“Quintilius Varus, devolve as minhas legiões!” Quintili Vare, legiones redde! . Suetônio nos relata que o grande desastre romano na ...

Os sertões: a guerra e as guerras

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“Quintilius Varus, devolve as minhas legiões!”
Quintili Vare, legiones redde!.

Suetônio nos relata que o grande desastre romano na batalha de Teutoburgo, em 9 d.C., na Germânia, onde três legiões foram massacradas com seu general, Quintílio Varo, seus oficiais e todas as tropas auxiliares, causou grande consternação ao imperador Otávio Augusto César, ao ponto de ele deixar crescer a barba e o cabelo por vários meses, e, de tempos em tempos, bater a cabeça contra a porta vociferando contra Varo, para que lhe devolvesse as suas legiões. Diz ainda Suetônio, que o aniversário desse desastre (clades) foi doravante para
Jean Sorieul, 1854
Augusto um dia de tristeza e de luto (maestum ac lugubrem, Suetônio, O divino Augusto, XXIII).

No relato de Euclides da Cunha, em Os sertões, sobre a guerra de Canudos, há, pelo menos, três vertentes a seguir, a partir das metáforas que o escritor cria e que, pouco a pouco, vai soltando as frases que nos levam a cada uma delas, funcionando como prolepses da narrativa: a guerra fratricida, a guerra de guerrilha e a guerra de destruição total. Para a guerra fratricida, temos a referência à guerra da Vendeia, à guerra dos Chouans e a Tebas; na guerra de guerrilha, está a referência à batalha de Teutoburgo, citada acima, e para a guerra de destruição total, encontram-se as referências a Troia e, mais uma vez, a Tebas.

Diferentemente, do que muitos pensam e do que o próprio Euclides chegou a pensar, antes de se encontrar no palco da guerra, as referências à Vendeia e aos Chouans, não amarram o conflito em Canudos a uma revolta de monarquistas contra republicanos, conforme aconteceu na França, em 1793 e 1799. Para entendermos melhor estas referências, saibamos que Victor Hugo retrata o momento da revolta monarquista na Vendeia, no norte da França, contra a revolução francesa e a proclamação da primeira república (1792), no seu romance 93 (Quatrevingt-treize), numa alusão também ao ano em que o período de Terror da Revolução Francesa teria início (1793-1795).

Legrip, 1800s
Já o escritor Honoré de Balzac prova o seu primeiro sucesso com o romance Les Chouans, sobre o levante antirrepublicano, na Bretanha, em 1799. Embora os Chouans e a Vendeia sejam momentos diferentes, o fato de terem sido uma revolta católica, monarquista e antirrepublicana, contando com a participação de camponeses, une os dois episódios, que passaram a ser conhecidos como as Guerras do Oeste. Se Euclides mantém estas referências, na escrita final do livro, acreditamos que tenha sido porque, assim como a guerra dos Chouans e a da Vendeia, a guerra de Canudos foi uma guerra fratricida – franceses contra franceses, brasileiros contra brasileiros (todas as referências a Os sertões são provenientes da edição preparada por Andre Bittencourt, publicada pela Peguin Classics/Companhia das Letras, São Paulo, 2019):

“E Canudos era a Vendeia...”
"O Homem", Capítulo V, p. 247

“Malgrado os defeitos do confronto, Canudos era a nossa Vendeia. O chouan e as charnecas emparelham-se bem como o jagunço e as caatingas”
"A Luta", Parte I – Preliminares, Capítulo IV, p. 290

“A despeito das ordens do dia em que se cantava vitória, os sertanejos apareciam como os chouans depois de Fontenay”
“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo V, “O assalto”, p. 513

“Citavam-se nomes de novos cabecilhas. Apelidos funambulescos como o dos chouans: Pedro, o Invisível, José Gamo, Caco de Ouro, e outros”
“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo VI, p. 530

Não satisfeito com as referências a guerras reais, Euclides da Cunha procura enfatizar o fratricídio com a referência à mítica guerra entre os irmãos tebanos, Polínices e Etéocles, retratada por Ésquilo, na peça Os sete contra Tebas, e por Eurípides, em As Fenicianas. Os dois irmãos, ambos filhos de Édipo, lutando pelo poder, acabam por se matar. Embora os sete heróis levados a Tebas, por Polínices, ele incluído entre os sete, não tenham tido êxito na retomada do poder, a cidade será destruída, tempos depois, pelos Epígonos, os filhos destes heróis, dentre eles os famosos Estênelos e Diomedes, ambos presentes na guerra de Troia. Esta é a ponte para a referência à guerra de destruição total: Tebas e Troia foram destruídas totalmente, assim como Canudos:

“Comoviam-no o espetáculo dos infelizes que acabava de encontrar armados até os dentes, e o quadro emocionante daquela Tebaida turbulenta”
“O Homem”, Capítulo V, p. 250
Giovanni Silvagni ▪ 1800s
Ratificando a guerra fratricida com o viés da mitologia, lembramos das insistentes alusões de Euclides da Cunha aos sertanejos como titãs, o que nos remete à Titanomaquia, luta de Zeus, contra o pai e os tios, os titãs, para o estabelecimento da ordem. Zeus, como deus cósmico, acaba vencendo, utilizando como armas os raios fabricados pelos Ciclopes. Não é à toa que, ao final da narrativa, Euclides compõe a imagem da derrocada de Canudo, de que a beleza da construção emerge da ruína da cidadela:

“A igreja sinistra bojava, em relevo, sobre o casario em ruínas; e, impávidos ante as balas que sobre ela convergiam, viam-se, no resplendor fugaz das fuzilarias, deslizando-lhe pelas paredes e entulhos, subindo-lhe pelas torres derrocadas ou caindo por elas abaixo, de borco, presos aos blocos disjungidos, como titãs fulminados, vistos de relance num coriscar de raios, aqueles rudes patrícios indomáveis...”
“A Luta”, Parte VI – Últimos Dias, Capítulo III, p. 615
Igreja do Bom Jesus ▪ Canudos F. Barros, 1897 ▪ Museu da República
A terceira vertente é a da guerra de guerrilha, “método combatente dos matutos – guerrilheiros impalpáveis dentro da tática estonteadora da fuga!” (“A Luta”, Parte I – Preliminares, Capítulo III, p. 282), utilizando-se da “guerrilha de tocaias” (“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo V, “O assalto”, p. 507). Para dar a sustentação à guerra de guerrilha, cujo resultado é derrota vergonhosa, com o mais fraco vencendo, de modo humilhante, o mais forte, Euclides da Cunha compara a expedição Moreira César à batalha de Teutoburgo:

“Os batalhões de Moreira César eram as legiões de Varo... Enlaçavam-nos, na fuga, catervas formidandas”
“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo I, p. 408

Quintílio Varo, eleito Cônsul, em 13 a.C. (Augustus, Res gestae, 12), era o comandante das três legiões romanas, derrotadas na floresta de Teutoburgo. Com essa desastrosa perda, em 9 d. C., seguida do suicídio de Varo, acabara-se o sonho de Augusto de submissão da Germânia. A emboscada às legiões romanas e a guerra de guerrilha forma comandadas por Armínio, germânico criado entre os romanos e tido como aliado inquestionável, até se passar para o lado de seu povo. Armínio cortou a cabeça de Varo, como troféu, e a enviou à Boêmia, ofertando-a ao rei Maroboduus, que, não aceitando o presente, remeteu-a aos romanos, para as honras fúnebres ao antigo cônsul.

Peter Janssen ▪ 1803
A relação estabelecida por Euclides da Cunha é, como já vimos, feita com o desastre da terceira expedição, comandada pelo temido coronel Moreira César, o “Corta-cabeças” (“A Luta”, Parte III – Expedição Moreira César, Capítulo I, p. 352). A morte de Moreira César, atingido por dois tiros, no início dos combates daquela expedição, promoveu um desconcerto nas tropas e uma “debandada” geral (Capítulo IV, p. 390), cujo resultado foi a perda de 200 combatentes do exército, além da morte, decapitação e empalamento do coronel Tamarindo, assim como aconteceu a decapitação de Varo por Armínio. Os jagunços utilizaram esses despojos para incutir o terror nas expedições seguintes:

“Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho.
[...]
Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo” (“A Luta”, Parte III – Expedição Moreira César, Capítulo VI, p. 394-5).
[...]
“À margem esquerda do caminho, erguido num tronco – feito um cabide em que estivesse dependurado um fardamento velho – o arcabouço do coronel Tamarindo, decapitado, braços pendidos, mãos esqueléticas calçando luvas pretas...” (“A Luta”, Parte IV – Quarta Expedição, Capítulo II, p. 432).

A guerra de “guerrilhas solertes dos jagunços” (“A Luta”, Quarta Parte – Quarta Expedição, Capítulo II, p. 417) se impõe contra um exército muito bem armado com canhões Krupp e um canhão Whitworth 32. Este último, apelidado de “matadeira” (“A Luta”, Parte IV – Quarta expedição, Capítulo IV, p. 477), o “monstruoso espantalho de aço” torna-se um estorvo com os seus 1700 quilos, passando a ser designado como “um trambolho” (p. 418), “o obstruente 32” (p. 422), “o moroso 32” (p. 426), “o ronceiro 32” (p. 430). Todo o trabalho de levá-lo a Canudos, seguido de um aparelhamento dos caminhos para a sua condução, acaba-se com um único tiro, e a sua completa inutilização, ao se quebrar uma peça do seu obturador.

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Imagem publicada na 1ª edição do livro Os sertões de Euclides da Cunha com a legenda Monte Santo (Base de Operações) ▪ Fotografia: Flávio de Barros, 1897 ▪ Arquivo Histórico Museu da República.
Os jagunços, conhecedores da região e com ela se confundindo, são mostrados por Euclides da Cunha, em página antológica, numa simbiose homem-terra e homem-vegetação, criando a imagem do sertanejo como um guerrilheiro com “torso de atleta, encourado e rude”, “trágico caçador de brigadas”, “Anteu, indomável”, “titã bronzeado, fazendo vacilar a marcha dos exércitos”, este um “minotauro” perdido nos desvãos de uma terra e de uma flora agressivas, mas que abria “ao sertanejo um seio carinhoso e amigo” (“A Luta”, Parte I – Preliminares, Capítulo III, p. 288-289).

É por estas estratégias estilísticas, cujas prolepses são claras apenas aos que conhecem as referências, que Os sertões alcançou uma estatura literária, ainda que no seu cerne e na sua intenção não tenha sido escrito para isto. Tendo chegado a Canudos apenas com a quarta expedição, Euclides da Cunha reconstrói o que não presenciou, e mais ainda o que presenciou, com o estilo literário que eternizaria este livro, fazendo-o dos mais importantes livros do mundo. Não era para menos, a guerra, à sua chegada, já se encontrava romanceada na boca das gentes:

“Canudos aumentara em três semanas de modo extraordinário. A nova do último triunfo sobre a expedição Febrônio, avolumada pelos que a espalhavam, romanceada já de numerosos episódios, destruíra as últimas vacilações dos crentes que até então tinham temido procurar o falanstério de Antônio Conselheiro”
“A Luta”, Parte III – Expedição Moreira César, Capítulo I, p. 347).


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  1. Belíssimo ensaio, Professor Milton! Sobre o que me parece a maior obra literária do continente americano, "Os Sertões". Curioso como senhor se serve de historiadores quanto busca relatos entre ficcionistas, que sempre me pareceram trazer a História com mais intimidade. Em meu romance Relato de Prócula, o protagonista, padre Martinho, numa entrevista ao programa do Jô, diz que ensinava História, em Pombal - tudo criação minha - através de filmes. "É impossível, para mim, falar da Idade Média sem mostrar El Cid, Decameron, Ivanhoé, O Senhor da Guerra, Excalibur, O Nome da Rosa. Não poderia falar de nossa escravidão sem Sinhá Moça, Xica da Silva, Ganga Zumba e Chico Rei. Falar de cangaceiros sem mostrar O Baile Perfumado, Deus e o Diabo na Terra do Sol, Corisco e Dadá, mais O Cangaceiro? Impossível. Não poderia falar sobre colonialismo, sem Lanceiros da Índia, Kim, Os Sete Samurais, 55 Dias em Pequim, O Homem que Queria ser Rei, Anna e o Rei, Laurence da Arábia. Como falar da Revolução Russa sem mostrar os filmes de Eisenstein - O Encouraçado Potenkim, Outubro, A Greve, O Velho e o Novo – além de obras de outros autores, incluindo O Assassino do Czar, O Assassinato de Trotski, Reds, Anastácia?" O que o senhor diz sobre a guerrilha desarticulando as forças federais, eu vi e reconto em "A Batalha de Oliveiros", em que meu personagem filma a resistência pernambucana à invasão holandesa desarticulando o maior exército do mundo, na época, com a chamada "guerra brasílica". Seu título, OS SERTÕES, A GUERRA E AS GUERRAS", revela um trato seguro não só com gregos e romanos, como com o cortaziano "Todos os fogos o fogo". É fascinante o momento em que se vê uma síntese como a sua.

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  2. Obrigado, Solha, pela leitura e pelo comentário. Aprendi mais sobre Waterloo com Hugo e com Stendhal, do que nos compêndios de história. Ninguém como Zola, para nos ensinar sobre a guerra franco-prussiana, e Tolstói é supremo sobre as batalhas napoleônicas no leste europeu.

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  3. Raíssa Romero20/11/21 19:47

    ​​Excelente texto, comparando a batalha de Canudos retratada no livro "Os sertões" de Euclides da Cunha com outras batalhas históricas e famosas. Realmente, essa derrocada de Canudos foi histórica e mesmo com a vantagem bélica do exército e dos soldados, os sertanejos da cidade conseguiram derrotá-los inúmeras vezes. Não cheguei a ler "Os sertões", mas só ouço falar maravilhas deste livro.

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  4. Obrigado, Raissa!

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