“Tudo que é sólido desmancha no ar”. Ou na corrente sucessiva e sem fim dos ventos empoeirados que terminaram arruinando a casa do meu ant...

Berman, que saudade

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“Tudo que é sólido desmancha no ar”. Ou na corrente sucessiva e sem fim dos ventos empoeirados que terminaram arruinando a casa do meu antigo sítio, por onde passei recentemente. Desmanchou no ar.

Como se sabe, a frase vem de Marx, colhida por Marshall Berman como título e corolário do seu livro mais famoso. Frase que passei por cima, deixando-me levar pela compacta solidez dos vinte anos.

Compacta solidez, sim. Feita de inconformismo com a vida miserável e ainda assim passiva do meu mundo e dos caminhos que a leitura e a consciência seguiam me envolvendo. Max Beer, da “História do Socialismo e
das Lutas Sociais”, o mesmo que marcou o jovem Celso Furtado; Lênin, Caio Prado e Graciliano Ramos (este bem de perto com a sua vida e o seu exemplo), foram os materiais da minha construção. Sem falar no convívio de adolescente com o mestre velho de obra Luiz de França e o agente de estatística José Bonifácio Pessoa Correia de Oliveira. Este tinha o retrato do Cavaleiro da Esperança ao lado do de Cristo, na sala de sua casa.

Acrescente-se aí a potência em que se erigia a pátria do socialismo real, parceira maior no cerco e arraso da Alemanha de Hitler, praticando um regime de experiência socialista que amedrontava o capitalismo por consolidar fortes convicções no grande e vasto mundo dos desiguais. De quebra, batendo forte na cabeça do ex-coroinha encharcado de rezas e devoções, a máxima de Stalin, incrustada no manual de M. Rosental: “O marxismo é potente porque é exato”. Esse exato teve muita importância.

Nesse tempo, quer dizer, no tempo da minha mocidade, o sólido, o maciçamente sólido, era o que fosse exato. O abstrato da graça, da mercê, do sacrifício neste mundo para a glória no outro gastara a paciência do moço já triscado na leitura de Tobias Barreto, dos seus Estudos Alemães. Paciência que não dava camisa, não provia a mesa, não educava para a vida. Na realidade de minha Alagoa Nova da época, quando os sinos repicavam a cada criança que morria (e morriam muitas por semana e até por dia), os anjinhos da roça e das pontas de rua produzidos pelo conformismo, pelas virtudes da fé e da resignação... Não, isso não.

O “exato” do manual que o velho Bertino, contador-geral do estado, homem de fé pública me emprestara, impunha-se como preciso mesmo.

A princesa que Graciliano viu na Geórgia, de carne e osso e de beleza que no mundo burguês se arranjaria em serviços mais maneiros, na Rússia dos anos 1950 vivia do seu trabalho. O trabalho de enfermeira, como falou a mestre Graça (leia-se “Viagem”) é que garantia a dignidade. A dignidade já definida pelas “Tabelas votivas e Epigramas de Schiller: “Chega de falar no assunto: dai-lhe de comer e onde morar; quando tiverdes coberto a nudez a dignidade aparecerá sozinha.”

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