O economista, filósofo e escritor Eduardo Giannetti foi recentemente eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada pelo ac...

Eduardo Giannetti na ABL

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O economista, filósofo e escritor Eduardo Giannetti foi recentemente eleito para a Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada pelo acadêmico Tarcísio Padilha. É um acontecimento na vida cultural do país, face a categoria intelectual do novo imortal, autor de vários livros importantes e ex-professor na renomada universidade de Cambridge, na Inglaterra.

Giannetti tem cara de bom moço e de intelectual. É uma pessoa discreta, de fala mansa e que transmite autoridade, ou seja, saber. Um saber erudito, de academia, mas que ele sabiamente procura traduzir
Roda Viva ▪ TVC
em linguagem acessível, para todos. Por isso, transformou-se no que se chama “intelectual público”, isto é, alguém com muito conhecimento universitário que sabe se comunicar com o grande público, seja em livros, palestras ou redes sociais. É um Pondé menos arroz de festa.

Não bastasse, é mineiro. E ser mineiro é sempre uma responsabilidade, dado o imenso lugar ocupado por Minas na história cultural do Brasil. Minas que já nos deu Cláudio Manuel da Costa, Carlos Drummond de Andrade, Cyro dos Anjos, Afonso Arinos de Melo Franco, Adélia Prado, Affonso Romano de Sant’Anna, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Hélio Pellegrino, Guimarães Rosa, Darcy Ribeiro, Murilo Mendes, Abgar Renault, Murilo Rubião, Henriqueta Lisboa, Conceição Evaristo, Ziraldo, Oswaldo França Júnior, Alphonsus de Guimaraens e Roberto Drumond, entre muitos outros que não me vêm à memória. Uma constelação de talentos, por si só suficiente para ilustrar qualquer país.

A obra literária de Eduardo Giannetti é principalmente ensaística, o que se explica por sua formação de economista e filósofo. Ele é antes de tudo um pensador, na mais alta expressão da palavra. Um pensador que pensa e escreve. Sua bibliografia já é relativamente vasta e tudo que publicou, pode-se dizer, é importante.

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Em Vícios privados, benefícios públicos? – A ética na riqueza das nações, reflete sobre o papel da ética na economia, enquanto traça a evolução histórica do pensamento econômico e filosófico. Nas conclusões, uma citação do filósofo David Hume se destaca: “Todos os planos de governo que pressupõem uma grande reforma na conduta da humanidade são claramente fantasiosos”. Na mosca.

Em Trópicos Utópicos – Uma perspectiva brasileira da crise civilizatória, temos uma sortida reflexão sobre temas os mais diversos. Caetano Veloso, na contracapa, escreve que “Este é um dos mais belos livros escritos sobre o Brasil que já li”. Destaco um aforismo às páginas 35, que dá ideia do resto do livro: “A impossibilidade intelectual de crer não suprime a necessidade emotivo-existencial da crença”. Bravo!

Em O valor do amanhã, ele desenvolve com mestria um tema importante: “Desfrutar o momento ou cuidar do amanhã?”. Sabemos que nossa vida é administrada tendo em vista estes dois polos, o presente e o futuro, a cigarra e a formiga. Uma leitura enriquecedora, sob todos os aspectos. Recomendo.

O elogio do vira-lata e outros ensaios é um precioso conjunto ensaístico, retrato da vasta cultura do autor. Chamo a atenção para a conclusão do ensaio Um prefácio para Dom Casmurro: “O pessimismo machadiano, concluo, não é ponto de chegada, mas travessia. É preciso passar por ele,
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mas justamente para assimilar a sua força e ir além. A casca protege o fruto”. Perfeito.

Sua obra mais recente é O anel de Giges, criativa investigação do “experimento mental de se viver sem impedimentos ou censura social”, ou seja, invisível. Como agiríamos se não pudéssemos ser vistos pelos outros? É uma preciosidade imperdível.

Giannetti esteve aqui em João Pessoa há alguns anos para proferir palestra a convite da UNIMED, no Hotel Tambaú. O professor Wilson Marinho ciceroneou-o, mostrando-lhe os principais pontos da cidade que o filósofo até então não conhecia. Wilson, sempre arguto, perguntou-lhe como ele explicava o notável desenvolvimento urbano de nossa capital nos últimos tempos, já que não dispúnhamos de um parque industrial de peso. “É a força do setor de serviços”, respondeu o economista, confirmando sua atualizada e inteligente visão da economia.

Muito se tem falado sobre os acadêmicos que ingressaram recentemente na ABL: Fernanda Montenegro, atriz consagrada, Gilberto Gil, respeitado compositor, Paulo Niemeyer Filho, grande neurocirurgião. Todos notáveis em suas respectivas áreas, legítimos representantes da diversidade cultural do Brasil. A Academia tem lugar para todos eles, não há o que discutir. Mas o também recente ingresso de José Paulo Cavalcanti Filho, aclamado biógrafo de Fernando Pessoa, e de Eduardo Giannetti, genuíno homem de letras, indica que a ABL não perde de vista a precípua finalidade a que se destina, sob a inspiração de Machado de Assis, seu primeiro presidente, isto é, ser, antes de tudo, das letras.

De letras, artes e ciências, de tudo faz-se uma Academia, idealmente um retrato e um reflexo da cultura do povo que a criou e alimenta.

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