventas, desde a Torre até tocar no Miramar, não se abre uma barroca, pequena que seja, que não chegue rápido a borra tóxica do betume.

E assim foi abandonado um dos edifícios mais simbólicos da arquitetura do seu tempo, remanescente dos Corbusier, contrastando com a parede-meia e o casario de beira e bica que ainda cercavam o pátio mais visitado e frequentado da cidade.

Levar famílias, sobretudo crianças, para residir num local sem a ambientação própria, só porque não vão exigir garagem, pode ser funcionalmente factível, viabilizar melhor a tramitação do projeto, mas não é humano.

Humano, do ponto de vista social e cultural, seria revigorar o largo histórico, aproveitando a joia que Alcides Carneiro nos legou, na instalação dos museus de que a cidade carece, há séculos, e disto é digna, pela peculiaridade de sua história, de suas artes, de sua cultura, enfim. Não há local mais indicado, no centro da colina, entre o sagrado e o profano e político, expondo as grandezas que, pelo que se vê, parecem envergonhar os governantes em dívida com essa ideia.

Louvando a iniciativa da intervenção, não faz mal sugerir ao prefeito Cicero Lucena, antes de qualquer projeto, ouvir a opinião do Instituto Histórico, da Universidade, do Iphaep, da Academia Paraibana de Letras, dos artistas plásticos, fazendo opção pelo senso comum e até pela unanimidade em vez do contrassenso a que se expuseram os reformadores do velho Ponto de Cem Réis. Não houve um só, nem Damásio nem Ricardo, que somasse algum voto com as intervenções que praticaram.

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