É mais que provável que a criação artística tenha, até aqui, resultado mais da intuição de artistas que de supostos saberes reflexivos da ...

A arte que vem de baixo

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É mais que provável que a criação artística tenha, até aqui, resultado mais da intuição de artistas que de supostos saberes reflexivos da parte dos mesmos. Se do primeiro processo criativo o individuo recebe os favores da intuição, na seguinte função cognitiva prevalece o pensamento, segundo as categorias dos tipos psicológicos até hoje não contraditas de Carl Jung. Uma explicação para o predomínio dessa tendência, perfeitamente atestável na própria História da Arte, pode ser a incorporação pela linguagem artística de elementos discursivos soando de certo modo abruptos, destoantes, e num primeiro momento até esdrúxulos –
Hieronymus Bosch ▪ 1500
do ponto de vista das normas sociais predominantes.

Normalmente trazidos à tona pelo garimpo da intuição, conteúdos imagéticos e narrativos apelaram muitas vezes para uma algaravia de signos estranhos, propagando discursos capazes de pular degraus e mais degraus de dogmas racionais vigentes ou lógica comportamental, propiciando, apesar disso, o que muito bem pode ser traduzido por um Resgaste Cultural – um eterno retorno – de símbolos e procedimentos até então embutidos & embotados no palco ou período de determinada história política e cultural, o que fará desse processo criativo aninhado em substratos psíquicos-sociais filtrados no tempo, uma ação cultural redentora, e talvez o melhor e mais garantido modo de se fazer Arte pra valer, pelo poder restaurador que dele emana em favor da unidade do espírito humano, via de regra quase sempre mutilado, coxo – um herói ferido e sem medalhas no curso da já numerosa Guerra Social Humana.

Vale aqui lembrar que nesse processo restaurativo, a invisível mão seletiva do status quo dominante continuará ainda a podar, em parte, expressões consideradas excessivas, que dificilmente passarão para os registros da História, embora a riqueza expressiva aliada a recursos técnicos inovadores tenha consagrado artistas como Hieronymus Bosch, numa Holanda começando a agitar o Mar do Norte desse longínquo século XV, e cuja miscelânea de substratos herdados das concepções alquímicas de um passado que lhe era então recente, tenha, não apenas causado sensação no público (uma obra bifocal: de um lado a mente conceptiva do medievo com sua ciência alquímica,
Hieronymus Bosch ▪ 1516
de outro os dogmas religiosos advindos do Mediterrâneo, com sua absurda cosmogonia de céu e inferno. Esta obra viria, séculos depois a ser vista como uma espécie de Surrealismo extemporâneo, avant garde, pelos estudiosos da Arte que a classificariam de Surreal, simplesmente), mas influenciado outros artistas importantes, como Pieter Brueguel e sua família de artistas.

No entanto, ambos os modos de criação decorrentes desses tipos psicológicos diferentes traduzem a tensão interior que gera no artista uma recorrente compulsão para assinar a folha de presença do tempo veloz que lhe ultrapassa, de através de sua obra refletir-se sobre o mistério e a beleza da vida, traduzindo esse propósito que é inerente ao ser e que tanto o pode levar a mergulhos no imponderável como a despertares criativos e portanto profícuos, promoteur de novas ressignificações no curso do progresso civilizacional, afinal os marcos estéticos da percepção, tais como aqueles firmados pela Geometria, por ex, são também um marco sensitivo de nossa espécie biológica, pertinente a todos. Através daquelas duas ocorrências, teremos rotas divergentes a exigir disciplinamentos diferenciados.

Ao longo da história, não foram poucos os vultos nascidos do povo e sem anteparo da cultura oficial, a criarem escolas e tradições, a exemplo de Homero, filho de classe popular da Grécia antiga que reuniu a tradição oral
Giotto di Bondone ▪ 1304
de seu tempo para criar a poesia épica, e de Giotto, filho de pastores montanheses que, num lampejo de gênio iria, sem saber, libertar a pintura ocidental da estática bizantina e preparar os caminhos do Renascimento. Não que uma arte mais intuitivamente inovadora provenha necessariamente de artistas oriundos de extratos sociais mais baixos, mas é que sobre os ombros daqueles mais familiarizados com o poder, é comum pesar uma espécie de subserviência estética que de algum modo os mantém encapsulados pelo gosto dominante da elite, da qual dependem economicamente. Elites, como se sabe, nunca pretenderam introduzir inovações em suas sociedades. Veja-se por ex, as décadas que se arrastaram para que o governo dos EUA permitisse a difusão da internet, que na metade do século passado era já praticada em Universidades americanas por cientistas europeus trazidos da Europa com o final da segunda guerra mundial.

Classificações de Arte como ingênua ou erudita, por ex., têm servido bastante às compartimentações de pensamento próprias da cultura ocidental, gerando confusões e equívocos que só se acirram no passar do tempo. A partir do chamado Renascimento no ocidente, elegeu-se como padrão a expressão cultural greco-latina, passando-se a considerar como exótica ou menor outras manifestações estéticas não submetidas àquele cânon. No passar do tempo essas diferenças se acentuaram com o fortalecimento e propagação de instituições do saber e do poder (que jamais criaram instrumentos de defesa de direitos para as atividades sócio-culturais preconceituosamente consideradas menores, ressalvando-se os recentes avanços do progressismo social registrado nas universidades do Sul Global) constituindo mundos paralelos e cada vez mais distintos, hoje rotulados de popular e erudito.

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J. Borges ▪ 2020
O intercâmbio destas duas realidades culturais gerou uma prática elitizada em detrimento da outra popular, relegada sempre a recônditos de visão apagada. Essa discriminação, desde seu inicio, tornou-se possível devido a ação da Igreja e seu poder hegemônico e absolutista, capaz de inferir fortemente na cultura e em campos da atividade e da mente, mesmo quando sequer diziam respeito algum à Religião, como a Alquimia, a Arte, a Ciência Escolástica e os costumes de uma maneira geral, chegando esse poder a interferir até mesmo na arquitetura de casas e vestimentas populares. Em via dupla, o censor religioso trafegou permitindo conexões de um lado, e restrições de outro. Algo parecido com um juiz de futebol arbitrando decisão de campeonato tendo já um rascunho prévio do placard no bolso. Faltas consideradas graves purgavam-se na fogueira.

Mas foi através do período identificado por Barroco que ficou demonstrado que popular e erudito podem se interpenetrar e se influenciar mutuamente, gerando vitalidade resultante dessa capacidade “dialética” de união dos contrários. Por meio de uma relação de complementaridade entre estes dois universos conceptivos surgiram grandes obras literárias, tais como — na Espanha — Dom Quixote (Cervantes) e — aqui no Brasil — Grande Sertão: Veredas (Guimarães Rosa), A Pedra do Reino (Ariano Suassuna) e A Bagaceira (José Américo de Almeida),
Miguel dos Santos ▪ 1987
que demonstraram a vitalidade desse engendramento de duas realidades, por gerar novas tendências, que se multiplicam. A Arte da Pintura, por sua vez, ganhou novos formatos conceptuais que no século XVII lhe trouxeram talvez os mais poderosos momentos de expressão.

Quando o esforço de uma obra responde a questões que ultrapassam limites locais ou regionais, acaba se tornando de interesse geral. Pertinho de nós temos o exemplo da Arte popular do Nordeste brasileiro, que nas áreas de música, teatro e literatura de cordel, fez predominar uma busca por respostas aos enigmas que respeitam questões vitais. Condição propiciada pela própria situação de isolamento e abandono em que vive o povo do sertão, foco central desta produção cultural, e que assegurou a manutenção das fontes tradicionais por onde se enraizou o sincretismo histórico que forja a cultura brasileira.

Por estas reflexões, e diante de uma coleção de exemplos que vai de Leandro G. de Barros a Nicandro Nunes e aos irmãos Batista, de Vitalino a Miguel dos Santos, de João Pernambuco a Zé Marcolino, vamos mergulhar neste universo paralelo, lembrando-nos sempre que a cultura popular brasileira é feita pelo povo e para seu deleite, à margem das influências dominantes sempre prontas a diluir conteúdos. Mas é justamente nesta posição recuada, com o povo encerrado em uma condição qualificada pela marginalidade, que lhe é permitido o caminho da assimilação, recriação e transfiguração.

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