Na origem, um galo muito metido a besta achava que o sol só nascia porque ele cantava. Toda madrugada ele cacarejava e só depois o sol nas...

Nossos galos de Chantecler

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Na origem, um galo muito metido a besta achava que o sol só nascia porque ele cantava. Toda madrugada ele cacarejava e só depois o sol nascia. Até que um dia ele dormiu demais e quando acordou o sol já havia nascido.

Aqui na Paraíba eu já conheci uns quantos “galos” de Chantecler.

Quando meus pais estavam descendo a ladeira financeira com toda velocidade, fomos vítimas de muitas humilhações. Nada que a força do caráter de minha família não pudesse superar, inclusive provocando grandes risadas quando ao final de cada dia fazíamos uma espécie de competição para ver qual de nós havia levado a maior das pancadas.

Uma delas tornou-se inesquecível. Um belo dia um cidadão que estava em ascensão econômica, fulgurante nas colunas sociais, nos visitou a bordo de uma soberba inenarrável. Começou por desfiar sua inteligência e seu sucesso financeiro. Por fim disse que queria ajudar. Esperançosos, achávamos que ele iria propor um aporte de capital, porque até nossos telefones estavam cortados; só recebiam chamadas. Porém ele foi por outro caminho:

“- Notei que vocês andam muito preocupados em dar satisfação aos fornecedores e aos bancos. Dessa maneira não sobra tempo para pensarem nas estratégias de soerguimento da empresa”.

Minha mãe vibrava com a conversa. Meu pai, mais cauteloso, perguntou qual seria a solução. O vitorioso empresário fez um muxoxo como se fosse dizer o obvio:

“-É simples; vocês precisam de um cash flow”.

Sem ter a menor ideia do que o bacana falava, mais uma vez minha mãe concordou, porém queria saber o que era aquilo, se era uma máquina importada ou o quê.

“-Dona Creusa, cash flow é um fundo de caixa. Vocês separam uma quantia... aí uns quinhentos mil dólares, eu creio que já é suficiente, para pequenas despesas, e vão se concentrar nas questões macro”.

O pior é que ele disse isso falando sério. Quinhentos mil dólares? Os telefones estavam cortados por uma dívida que nem chegava aos quinhentos dólares...

Algum tempo depois, aquele vitorioso empresário quebrou na emenda. Acho que ele esqueceu de fazer um cash flow para sua empresa.

Mas pelo resto da vida, no seio de nossa família, sempre que alguém aparecia com uma ideia tão impossível como essa, minha mãe dizia:

“- Não me venha com cash flow”.

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  2. Na última vez que estive com meu pai, 1992, lá em Sorocaba, uma semana antes de seu falecimento, pediu-me, de sua cama, que eu lesse para ele o poema "Se", de Kipling, que eu sabia estar num dos volumes do Tesouro da Juventude que me pertencera e que deixara para ele, quando viera trabalhar no sertão da Paraíba. Entendi que se tratava de seu testamento. Entre outras coisas, li, na tradução de Guilherme de Almeida, que

    Se és capaz de arriscar numa única parada,
    tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
    E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
    resignado, tornar ao ponto de partida.

    ... és um homem, meu filho.

    Descobri, ali porque eu fizera isso em Pombal, alguns anos antes, ao vender casa e meu caminhão-caçamba para investir no filme O Salário da Morte, com o qual perdi o que tinha e o que não tinha... com a calma que me valeu escrever, então, meu primeiro romance - Israel Rêmora - com o qual ganhei o prêmio Fernando Chinaglia, que fez com que minha base financeira voltasse aos trilhos.
    -
    Lembrei-me disso quando revi, na pequena loja Bagunça, de miudezas, a mesmíssima, a mes-mís-si-ma dona Creusa Pires dos áureos tempos da imensa Gran Pires, ali, ao lado, que dominava a Lagoa, no centro da cidade. Quem não se emocionaria ao se deparar com tal semelhante?

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