Em Grande sertão: veredas , Riobaldo, encaminhando a conversa para o fim, diz a seu interlocutor que “a morte de cada um já está em edital...

Motes em 'Grande sertão: veredas'

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Em Grande sertão: veredas, Riobaldo, encaminhando a conversa para o fim, diz a seu interlocutor que “a morte de cada um já está em edital” (22ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 416), corroborando o que já afirmara anteriormente, “Dia da gente desexistir é um certo decreto” (p. 45), e o que dizem os seus jagunços:

“— Se amanhã meu dia for, em depois-d'amanhã não me vejo.” “— Antes de menino nascer, hora de sua morte está marcada!” “— Teu destino dando em data, da meia-noite tu vivente não passa...”
— p. 364 —

Essa nova compreensão de Riobaldo a respeito da morte é proveniente da relação que ele estabelece com o compadre Quelemém, intermediada por indicação de Zé Bebelo, com quem Riobaldo se encontra, ambos já aposentados da jagunçagem, mas com este vivendo o doloroso luto da morte de Diadorim. É o consolo do espírita Quelemém que trará a Riobaldo a nova percepção de que morrer não é o fim,
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mas apenas uma transição necessária entre várias encarnações, pois “para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada, como o que se põe, em teatro, para cada representador – sua parte, que antes já foi inventada, num papel.” (p. 348), tendo em vista que “A vida da gente nunca tem termo real” (p. 428), é uma travessia, não à toa, a última palavra do livro.

Sabemos que a narrativa de Riobaldo é uma representação literária de uma história contada oralmente a um interlocutor anônimo, que toma notas do narrado, mas cuja fala, apesar de existir, não se revela a não ser pelas interpelações e respostas do ex-jagunço (o senhor aí escreva: vinte páginas... Nos campos do Tamanduá-tão. Foi grande batalha, p. 391). Na realidade, o que temos nessa representação da oralidade é uma teoria da narrativa, que merece ser estudada a fundo, tornando assim a narrativa de Grande sertão: veredas um duplo, que, a um só tempo, conta uma história e define os rumos do que e do como se deve contar. Claro está que, exatamente por ser uma representação literária, uma mímesis, não se pode tomar a sua narrativa como uma oralidade tout court.

Do mesmo modo, essa mímesis nos deixa entrever como poderia ser uma narrativa oral, pois as marcas ali estão, sobretudo, no vocabulário, nos ditos populares e no ritmo que a fala de Riobaldo assume, em que podemos identificar vários versos heptassílabos, aparecendo, algumas vezes, em dupla. Não se trata apenas de composição mimética, estritamente literária, mas do conhecimento de Rosa, de que o ritmo ternário do heptassílabo é muito comum na nossa fala cotidiana, apenas não o percebemos, por não termos o ouvido educado para isto.

Grande Sertão (1965) ◼ Dir: Geraldo e Renato Santos Pereira
Lembremos, de modo a dar substância à construção mimética, que Riobaldo tem um pendor para a poesia popular e chega a fazer versos (vejam-se as três estrofes, na p. 230), que não cantava, mas que mostrava para as outras pessoas:

“O que me agradava era recordar aquela cantiga, estúrdia, que reinou para mim no meio da madrugada, ah, sim. Simples digo ao senhor: aquilo molhou minha ideia. Aire, me adoçou tanto, que dei para inventar, de espírito, versos daquela qualidade. Fiz muitos, montão. Eu mesmo por mim não cantava, porque nunca tive entôo [sic] de voz, e meus beiços não dão para saber assoviar. Mas reproduzia para as pessoas, e todo o mundo admirava, muito recitados repetidos."
— p. 93 —

Chamo a atenção para o fato, porque na afirmação categórica de Riobaldo de que “a morte de cada um já está em edital”, se revela a formação de dois versos de sete sílabas, frequentes no Grande sertão, pelas razões já expostas, conforme se pode ver em alguns exemplos abaixo, recolhidos ao longo da narrativa:

“me senti pior de sorte que uma pulga entre dois dedos.” (p. 54) “Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo.” (p. 76) “Para ódio e amor que dói, amanhã não é consolo.” (p. 220) “A vantagem do valente é o silêncio do rumor.” (p. 257) “Isso tudo se deu curto, que nem o mijar dum sapo.” (p. 285) “Alegria de jagunço é o movimento galopado.” (p. 403)

Sem contar que algumas frases, pendem para o heptassílabo, precisando apenas de um pouco de ajuste, como quando Riobaldo fala de um dos jagunços, Garanço, que tinha a mania, como menino, de colocar nome nas armas:

“Punha nome em suas armas: o facão era torturúm, o revólver rouxinol, a clavina era berra-bode.”
— p. 130 —

A primeira e a terceira frases são heptassílabos perfeitos; para que a segunda e a quarta entrem no ritmo desse verso, basta que se oculte o verbo ser (era), como se ocultou na terceira. Várias outras frases apresentam estrutura semelhante. Voltando à frase que originou este ensaio, “A morte de cada um já está em edital”, poderíamos dividi-la em dois versos, para formar o mote de uma décima heptassilábica, em:

A morte de cada um já está em edital

Considerando que o primeiro heptassílabo tem um ritmo ternário marcado na 2ª, 5ª e 7ª sílabas, e que eu só mais afeito ao tradicional, que de tão tradicional já se tornou clássico, no sentido de paradigmático, cujo ritmo ternário se faz com as pausas na 3ª, 5ª e 7ª, tomei a liberdade de adequar o mote, para poder desenvolvê-lo. Após a adequação, o mote ficou assim:

pois de cada um a morte já está em edital.

Isto posto, vamos às décimas:

— 1 — A mulher da capa preta, para todos se apresenta, desespero só aumenta, para quem espia a greta e percebe, sem mutreta, a chegada do final, decisivo e sem igual, seu destino e sua sorte, pois de cada um a morte já está em edital. — 2 — Meu amigo, não se iluda, não procure escapar, tá marcado o seu lugar e não há quem o acuda. É inútil a ajuda pra deter esse final, o destino é normal, mesmo que ninguém suporte, pois de cada um a morte já está em edital. — 3 — É a certeza mais exata que na vida a gente tem. Para todos, ela vem, nunca ela faz errata. Não exclui e só acata a chegada do mortal. Ao abrir o seu portal faz a ceifa, opera o corte, pois de cada um a morte já está em edital. — 4 — Protestar não adianta, esperneio não resolve, sua capa tudo envolve, não escapa quem se espanta. Leva o bom e o sacripanta e iguala o desigual; ela é ponto final de um discurso sem recorte, pois de cada um a morte já está em edital. — 5 — Ao nascermos, se decide nossa data de retorno e não há nenhum contorno, é inútil o revide. Esta vida é uma lide, para aquele que é mortal, não procure ser o tal, vá tecendo o seu suporte, pois de cada um a morte já está em edital.

Em suma, arrisco-me a dizer que este monumental romance de Rosa é como um poema: não foi feito para os olhos, mas para os ouvidos. Deveria haver leituras frequentes, em voz alta de Grande sertão: veredas, para revelar a beleza rítmica ali criada por João Guimarães Rosa.

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