'Muito barulho por nada', título da peça de Shakespeare, me faz evocar o desempenho de alguns poetas cuja dicção estridente, ruido...

Retrato a giz

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'Muito barulho por nada', título da peça de Shakespeare, me faz evocar o desempenho de alguns poetas cuja dicção estridente, ruidosa, lembra o som de charangas saudadas por fogos de artifício que possuem o falso brilho e a vida breve dos fogos-fátuos. O alarido, no caso, procura camuflar a retórica vazia, ornada de miçangas, paetês, lantejoulas, onde prevalece o acessório em detrimento do principal.

A poesia de Maria de Fátima de Barros Neves se impõe porque é diferente da que grita para se fazer ouvir, escutar, embora essa última quanto mais se esgoele mais faça por merecer ouvidos moucos. Claro que há poetas que gritam a plenos pulmões e têm o que dizer, a exemplo de Maiakovski e Castro Alves.

Escrevendo anos atrás sobre “O Discurso das águas”, da mesma autora desse “Retrato a giz”, observei: “(...) a dicção de Fátima não é nenhum milagre de Fátima, dádiva dos deuses ou dos céus, mas fruto de quem busca, de quem procura, de quem, pertinaz, só concebe o lirismo quando fundado na linguagem”.

Com efeito, Fátima não permite que o vespeiro dos sentimentos desembeste à frente da linguagem de modo a que esta seja submetida ao jugo de manifestações ingenuamente confessionais, pois, fosse assim, o seu discurso permaneceria restrito aos estreitos limites de um narcisismo ególatra e adolescente.

Quando Massaud Moisés preconiza que o gênero lírico estaria subordinado à fase da adolescência, da imaturidade emocional, enquanto o épico assinalaria o momento em que o poeta alcança a maturidade interior, ele simplesmente esquece que existem líricos maiores, tão maiores que não seria inapropriado afirmar que os seus poemas soam como verdadeiros épicos da alma. Em Fátima, conforme escrevi no prefácio do seu livro “Discurso das águas”, prevalece “o lirismo coletivo, o eu plural, fio de um rio que se origina na individualidade de uma nascente que termina transbordando na foz dos seus leitores”.

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Nem sempre, porém, o lirismo de Fátima se cumpre de conformidade com o que preceitua, por exemplo, Victor Manuel de Aguiar e Silva: “A poesia descritiva só é liricamente válida, quando transcende um puro inventário de seres e coisas, quando utiliza a descrição como um suporte do universo simbólico do poema”. Em outras palavras, o poeta lírico se vale da realidade exterior como mero pretexto para, a partir dela, como uma espécie de rampa de voo, incursionar nos desvãos do seu mundo interior para dele extrair e expressar os seus mais profundos sentimentos.

Tal parece não ocorrer com “Paisagem em Salamanca”, poema em que o eu-lírico apenas contempla o cenário sem nele interferir, deixando-o quase incólume, intacto, como se a paisagem bastasse a si mesma e ainda fosse capaz de prover o poeta dos versos a seguir:

“vale acima, bocejam nuvens cinza. o gado manso sossega sonolento. ao pé do monte, anda lento um riacho. velhas franzinas cochilam tosquiadas. flores miúdas repousam nas campinas”.

Esse poema, porém, está longe de apenas “suscitar a visão plástica de uma paisagem”, já que essa somente é descrita para estabelecer uma relação panteística, concorde e simétrica entre estados d’alma e natureza. Quero dizer, a imobilidade da paisagem, a forma telegráfica como a ela se refere o eu-lírico, corresponde ao seu mundo interior, regido pela paz e pela placidez de uma atmosfera bucólica.

Creio que podem passar despercebidos ao leitor ou mesmo ao crítico menos atento alguns detalhes, algumas filigranas ou nuances que perpassam os poemas mais recentes com relação aos poemas anteriores de Maria de Fátima de Barros Neves. Ou seja, embora os núcleos temáticos de sua lírica sejam quase sempre os mesmos, com uma ênfase toda especial nos temas marinhos, há sempre algo de novo na maneira de o eu-lírico expressar os seus sentimentos. Desta feita, inclusive, a par dos poemas líricos, ela acrescenta um poema narrativo – “Tocaia” – de extração política:

“Raso da Catarina no Sertão, trilha de Cuamatá, o peregrino, brejo PanPankararé na região. Presa de urubutinga matutino, índio na resistência de invasão. golpe de aventureiro em desatino, força de fazendeiro e capitão, tiro do pistoleiro Jesuíno. má sorte de acauã num alçapão. salta, no vau das pedras rio divino. corpo numa emboscada em sedução. tomba mais um cacique sol a pino, tribo e mata ao açoite da traição”.

Já um outro poema, “A Máquina de pão”, encerra o sentimento nostálgico de um eu-lírico frustrado por não mais meter a mão na massa para nela imprimir as suas impressões digitais. A multiplicação dos pães, então, opera-se como um milagre da tecnologia, de forma mecânica, ao mesmo tempo em que o homem experimenta amargamente uma espécie de declínio da aura das coisas simples, prosaicas, originais e únicas que o rodeavam cotidianamente e que sempre estavam à altura das mãos. Enfim, falta calor humano a esses pães que sequer crepitam:

“vestida de branco plástico padeira da lógica invenção, a máquina, em seu ventre de aço, fabrica – amassa e assa – o pão. broa, fogaça, baguete, ciabata, paridas da exata invenção, um só ingrediente lhe faz falta: o afago hábil das mãos”.

O jovem autor, por mais que deseje ser original, por mais que deseje imprimir aos seus escritos o sinete de sua individualidade criadora, sempre se inicia imitando ou mesmo macaqueando algum poeta, dramaturgo ou ficcionista com o qual mantém “afinidades eletivas”. Posteriormente, a depender de seu talento e pertinácia, finalmente encontra a voz com que se diferençar das muitas com as quais dialogava. Por último, alguns passam a imitar a eles mesmos, na medida em que incorporam aos seus textos recursos estilísticos que, de tão sedimentados, findam por se converter em cacoetes ou em tiques já plenamente exauridos por força do uso, da repetição.

Maria de Fátima de Barros Neves já delimitou o seu próprio espaço com relação às vozes com as quais dialogou, além de evitar o discurso tautológico, redundante, espécie de paráfrase intramuros, para cumprir um percurso francamente ascensional.
◼ Prefácio do livro Retrato a giz, de autoria de Maria de Fátima de Barros Neves, a ser lançado

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