Eu tinha 13, 14 anos - Sorocaba-SP, 1954, 55 -, quando meu pai me deu um livro chamado Primeiro Encontro com a Arte, de um baiano germânic...

Pequenas decepções em gigantescos museus

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Eu tinha 13, 14 anos - Sorocaba-SP, 1954, 55 -, quando meu pai me deu um livro chamado Primeiro Encontro com a Arte, de um baiano germânico chamado Karl-Heinz Hansen. Obras-primas de vários museus do mundo - tudo muito remoto - até que dei com o “Autorretrato do Artista com a Barba Nascente”, de Rembrandt, e a informação de que pertencia ao MASP Museu de Arte de São Paulo - a somente... cem quilômetros dali!

Caçula, uma de minhas duas irmãs – já moça - me levou. Ficava, ainda, num edifício revestido de mármore branco, na 7 de Abril. Aquilo foi como se eu tivesse estado cara a cara com o enviado de Deus.
Rembrandt
Trinta e tantos anos depois - 1989 – o baque: leio na Veja que uma comissão de especialistas flamengos concluíra que o aquela não era obra do mestre, mas do círculo a que ele pertencia. O prestígio da obra – que hoje se chama “Retrato de Jovem com Corrente de Ouro” - … despencou de alguns milhões para um punhado de dólares. Levantada a dúvida sobre a competência e lisura de Pietro Maria Bardi, que fizera a compra em nome de Assis Chateaubriand, a suspeita de autenticidade se estendeu a outras aquisições suas, como o “Retrato do Conde-Duque Olivares”, que passou a ser, também, apenas “atribuído” a Velásquez, e “A Ressurreição de Cristo”, que muito expert, hoje, garante não ser de Rafael.

Já em 1994, quando eu estava no terceiro dos seis meses de trabalho em tempo integral dedicados à minha versão atualizada do “Jardim das Delícias”, de Hieronymus Bosch, por conta do deslumbramento em que pesara a semelhança da obra com as vistas aéreas de João Pessoa - lagoa em primeiro plano, o mar ao fundo -, me vi por acaso numa agência de viagens e a informação de que a passagem de ida e volta a Madri estava por apenas 700 dólares, 700 reais, devido à paridade no câmbio.
wJ Solha
Fui. Dei com “el Jardín de las Delícias” fanado (foi restaurado em 98, quatro anos depois.). Pior: “senti” que a pintura original, sobre madeira, era... menor do que minha versão em tela, que coincidia, inclusive, com os dados de “La LLave del Prado”, guia que eu comprara ao começar a visita. Ao conversar com o diretor do Museu, falei-lhe do engano nas proporções da obra-prima em foco, e ele me disse que minha “ilusão” se devia ao tamanho da sala onde o quadro estava exposto.

- Não – atalhei. – Preciso de uma escada para pintar as partes mais altas e, aqui, eu não precisaria disso.

Não o convenci.

A internet - anos depois - me trouxe a confirmação de que estava certo: são estas as medidas que constam HOJE em el Jardín, na wikipédia:

Dimension Height: 185.8 cm.; Alto con marco: 205.5 cm. Nada de 2,20 m de altura, mas 2,05 SE INCLUÍDA a moldura (“alto con marco”). Sem ela, como era o que me tocava, 1,85 m. Donde se conclui que meu trabalho tem 34, 2 centímetros a mais do que o original, ... por um erro DELES, felizmente já sanado, como tive o prazer de constatar no novo guia do museu que me trouxe o Nelson Barros, que recentemente esteve na Espanha.

OK.

Catorze anos depois, outubro de 2008, tive, ao voltar de Londres, uma troca de e-mails com a Galeria Nacional – a célebre National Gallery da Trafalgar Square:

- Seu acervo é magnífico, mas chocou-me o estado de uma de suas principais peças, O Casal Arnolfini, de Van Eyck. O retrato duplo, famoso pela límpida e clara meticulosidade, está... escuro! Tanto, que não consegui ver, nele, as minúsculas – por isso mesmo célebres – cenas da Paixão, na moldura circular ao redor do espelho olho-de-peixe, ao fundo da cena!

Jan van Eyck
Resposta:

- Agradecemos sua especial atenção, mas o que temos a lhe dizer é que obedecemos a padrões internacionais de conservação e restauração de obras de arte. - Sinto pela insistência – revidei -, mas o Cristo crucificado sumiu, no óleo sobre madeira que os senhores têm aí!

- A explicação, parece-nos, está no fato de que em fotos de alta resolução costuma-se ver o que não se consegue divisar na própria obra.

Desisti, sem acrescentar que tivera mais três decepções na visita à deslumbrante coleção . Eu fizera – anos antes - uma cópia do Autorretrato de Rembrandt com trinta e quatro anos, assombrado pelo seu chiaroscuro. A diferença entre o que se vê nas fotos e seu original, que vi em Londres, é escandalosa! Parece que alguém trocou a lâmpada de duzentas velas que a iluminava, por uma de vinte. O mesmo senti, angustiado, ante A Ceia em Emaús, de Caravaggio, lindíssima e muito viva nas fotos de que disponho, opaca e sem vida, no original. E a celebérrima luminosidade das pequeninas telas de Vermeer? Nem pensar!
-
Ôh, mas claro que isso foram detalhes altamente compensados por enormes deslumbramentos - como ante a “Vitória de Samotrácia”, por exemplo, no Louvre, ou o “Las Meninas”, do Velásquez, no Prado

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