Pouco tenho frequentado as redes sociais. O ambiente miasmático que a impregna me mantém delas afastado. Ao ver o fervor e a devoção reli...

Jesus votaria em quem?

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Pouco tenho frequentado as redes sociais. O ambiente miasmático que a impregna me mantém delas afastado. Ao ver o fervor e a devoção religiosa na defesa de bandidos, de ambos os lados do espectro político, por parte de seus sequazes, fico enojado. A atmosfera está decididamente insalubre. Ainda assim, aproveitando a publicação de algum ensaio ou artigo, vez por outra arrisco um olho, para ver se há alguma mudança. Qual! Nada mudou a não ser para continuar o mesmo. Bis idem, como se diz em latim.

Nessas olhadas rápidas, algumas vezes acontece de encontrar algo que me espicaça, pela sua natureza ingênua, oscilando entre o infantil e o tosco. Tenho dominado o meu ímpeto em responder, porque sei que não dá para argumentar com quem está impregnado de convicções partidárias. Nesse cenário, pude observar um fenômeno amplamente difundido no Brasil atual: os dois extremos, além de suas devoções partidárias e ideológicas,
também colocaram em seu curriculum o privilégio de ser, cada um à sua maneira, detentores dos sabores que envolvem os mistérios do Cristianismo. Refiro-me a uma postagem, que vai sendo replicada pelo que eu chamo de síndrome da inércia, a dizer com uma certeza de fazer Descartes se remexer no túmulo: “JESUS NÃO VOTARIA EM BOLSONARO”. Fiquei sem saber se era para rir ou para chorar.

Vamos por partes. Jesus não votaria em Bolsonaro, não votaria em Lula, a alma mais pura que já nasceu no Brasil – me espanta que alma tão pura ainda tenha que encarnar... –, não votaria em Ciro, o boquirroto, primeiro e único; não votaria em Mandela, que reputo ser um dos grandes homens da humanidade, por ter sabido transformar o ódio em perdão e, sobretudo, por ter demonstrado desapego ao poder, entendendo que a política é um serviço do cidadão ao Estado, não uma ambição pessoal transformada em vício. Aliás, para a informação dos desinformados, Jesus não votaria nem no Papa, visto como santo, conforme nos diz o epíteto de “Santo Padre”, que pespegam no transitório ocupante do trono de São Pedro. Diga-se de passagem, que São Pedro não deixou trono algum, nem cátedra, nem uma cadeira, forma vulgar do termo anterior. Se São Pedro deixou alguma coisa foi uma cruz difícil de suportar, porque tem de ser carregada de cabeça para baixo, missão para a qual foi reconduzido por Cristo, quando, decepcionado, tentava se evadir de Roma.

Voltando ao assunto, Jesus não votaria em ninguém, pelas razões que seguem. Em primeiro lugar, falar em votação no tempo de Jesus e onde ele se encontrava, não tem o menor sentido, é anacronismo, pois isto não mais existia no mundo ocidental, tendo existido apenas enquanto perdurou a frágil e rápida democracia grega, logo abocanhada por Felipe da Macedônia,
depois por Alexandre Magno, depois pelos romanos, depois pelos turcos... Em segundo lugar, se alguém está se referindo a Jesus, hoje, também não tem qualquer sentido. Já não é anacronismo, mas incompreensão de que a Sua segunda vinda não é para manter o status quo, mas a certeza de que o reino anunciado na Sua primeira vinda tornou-se realidade. Por fim, mas não por último, Jesus não veio ao mundo para reafirmar sistemas governamentais mundanos ou temporais; não veio para apoiar lutas por poder ou para demonstrar apego a bens materiais. Ele veio para nos trazer a mensagem revolucionária de que só conseguiremos avançar, quando tivermos a consciência da do perdão, da fraternidade, só possível através do Amor, Amor com letra maiúscula.

É por intermédio de uma linguagem substantiva, e não adjetiva, oca e balofa, que ele se manifesta. Basta ver o Evangelho de João: Jesus é o verbo da vida, que se fez carne; é o cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo; é o belo Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas; é o pão da vida, que mata a fome eterna; é o pão do céu, que dá a vida eterna; é a água viva, que mata a sede eterna; é a luz do mundo; é a ressurreição e a vida; é o caminho, a verdade e a vida; é a vinha, cujo vinhateiro é o Pai; é aquele que venceu o mundo, tendo vindo para dar testemunho da verdade eterna.

Não há, em parte alguma dos quatro evangelhos considerados canônicos, uma única palavra sobre política partidária, defesa ou luta pelo poder político, mas de que a vida só se transforma pelo Amor e Amor exige perseverança, paciência, tolerância e sacrifício. Os judeus tentaram, através da violência, libertar a Judeia, mas foram massacrados por Vespasiano e Tito, em 70 d. C. Em suma, Jesus não prega a transformação pela espada ou pelo voto, mas pelo Amor.

Uma postagem como a que citei acima, nem como ironia serve, pois a ironia pressupõe inteligência. Diante de tais fatos, fico me perguntando qual foi a parte da afirmação categórica, clara, incisiva e indubitável, que não entenderam, quando da resposta de Jesus a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (ἡ βασιλεία ἡ ἐμὴ οὐκ ἔστιν ἐκ τοῦ κόσμου τούτου.), enfatizando: “Agora, o meu reino não é daqui” (νῦν δὲ ἡ βασιλεία ἡ ἐμὴ οὐκ ἔστιν ἐντεῦθεν. João, 18,36)?

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  1. Os que fazem a política dos homens estão longe do revolucionário Jesus! Seu nome usado por muitos , sua mensagem na voz de falsos profetas , retratam a triste hipocrisia dos políticos !

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  2. Isto mesmo, Fernando! Obrigado pela leitura e pelo comentário.

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